Busca inútil

Busquei você
No voo de cada pássaro que avistei
Na espuma de cada onda que chegou na areia
Nas pedras dos caminhos que trilhei
No brilho de cada estrela que surgiu no céu
Em cada curva das estradas que passei
Nas pegadas que avistava nas praias
No último gole de cada dose que tomei
Busquei você
Mas não encontrei
Você já não estava
Era o voo malogrado do pássaro morto
Era a onda que não chegou na praia
Era a pedra que rolou no abismo antes do meu passo
Era a noite escura em que as estrelas não brilharam
Era a estrada interditada
Era a praia que o vento revolvia
Era a dose que não bebi até o final
Você era a ilusão
O que não existia
Quem nunca chegou de verdade
A mentira bem engendrada
A pedra falsa no anel barato
A embalagem de presente preenchida de vento
Você era, na realidade, o nada...

(Imagem: banco de imagens Google)

Lobo ferido (Memória, dois anos)

Ao longe lambe suas feridas

Espera – talvez, um gesto de chamada

Desdenha, talvez, de um gesto de chamada

Esse lobo, alongado, que se afasta

Que não se basta mas se imagina

Onipotente e suficiente

Mostra os dentes para os mansos

E cai na armadilha dos ardilosos…

Inquieto, já não sabe o que busca,

Esse lobo que abandonou sua alcateia

E agora vaga, solitário e faminto…

Espaço para Ângela Caboz

Dia de poesia – Mia Couto – Já não há mais domingos

Sem dor

Doeu. Doeu muito. Doeu demais.
Ainda que lhe quebrassem todos os ossos do corpo ao mesmo tempo
ou se lhe esmagassem todos os músculos
Se lhe arrancassem todos os órgãos
Ou lhe tirassem a pele em vida,
Nada
Absolutamente nada
Doeria tanto quanto essa ausência
Por isso agora parte
Já não chora – as lágrimas secaram
Já não dói – esgotou a capacidade de sentir dor
Já não sofre – exaurido na dor já sentida
Parte.
Apenas parte.
Sem lamento. Sem sofrimento.
Sem bagagem. Sem adeus.

(Imagem: banco de imagens Google)