De outras saudades (Memória)

Não gosto de passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente.(Guimarães Rosa)

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Como não meditar ao ler essa frase de Guimarães Rosa? Ao primeiro momento, choca – “Não gosto de passarinho”. Como assim? Existiria um único ser humano em toda a história da humanidade que não gostasse de passarinho? Não imagino que isso possa ser possível.      

E ele continua: “Não gosto de violão”. Bem, quanto aos instrumentos e seus sons, cada qual tem sua preferência. Pode ser momentânea, pode ser permanente, mas sempre se gosta mais de um, o som de algum é mais agradável.      

Então ele completa: “Não gosto de nada que põe saudades na gente”.   Ah, agora faz sentido.

Quando a passarada canta ao alvorecer, traz de volta lembranças de tantos outros dias amanhecendo, que se foram, que se queria reter entre os braços, nas mãos, ou nos olhos, mas só se pode reter na lembrança.    

E o violão, ao anoitecer, quando as cordas choram canções de amores perdidos, despertam em todos outras emoções causadas por suas próprias perdas.     

Tudo isso dói.    

Então concluo que Guimarães Rosa gostava, sim, de passarinhos e violão. Mas sofria com a saudade que esses lhe traziam de volta e o peito doía na saudade do que perdeu.     

Carregamos nossas saudades tão bem guardadas, tão escondidas, mas um som, uma música, um rua, uma praça, uma quase-nada as desperta e elas tomam força, nos invadem e nos fazem sofrer até a última gota. Temos de assumir nossas saudades e as lágrimas que elas nos causam. Se temos saudade, tivemos alegrias, amores, paixões, momentos que valeram a pena. Mesmo doendo, elas dão o prazer de trazer à lembrança a felicidade que se foi.    

Ele, Guimarães Rosa, amava passarinhos e violão. Tanto que despertava na alma as saudades mais doloridas.

Dia de poesia – Adelia Prado – Amor Feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Na conchinha de um abraço

Entre a paz e o desespero, 
a ordem e o caos
Entre todas as forças, 
centrífugas e centrípetas,
Estáticas e dinâmicas, 
elétricas e magnéticas,
Entre todas as formas, 
côncavas e convexas,
Esféricas e angulares, 
planas e geométricas
Entre a física e a química 
Entre todas as posições, 
Todos os mundos e vidas,
Só fui encontrar a paz
Na concha do seu abraço

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – A poesia da chuva

Acho que nunca mais vai parar de chover… então trago novamente esse poema…

Sim, há poesia na chuva. A água que docemente cai do céu, limpa o ar, renova a vida.

Há poesia na chuva. Que cai em gotas como se fosse o pranto celestial por essa humanidade ingrata e violenta.

Há a poesia de um guarda-chuva unindo dois corpos que caminham pelas calçadas da cidade, sem pressa, sem preocupação, celebrando o amor.

Há poesia no corpo preguiçoso, que escolhe a tarde de chuva para ficar na rede da varanda, vendo os pingos correrem pelos telhados, ouvindo o doce murmúrio nas calhas e condutores.

Há poesia no canto dos pássaros que celebram a chuva e ávidos esperam que ela acabe para buscarem os bichinhos que surgirão nos gramados.

Há poesia no barulho gostoso e ritmado das gotas nas janelas.

Há poesia no cheiro da chuva que invade as narinas e nos remete a verões antigos, cozinhas toscas, fornos de lenha.

Há, ainda, poesia na chuva, que deixa, atrás de si, o radioso rastro de um lindo arco-íris...

(Imagem: foto de Maria Alice)

Les Voyageurs – de Bruno Catalano

Não há como apreciar essa esculturasem se emocionar, sem aquele aperto no peito de ver alguém deixando para trás a própria vida para tentar sobreviver…

Bruno Catalano, escultor francês, nos brinda com esse trabalho extraordinário – Les voyageurs ou I viaggiatori ou Os viajantes.

O escultor desconstrói a figura humana e retrata o imigrante: ele se vai, leva sua bagagem e parte de seu corpo. Porque não consegue partir por inteiro – sua alma, sua essência, seu amor ficarão na terra natal. A fragilidade de quem se vai, deixando tudo para trás.

Há várias dessas esculturas espalhadas em portos, estações de trem e outros locais de partida de imigrantes. A obra aqui destacada está no porto de Marseille, na França.

Texto de Ângela Caboz – Teu silêncio

Sabes a que cheira um silêncio, ou então, qual é a forma da saudade.

Claro que não sabes!

Os sentimentos são como as estrelas brilham no escuro, misturando-se com a luz.

Estão para lá da linha dos olhos e brilham dentro de nós.

O nosso silêncio, esse eu sinto-o na minha pele, ainda antes mesmo das tuas mãos me tocarem.

O nosso silêncio arrepia-me com a brisa do teu desejo. Eu sinto-te até quando não estás.

Tu és o ruído do meu sentir, as mãos que massajam os meus sonhos.

Sinto-te a deslizar para dentro de cada um deles, para que o nosso silêncio nunca acabe.

A saudade, por vezes, bate na minha porta e essa chega sempre com as formas do nosso amor.

Tem a forma exacta dos meus sonhos, aqueles onde o nosso amor se encaixa em tudo o que somos.

Ela chega e vai espalhando o teu cheiro pelos quatro cantos da casa.

Vai soprando o som das tuas palavras pelo ar que eu respiro.

A saudade grita por ti e eu respondo-lhe que já senti o cheiro da tua voz , num amo-te que roçou agora mesmo os meus ouvidos.

Digo-lhe que senti esse sopro que me empurrou para cima da cama, onde tu ontem me amaste em silêncio.

Onde o teu beijo deixou as marcas da paixão que sentimos para que a razão não multiplicasse as dúvidas julgando que uma simples distância poderá ser superior à proximidade de tudo o que sentimos.

É tão tonta a saudade, que julga que a razão pode suicidar o que nós fazemos de eterno.

O teu silêncio tem o meu cheiro e tua saudade tem a forma do meu amor. Nasci assim, já vivendo dentro deste amor.