Dia de poesia – Mia Couto – Aprendiz de ausências

Morrer
como quem deságua sem mar
e, num derradeiro relance,
olha o mundo
como se ainda o pudesse amar.

Morrer
depois de me despedir
das palavras, uma a uma.

E no final,
descontada a lágrima,
restar uma única certeza:

não há morte
que baste
para se deixar de viver.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de saudade e poesia – (43 anos sem) Vinicius de Moraes – Os inconsoláveis

Desesperados vamos pelos caminhos desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são os infelizes
Que eles são os sem-consolo...

Quando virá o fim da noite
Para as almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?

Ei-la que vai, a procissão das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque os olhos parados não veem.
Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo...
                ...são os Inconsoláveis.

(Imagem: banco de imagens Google)

Passado – ou sempre presente?

O que é o passado? Aquele passado que não sai da mente, do sentimento, da vontade…

Aquele passado que a saudade faz ser presente…

Se você lê um livro, acaba cada capítulo, vira a página, e o capítulo é passado.

Não estará esperando, páginas à frente, para ser relido. Leu. Acabou. Passou.

Você está viajando, em cada cidade do caminho há um trevo. Você passa pelo trevo e a cidade ficou lá atrás.

Não estará alguns quilômetros à frente esperando na beira da estrada. Passou. Acabou.

Mas a vida, ahhhhh, na vida não existe passado. Há fatos vividos, mas não passados.

Você vive. Pensa que acabou. Que seguiu em frente.

Mas, de repente, lá está o acontecimento martelando na mente, no coração, na saudade, no hábito… e você revive tudo – uma, duas, dez, vinte vezes. E, se engraçado, ri de novo. Se triste, chora como se tivesse acontecido nesse instante.

E vê que não passou. Está tudo vivo, em brasa, ainda que sob algumas cinzas, dentro do coração. O coração, traiçoeiro, mistura tudo dentro de nós. E a mente, maliciosa, traz de volta o que você queria ter esquecido.

Então você chega à conclusão de que, na vida, não existe passado. Você vive a mesma sensação tantas vezes quantas o coração e a memória a trouxerem à tona.

Não há passado. Há calendários e datas, regulando o tempo.

Mas, dentro de nós, tudo é sempre presente.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Nós – e nós

Se há só um nó, já somos nós?
Com quantos nós se faz um nós?
Nós somos laços ou somos nós?
Quantos laços se desfazem sem ser nós,
Quantos laços viram nós?
De quantos laços somos nós?
Já fomos laços ou sempre nós?
Como se desmancham os nós,
Aqueles que nos tornaram nós?
Se já não existem mais nós,
Será que ainda existe nós?

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Passos à deriva (Memória)

Não marquei o caminho
Nem segui meus próprios passos 
Nem deixei pegadas
Apenas caminhei – fui adiante
Sem rumo, sem paradas
Sem querer ir nem querer ficar
Sou caminhante nesta vida
Passei por tantos lugares
Dos quais não me lembro o nome
Nem mais sei a direção
Sigo num só sentido
Seguindo o vento que me engana
Buscando o mar que me espera
Olhando as estrelas que me guiam
Chegarei. Um dia sei que chegarei
No lugar para onde vou
No lugar onde haverá amor
E, quem sabe, até mesmo
Poderei dizer “eu sou feliz”

(Imagem: banco de imagens Google)