As mulheres vão embora – Martha Medeiros

“Toda mulher tem um homem que se foi”. Assim começa um poema que escrevi cerca de 20 anos atrás, reforçando a ideia de que eles saem para comprar cigarro e esquecem de voltar.

A sociedade sempre aceitou como natural a figura do homem que um dia se enrabicha por outra e abandona a família, ou, dizendo de forma menos cafajeste, a do homem que deixa de amar a esposa e reconstrói sua vida.

Pertencia só a eles a liberdade de ir e vir.

Tinham dinheiro no bolso e eram donos de seus narizes: às mulheres restavam as lágrimas e uma pensão para os filhos, tivessem um bom advogado.

Hoje, as mulheres também vão embora.

Não precisam alegar que irão comprar cigarro na esquina, a sinceridade é mais saudável: elas se vão porque a relação se desgastou, se vão para escapar de um parceiro agressivo, se vão porque se apaixonaram por outro, se vão porque evoluíram profissionalmente e novas oportunidades surgiram.

Se vão porque assim decidiram.

Diante da secular hegemonia masculina, nossa independência ainda é uma novidade, nem todos se acostumaram.

Mas homens esclarecidos e sagazes nos respeitam.

Sofrem, como nós sofremos com a partida deles.

Choram. A dor da perda é a mesma.

Vez que outra, os mais inconsoláveis rogam praga: “você vai ficar sozinha para o resto da vida!”.

Cuidado. Em vez de inibi-la, a ameaça poderá entusiasmá-la: o que não falta é mulher sonhando em sair de uma relação para viver só para seus livros, filmes e amigos, livre como o vento soprando nas montanhas.

Pena que não há poesia na ignorância.

Uma mulher que se vai, para muitos, é uma afronta.

Homens mal preparados para a igualdade não sabem lidar com a rejeição.

Em vez de buscarem uma terapia para ajudar, eles buscam a arma que escondem em cima do armário, buscam uma faca na gaveta da cozinha e aumentam os índices de feminicídio. É só ler os jornais, acompanhar as estatísticas. É sempre a mesma razão banal: matou porque ela teve a audácia de largá-lo.

Extra, extra! As mulheres vão embora.

Ganham o próprio salário e vão embora.

Leem, se informam, se unem, se reconhecem em outras mulheres, e se for necessário, vão embora.

São mães e vão embora sem fugir de suas responsabilidades: estão protegendo os filhos de um ambiente hostil.

Amaram seus homens, foram felizes com eles, e quando deixaram de ser, foram embora.

Nada de novo, é o que os homens sempre fizeram.

Novidade seria se eles fossem assassinados por causa disso.

Eduquemos bem nossos meninos de 8, de 10, de 15 anos: mulheres não são propriedade alheia, elas vão embora.

Cientes dessa realidade, quando adultos eles se tornarão os melhores companheiros, os mais inteligentes, os mais amorosos, aqueles que darão a suas parceiras todos os motivos para ficar.

Solidão

A harpa e seu lamento retido em nervos de metal dourado,

Tão suave instrumento ressonante ou delgado,

Buscam, ó solidão, teu reino gélido. (Garcia Lorca)

Como definir a solidão, se não é igual para todos? É o que de mais relativo existe neste universo.

Para os poetas é inspiração, para os amantes – se juntos é o ideal, se separados é desespero, para crianças é medo, para tantos adultos é tranquilidade ou angústia…

A cada fase da vida a solidão se transforma, adota outros significados.

Um bebê deixado sozinho fatalmente morrerá. A cada vez que não visualiza o rosto da mãe o bebê chora porque não tem noção de tempo nem distância e encara a solidão momentânea  como total e definitivo abandono.

Nos primeiros anos da vida a solidão se transforma em medo – medo do escuro, medo do desconhecido, medo da noite…

Conforme vai crescendo vai aprendendo a dominar seus medos – especialmente os medos abstratos – para mostrar maturidade. Ninguém é ridicularizado se mostra medo de uma serpente, mas se disser que tem medo da noite vira motivo de infinitas gozações…

E na idade adulta esses medos têm que ser controlados. Aí a grande arte de viver.

O medo da própria vida geralmente se transmuda em timidez. Cada medo vai encontrando uma forma de se encaixar na realidade. E saber lidar com essa gama de emoções se torna essencial para a convivência.

E o medo da solidão mais cedo ou mais tarde aparece para todos. Vencê-lo é o desafio. Ou conviver com ele e fazer da solidão uma aliada da jornada terrena.

Quem é mais solitário, o filho que fecha a porta do quarto e ali permanece horas ou dias inteiros ou a mãe, que não tem essa escolha e continua nas lides domésticas, fazendo o trabalho invisível, que é feito exatamente para ser desfeito em seguida?

O defunto que é enterrado sozinho em sua caixa de madeira enfeitada ou a viúva, que terá que continuar viva, caminhando sozinha na vida depois de tantos anos de companheirismo?

A irmã que chora ao se despedir da irmã que vai embora para sempre do país ou essa que vai enfrentar o desconhecido em outras terras?

Todos são igualmente solitários.

E a pior de todas as solidões, sem dúvida, é a solidão cotidiana, dentro do grupo em que se convive.

Solidão em família, solidão entre amigos, solidão no ambiente de trabalho.

Todos passam, em algum momento da vida, por solidão. Doída, aguda, insuportável, porém inevitável.

E surpreendentemente, muitos conseguem lidar de forma extraordinária com a solidão, fazendo dela uma grande aliada, a melhor companheira.

E são felizes sozinhos, a companhia de outro ser humano, eventual, passageira, chega até a incomodar, porque se sentem melhor sozinhos…

Se a solidão é opção se transforma mesmo em felicidade.

E equilibrar tudo isso é a maneira de se viver em paz: não se desesperar com tempos de solidão e dar valor às pessoas com as quais se convive – momentânea ou permanentemente.

(Foto de Maria Alice)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 18 – Cruz e Souza

João da Cruz e Sousa, conhecido no mundo literário como Cruz e Sousa, nasceu em 21 de novembro de 1861, na então cidade de Desterro, hoje nominada Florianópolis, capital de Santa Catarina.

Seus pais foram o mestre pedreiro Guilherme da Cruz e a lavadeira Carolina Eva da Conceição, ambos negros escravizados alforriados. Cruz e Sousa recebeu, como de costume na sociedade escravocrata, o sobrenome e a proteção do senhor de escravos que o apadrinhou, o coronel Xavier de Sousa, recebendo educação formal, ao passo que seus pais continuaram vivendo um vida de subjugação.

Aos oito anos de idade, Cruz e Sousa iniciou seu gosto pela poesia, ocasião em que declamou versos de sua autoria, os quais homenageavam o retorno do coronel Xavier de Sousa da Guerra do Paraguai.

Entre 1871 e 1875, o jovem poeta cursou, como bolsista, o Ateneu Provincial Catarinense, estabelecimento educacional de elite. Teve como professor de ciências naturais o naturalista alemão Fritz Muller, amigo e colaborador de Darwin. Muito inteligente, Cruz e Sousa destacou-se em matemática e línguas estrangeiras, como francês, inglês, latim e grego.

O poeta, assim, inseriu-se de vez na vida literária, fundando, com Virgílio Várzea e Santos Losada, em Santa Catarina, o jornal semanal Colombo, periódico literário de cunho parnasiano. Participou também do grupo Ideia Nova, e, em 1885, publicou, com Virgílio Várzea, o livro Tropos e fantasias, obra em que se encontram textos abolicionistas. Dirigiu o jornal ilustrado O Moleque, fortemente discriminado pelos círculos sociais locais devido ao seu viés crítico. Colaborou no jornal republicano e abolicionista Tribuna Popular, considerado o mais ilustre jornal catarinense do período.

Em 1890, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou com diversos veículo de comunicação, nos quais publicou artigos-manifestos do simbolismo. Conviveu intelectualmente com Raul Pompéia e com Olavo Bilac. Em 1893 lançou um de seus principais livros, a obra de poemas em prosa Missal, e Broqueis, livro de poemas.

Casou-se com a jovem negra Gavita Rosa Gonçalves, com quem teve quatro filhos.

Acometido pela tuberculose, mudou-se para o interior a fim de melhorar sua saúde. Entretanto, a doença não se estabilizou, e o poeta morreu, em 19 de março de 1898, aos 36 anos de idade.

(Fonte: Brasilescola)

Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


Ódio sagrado

Ó meu ódio, meu ódio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.

Ó meu ódio, meu lábaro bendito,
Da minh'alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

Ódio são, ódio bom! sê meu escudo
Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!