Devaneios preciosos

Gota de orvalho

na coroa de um lírio:

Joia do tempo

(Érico Veríssimo)

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Recebi dois e-mails com o mesmo assunto: por alguns milhares de euros, você pode mandar suas cinzas para a Suíça e será transformado num diamante.

E a mensagem avisa que eles não garantem o resultado final, a cor da pedra, que pode variar do totalmente transparente (deve ser para os santificados e as que morreram virgens) até marronzinho e outros tons esquisitos (para a maioria dos mortais já mortos).

Os ecochatos deveriam ser transformados em esmeraldas – verdes; os irados, em rubis – vermelhos; os tímidos e sem graça, em citrinos – amarelos; e assim por diante – cada personalidade teria sua pedra, seria muito mais fashion.

E se, por alguma reação química, suas cinzas ficarem carvão e não se tornarem diamantes? e se sua aura estiver tão suja que no máximo dê um ônix, bem pretinho, mas nunca um diamante transparente?…

De qualquer forma, parece bem interessante. Depois que você for cremado, não ficará aquele empurra-empurra na família sobre com quem ficará com o pó da nona. Mais ainda: haverá até briga para ver com quem ficará o diamante!

Acredito que com muitos euros e bastante cinzas (será preciso engordar um bocado, antes de morrer) dará para fazer um par de diamantes. Ou mais. Aí, você deixaria distribuído: esposa (ou um alfinete de gravata com um diamante para o marido),  amante (idem), filhas, noras, sobrinhas, afilhadas, netas…

Pensando bem, o melhor é morrer magro mesmo, como sempre foi, e deixar a verba para um único diamante. E antes, bem antes, com muita antecedência, esclarecer à familiada toda: será um único diamante. Mais que único, ímpar, porque será resultado de suas cinzas.

O feliz ganhador será contemplado em um testamento, ou em um codicilo, portanto, só poderá ser conhecido depois de sua morte.

Mas será, com toda a certeza, aquele que melhor o tratar no final da vida.

Já pensaram como a quadrilha toda vai se esforçar para agradar ao futuro diamante? Nunca um velhinho foi tão bem tratado nestas paragens, tão amado, tão paparicado…

E aí é “deitar e rolar”! Aproveitar tudo de bom que oferecerem, sem se esquecer de deixar o nome do felizardo.

Só não vale dar o golpe: morrer e ser simplesmente enterrado, tornando-se, não um diamante, mas uma carcaça putrefacta!

(Guarujá, 21.03.2009)

(Imagem: banco de imagens Google)


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