
Para pensar 38

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Porque traz nas costas as marcas das correias dos pesos que precisou carregar. E traz nos olhos a tristeza das sombras que precisou atravessar. E na alma as mágoas que lhe causaram.
A vida não lhe foi madrinha, mas, por vezes, cruel madrasta.
Caminhou nas pedras e atravessou o inferno a pé. E tudo foi aprendizado.
Hoje, chegado o alto da montanha, olha para baixo e revê toda essa jornada. Muitas vezes não acredita ter superado e ter chegado aqui.
Das dores resultaram apenas cicatrizes – marcas superficiais que mostram que foi mais forte do que as feridas que suportou.
As sombras aguçaram seu olhar e permitiram que enxergasse melhor mesmo no escuro, e através dos olhos alheios. E as mágoas lapidaram o carbono de seus sentimentos, que não se transformaram em carvão, mas em fino diamante.
Desde cedo viu a crueza da vida, e assim aprendeu o valor da felicidade.
E, pisar em pedras ensinou a enfrentar a dor, ao mesmo tempo que conseguiu ver a porta para sair do inferno e voltar à vida.
Porque passou sozinho todos seus piores momentos. Alguns dos melhores teve com quem dividir.
Porque não perdeu a alegria de viver e a esperança a felicidade.
E nada o deteve nem deterá. A sede de viver é maior do que qualquer obstáculo.
E assim seguirá em frente, mais forte, mais lúcido e mais preparado para a vida…
(Imagem: banco de imagens Google)

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
(Imagem: banco de imagens Google)
Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades ou de esperanças. (Camilo Castelo Branco)

Desafio do dia: interpretar essa frase, gravada acima, do grande escritor e poeta português, dirigida aos poetas.
Já registro, de início, que concordo, em parte, com o poeta lusitano.
Quem tem alma vazia de emoções ou cheia de materialismo, jamais conseguirá compor um único verso de uma estrofe.
Saudades e esperanças – exatamente o que alimenta a alma dos poetas.
Mas daí surge a dúvida: por que Camilo Castelo Branco diz “saudades ou esperanças”?
Ter saudades é incompatível com ter esperanças? Por que não saudades E esperanças?
Nesse particular eu discordo do talentoso escritor.
Sou poeta.
E minha alma é plena de saudades e de esperanças.
Porque ter só saudades, sem ter esperanças, fatalmente levará à desesperança. Que é mais que o simples desespero que causou o trágico fim do poeta português.
Isso porque a saudade nos isola, tira a realidade, deixa-nos sós, à beira do precipício.
A saudade, composta apenas de ausência, é o maior tormento de uma alma.
É o nada ao qual nos apegamos para não morrermos de desespero. Quando não resta mais nada, vem a saudade ocupar os espaços abandonados em nosso ser.
E se formos apenas saudade, não teremos outro futuro senão mergulhar no escuro vazio à nossa frente.
Mas, se ao lado da saudade, mantivermos a chama da esperança, tudo muda.
Porque a esperança é o oxigênio que mantém acesa a última vela no escuro do coração.
A função da esperança é manter vivas as brasas sob as cinzas da saudade; alimentar a vontade de viver.
Esperança é o fio que nos prende à vida e impede que nos lancemos no precipício do desespero, do abandono, da saudade.
Somente a esperança nos faz sobreviver à derrocada da solidão e da saudade.
Ouso, então, Poeta, por mais que respeite seu legado – por minha experiência de escrever, eu também, meus versos, e trazer a alma inundada de saudades e algumas esperança – corrigir sua frase: “Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades E de esperanças”.
(Imagem: banco de imagens Google)
