Para quando a saudade aperta…
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Poesia da casa – Minhas verdades

Eu quero me desconstruir diante de você
Mostrar um lado desconhecido e insuspeito
De pensamentos estranhos e encobertos
Guardados num canto sombrio da alma
Então você saberá quem eu sou na verdade
Porque sempre lhe foi revelado meu melhor
Diante de você eu despi minhas vaidades
Revelei minha luz, entreguei meu sorriso
Você conheceu minha bondade, minha parte gentil
E nunca sequer supôs existir essa outra face
Não soube que posso ser mesquinha e maldosa
Que posso destruir e também sei odiar
Por trás de um sorriso e uma amabilidade
Você não percebeu que poderia haver fúria,
exasperação, horror, desprezo, raiva e rancor
Que no meio de tantos sentimentos também
Existiram outros tantos ressentimentos
Quero que agora veja como sou real
E não sonhe mais com essa perfeição idealizada
Veja meus dois lados, conheça minhas verdades.
E se não puder aceitar, então me desame…
(RP,28.06.2019)
(Imagem: banco de imagens do Google)
Dia de poesia – Perce Polegatto – Rostos

Para quem guardarás teu rosto? - este mesmo que hoje claro compartilhas com os que te sabem e também hão de acompanhar-te pelas sombras e mais que estranho aguarde em outras trilhas. Para quem guardarás teu rosto? - e a expressão possível de conquistas mais dignas se o mesmo destino sem trégua move a um tempo a face do anjo e o registro das rugas benignas. Para quem o guardarás um dia se mesmo agora te quedas ante os restos, os retratos e outros teus espelhos apodrecidos de esperas? - e já não queres mais olhar-te como és nem podes alcançar-te como eras. (Imagem: banco de imagens Google)
S’il faut mourir un jour
Triste, muito triste, mas verdadeiro. Também quero morrer assim…
Dia de poesia – Álvaro de Campos – O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço — Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto em alguém, Essas coisas todas — Essas e o que falta nelas eternamente —; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada — Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço, Íssimo, íssimo, íssimo, Cansaço...
Devaneios preciosos
Gota de orvalho
na coroa de um lírio:
Joia do tempo
(Érico Veríssimo)
Recebi dois e-mails com o mesmo assunto: por alguns milhares de euros, você pode mandar suas cinzas para a Suíça e será transformado num diamante.
E a mensagem avisa que eles não garantem o resultado final, a cor da pedra, que pode variar do totalmente transparente (deve ser para os santificados e as que morreram virgens) até marronzinho e outros tons esquisitos (para a maioria dos mortais já mortos).
Os ecochatos deveriam ser transformados em esmeraldas – verdes; os irados, em rubis – vermelhos; os tímidos e sem graça, em citrinos – amarelos; e assim por diante – cada personalidade teria sua pedra, seria muito mais fashion.
E se, por alguma reação química, suas cinzas ficarem carvão e não se tornarem diamantes? e se sua aura estiver tão suja que no máximo dê um ônix, bem pretinho, mas nunca um diamante transparente?…
De qualquer forma, parece bem interessante. Depois que você for cremado, não ficará aquele empurra-empurra na família sobre com quem ficará com o pó da nona. Mais ainda: haverá até briga para ver com quem ficará o diamante!
Acredito que com muitos euros e bastante cinzas (será preciso engordar um bocado, antes de morrer) dará para fazer um par de diamantes. Ou mais. Aí, você deixaria distribuído: esposa (ou um alfinete de gravata com um diamante para o marido), amante (idem), filhas, noras, sobrinhas, afilhadas, netas…
Pensando bem, o melhor é morrer magro mesmo, como sempre foi, e deixar a verba para um único diamante. E antes, bem antes, com muita antecedência, esclarecer à familiada toda: será um único diamante. Mais que único, ímpar, porque será resultado de suas cinzas.
O feliz ganhador será contemplado em um testamento, ou em um codicilo, portanto, só poderá ser conhecido depois de sua morte.
Mas será, com toda a certeza, aquele que melhor o tratar no final da vida.
Já pensaram como a quadrilha toda vai se esforçar para agradar ao futuro diamante? Nunca um velhinho foi tão bem tratado nestas paragens, tão amado, tão paparicado…
E aí é “deitar e rolar”! Aproveitar tudo de bom que oferecerem, sem se esquecer de deixar o nome do felizardo.
Só não vale dar o golpe: morrer e ser simplesmente enterrado, tornando-se, não um diamante, mas uma carcaça putrefacta!
(Guarujá, 21.03.2009)
(Imagem: banco de imagens Google)