Em testamento (Memória)

Comigo eu trago mais de 23.000 ontens,

por isso sei que me restam poucos amanhãs

Fiz muitos de meus caminhos – nem sempre segui

aqueles já traçados por outros pés, porque

eu não queria atingir só os mesmos pontos de

chegada que outros, antes, já alcançaram

Viajei países, conheci o céu e, solitária,

atravessei o inferno; a tudo sobrevivi.

Foram tantas vírgulas nesta minha vida

tantos pontos finais e outros de interrogação…

Tive tantas perguntas sem conseguir respostas

Contei tantas estrelas, para esquecer logo depois

Mas sei que chegará, em breve, a hora de partir

para uma última viagem – esta, sem volta

Enfrentarei. Com coragem e sem lamentos.

Passei na vida por todos os ângulos vistos:

Agudos, retos, obtusos e rasos

Aparei muitas arestas pontiagudas

Escalei montanhas feitas de pura areia

Mergulhei em águas gélidas, rodei em tantas

correntezas, feri-me em pedras e sequei ao sol.

Junto de tantas linhas retas e duras que desafiei

também vi as curvas do mar e do infinito

ao se encontrarem no ponto mais distante do olhar

A mim, me foi dado contemplar o belo,

Ouvir os pássaros e o som dos violinos

E me emocionar com a arte, com a perfeição,

Conhecer o amor e viver a paixão infinita,

E, dentre todos – retas, ângulos e curvas,

nada eu amei mais, ou me fez mais feliz

do que o encontro sempre perfeito e ideal

de nossos côncavos e convexos se completando

nas curvas de um abraço tão apaixonado

no aconchego de nossas noites de amor.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – utopia (autoria desconhecida)

haverá  um tempo que não precisaremos medir as
palavras
será um
"eu te amo"
"te quero por perto"
e "que saudade de você" para todo lado.

por todo canto
será um
"há quanto tempo eu não te vejo"
"por onde você esteve?"
"estou apaixonado
".

e sem medir as palavras
conseguiremos aumentá-las
esticá-las
e colocá-las
em pessoas
não em intenções

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Walter Duarte – Era uma vez… uma foto

Ela é estrela radiante,
que faz inveja ao luar,
olhos par de diamantes,
luzes do dia ao raiar.

Seu jeito... singelo encanto,
talvez mel em sua fala,
soubesse, compunha um canto
para tentar agradá-la.

a divagar cá me ponho,
se ela for somente um sonho,
eu não queria acordar.

Tenho-a na minha lembrança,
no coração, a esperança,
quem sabe um dia a encontrar.

Ventos do pensamento (Memória)

A tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem.
(Oscar Wilde)

A tela continua branca, depois de uns dez minutos que aqui estou. Se escrevesse à moda antiga diria que a folha continua branca. Os pensamentos voam, não necessariamente junto com o tempo.

Porque o tempo voa de forma ordenada, com a lógica cronológica.. Os pensamentos, pelo contrario, voam desordenadamente, vão, voltam, somem, outros surgem, como papéis soltos em uma ventania.

É exatamente isso: uma ventania.

Acho que mais que uma ventania minha mente enfrenta um tornado, um furacão.

E assim fica difícil agarrar um único pensamento, laçá-lo como se fosse um cavalo selvagem, domá-lo para finalmente o expor.

Nenhuma ideia passa perto o suficiente para ser então apreendida.

São sensações dos novos tempos, da vida moderna.

Recebemos simultaneamente milhares de informações, não temos tempo hábil para processá-las. Nossa memória superficial não recebe a faxina necessária para separar o que não precisa ser guardado e se livrar disso e enviar para a memória profunda tudo o que precisa ser arquivado.

Usamos melhor nosso computador do que nosso cérebro, ignorando que o computador é burro, sem nosso cérebro ele nada vale.

Enquanto estou aqui escrevendo minha mente vagueia por preocupações, serviços por fazer, tarefas não cumpridas, montando mirabolantes agendas inexequíveis, indagando se acharam o avião que sumiu no mar, se vai fazer frio no final de semana, preciso ir ao supermercado, quero acabar um colete de tricô para usar ainda neste inverno…

Para viver de acordo com este tempo tão curto levantamos cada dia mais cedo, vamos dormir mais tarde, e nem por isso o tempo rende mais.

E nesse roldão envelhecemos sem perceber. Por vezes um acontecimento extra nos tira dessa confusão e nos damos conta de quanto tempo passou desde a última vez que saímos para dançar; visitamos uma querida prima idosa; fomos caminhar lentamente sábado à tarde à beira-mar tomando um sorvete de casquinha, ou simplesmente saímos para dirigir pelo puro prazer de dirigir, ou de moto só para pilotar, indo a lugares próximos,  pitorescos, para encontrar um grupo de amigos também em passeio sem nenhum propósito que não seja passear, numa demonstração explícita e assumida de deixar o tempo passar. São singelos prazeres que já não nos permitimos, porque não podemos perder tempo.

O tempo não nos pertence, não está em nossa posse, por isso não podemos perdê-lo.

O tempo pertence ao tempo, e não passa, apenas gira. Nós é que passamos.

E com toda nossa pressa, com toda nossa eficiência, passaremos, e o tempo, brincalhão e gozador, continuará girando indefinidamente em redor dos homens que tentam  inutilmente segurá-lo.

Poesia da casa – Pequeno pássaro

Quando você pega meu coração em suas mãos
e o acaricia, como se fosse um pequeno pássaro ferido 
e então eu vejo como ele realmente é:
fraco e vulnerável em sua dolorida fragilidade, 
um pequeno e indefeso pássaro caído do ninho
que sobrevive no medo, no abandono e sobressalto,
sem nada esperar do futuro, sem nada ter vivido.
Não sei se você compreende esta minha inquietude,
que se traveste de insensatez quando busca o amor.
Esse coração, qual pequeno pássaro doído,
se sente seguro e protegido em suas mãos fortes:
essas mãos que povoam meus sonhos 
e preenchem meus dias,
mãos que me acarinham, mãos que me buscam
e me levam até você, em encantado aconchego,
com o cuidado de quem segura fino cristal .
Você sabe que poderei quebrar ao menor movimento,
porque já são tantas trincas de dores já passadas...
E cuidadosamente, você segura em suas mãos 
esse meu coração que bate pelo seu, que eu
sinto derramar em mim toda a ternura do mundo
e então consigo entender o sentido da vida.
(Imagem: banco de imagens Google)