
Um pouco mais de Mia

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Eu sou aquela que espera, dia e noite Uma espera sem acreditar Uma espera de nada Por vezes nem mesmo sem nem saber O que se está esperando Porque já não se deseja nada Tanta espera, tanto vazio E uma saudade sem fim Eu sou aquela que sente saudade De um tempo, de um dia, De um momento, quase nada Saudade de um olhar, de um toque Um cheiro que o tempo não leva Um amor que o tempo não extingue Uma esperança desesperançada Um querer que só faz sofrer Eu sou aquela que sofre Por um abandono inexplicado Por um descaso tão doído Um sofrer do fundo da alma Que apaga o brilho do olhar Que embaça até as estrelas E tem sempre vontade de chorar Eu sou aquela que chora Que as lágrimas escorrem quentes Em uma face agora sempre gelada Chorar de amar inutilmente Uma paixão sem futuro De tanto esperar e ter saudade De tanto sofrer e chorar De tanto querer morrer
(Imagem: banco de imagens Google)
Por serem tão desatinados, talvez Deus perdoe os poetas. (Walter Duarte)

Com essa e outras frases, as quais serão comentadas em outras ocasiões, meu amigo poeta Walter Duarte encanta meu pensamento com sua preciosidade “Cotidiano” (Editora Oficina do Livro). Desafia o meu pensar.
Desatinados – o que é desatinado? Aquele que comete desatinos? Aquele que não tem tino? O que é tino e qual motivo os não poetas o têm?
Para o dicionário, tino é discernimento. Juízo. Portanto, desatinado é aquele que perdeu o tino – sem juízo, sem discernimento.
Tudo que Deus faz é perfeito – conforme se diz comumente. Então, meu caro amigo Walter, não se trata de Deus perdoar os poetas por serem desatinados. Na verdade, Deus os fez desatinados para que pudessem ser poetas.
Imagine o verso quadradinho, a poesia engessadinha, de um poeta com tino. Não, Deus sabe o que faz e faz com perfeição – já nos fez, a nós, poetas, desatinados, para que déssemos vazão à poesia.
A poesia nasce da paixão. Da intensidade dos sentimentos. Apaixonar-se é o salto no escuro – tem de ter muita coragem e pouco juízo. Quem tem tino não se apaixona.
Deus não nos perdoa, a nós, poetas. Ele nos aceita e nos ama. Entende nossa loucura. Ele nos fez assim.
Somos poetas porque somos desatinados, apaixonados, insensatos, sofredores e intensos…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avizinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabor que tinha A tua boca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcíssimas dum beijo E é de seda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha boca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti...
(Do grupo Florbela Espanca de Portugal e do mundo)
