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Músicas
Saudade é como sol de inverno: ilumina, mas não aquece.

Ouço Isabel, com o grupo Il Divo.
Flutuo. Saio do chão. Que vozes, que arranjos, que repertório.
Algumas músicas nos tocam de forma especial e se tornam parte de nossa alma, é emoção pura.
Vejo que muitas das músicas que me empolgam têm um nome feminino ou se referem a uma determinada mulher.
Foi assim com Luiza, Ana Luiza, Carolina, Débora, Espanhola, Audrey…
E, principalmente, com Lígia.
É inevitável, ao ouvi-la, uma fugaz lembrança do que não foi, não aconteceu, ficou num passado tão remoto que parece que não vivi, não foi comigo.
E outras músicas, que também mexem com a emoção, sem estar necessariamente ligadas a nenhuma pessoa, a nenhum fato, mas despertam algo como uma recordação fugidia, uma evocação abstrata, que não se detém em nada palpável, tudo escapa do controle do pensamento, você quer pensar em alguma coisa fixa, mas tudo passa pela cabeça.
Um violino que parece um lamento, um sax chamando para o sonho, o piano que leva a lugares desconhecidos.
Os boleros, blues e jazz que ouvimos ao fundo das conversas nos bares, ainda que toquem sempre as mesmas músicas, mas dão o ar todo especial, algumas músicas da fase áurea do Chico Buarque, Tom Jobim, e, sempre ele, especialmente, Vinicius de Moraes, meu grande ídolo na poesia e na música.
Nada melhor que um barzinho bem lindo, com decoração apropriada, um uísque de primeiríssima, malte, aqueles petisquinhos para acompanhar, uma ótima companhia e… o piano com sax e celo.
Isso é programa. O resto é mera tentativa.
Acho, que, no fundo, estou começando a envelhecer.
(Imagem: Banco de imagens Google)
Texto provavelmente de Simone Siqueira

Eternamente, 30 anos sem ele…
Pânico (Memória)

Sinto frio. Mesmo não sendo inverno. Muito frio. E aqui está bem escuro, quase treva. Tenho medo, muito medo.
Eu não consigo me segurar, deslizo rumo ao fundo desse abismo que me engole. Estou apavorada, tento me manter à tona, mas tudo é liso, escorregadio.
Caio.
A cada momento caio um pouco mais, não tem fundo esse poço em que me encontro, só frio e escuridão. E pavor. Um pavor brutal.
Não sei onde estou, não posso ver nada, estou indo em direção ao inferno. Novamente terei de atravessá-lo. Sozinha.
Mesmo que eu grite ninguém me ouvirá. O som fica preso em minha garganta, ouço meus soluços e choro. Estendo a mão. Não há outra mão à minha espera. Até mesmo quem prometeu estar sempre a meu lado, cuidar de mim, agora não pega na minha mão, deixa-me cair nesse lugar horrível, afundo mais e mais. E choro.
Quero chamar por meu pai, ele sempre me acudiu, me protegeu. Mas ele partiu em sua viagem sem volta, não está mais aqui. Choro ainda mais pela falta de meu pai, pela saudade torturante que sinto dele. Estou sozinha.
Abandonada. Até por mim mesma eu estou abandonada, já não me tenho. Minha fraqueza me mostra o quanto era falsa minha força.
Ouço vozes, risadas. Em algum lugar há pessoas despreocupadas e alegres. Provavelmente o lugar em que estão é iluminado. Essas pessoas não virão em meu socorro. Estão ocupadas em sua despreocupação. Não têm tempo nem vontade de ver que há pessoas sofrendo em volta.
Eu me encolho, começo a sentir dores. Não consigo respirar direito. Facas se movem dentro de mim e as dores são terríveis. Já não consigo mais me mexer. Ainda choro, mas até os soluços provocam dores intensas.
Até quando aguentarei viver imersa nesse pesadelo? Peço a Deus que tenha misericórdia. Estou no final de minhas forças.
O ar acaba. Meus pulmões queimam em busca de oxigênio. Preciso respirar. Estou me afogando nesse fundo lamacento em que tento me levantar. Estou com sede, preciso de água. Tateio em busca de algum objeto. Minha mão encontra algo.
Não consigo enxergar o que peguei. Parece um comprimido, um medicamento. Não tenho como identificar o que é no meio dessa escuridão, mesmo assim, em desespero total, coloco na boca e engulo a seco.
Sinto mais sede.
Não sei onde tem água.
Continuo a procurar água ou alguma coisa para beber. Encontro um rosário. Avidamente me ponho a rezar. As palavras me acalmam. O medicamento me acalma. Está frio e muito escuro. Ainda choro, já não sei quem eu sou.
A oração e o remédio fazem efeito.
Adormeço.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – A solidão da flor (Memória)

A flor
tão altiva e convencida
cheia de orgulho e soberba
se olhou no espelho.
E se viu tão solitária,
sozinha no vaso, sem amor,
deitou a cabeça
e morreu…
(Imagem: banco de imagens Google)