
Dia de Poesia – Conceição Lima – Um dedo de trovas…

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –



Um caminho sem volta!
Antes perdíamos filhos nos rios, nos matos, nos mares, hoje temos perdido nossos filhos dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos suas vozes, escutávamos suas fantasias e ao ouvi-los, mesmo a distância, sabíamos o que se passava em suas mentes. Quando entravam em casa não existia uma TV em cada quarto, nem dispositivos eletrônicos em suas mãos.
Agora ficam com seus fones de ouvido, trancados em seus mundos, construindo seus saberes sem que saibamos o que é, perdem literalmente a vida, ainda vivos em corpos, mas mortos em seus relacionamentos com seus pais, fechados num mundo global de tanta informação e estímulos, de modismos passageiros, que em nada contribuem para formação de crianças seguras e fortes para tomarem decisões moralmente corretas e de acordo com seus valores familiares.
Dentro de seus quartos perdemos os filhos pois não sabem nem mais quem são ou o que pensam suas famílias, já estão mortos de sua identidade familiar.
Se tornam uma mistura de tudo aquilo pelo qual eles tem sido influenciados e pais nem sempre já sabem o que seus filhos são.
E nosso maior erro é pensar que estão seguros.
Convido você a tirar seu filho do quarto, do tablet, do celular, do computador, do fone de ouvido, convido você a comprar jogos de mesa, tabuleiros e ter filhos na sala. E jogue, divirta-se com eles, escute as vozes, as falas, os pensamentos e tenha a grande oportunidade de tê-los vivos, “dando trabalho”.
Desconheço a autoria. Esse texto foi publicado no Facebook, sem identificar o autor. Mas por considerar que é interessante, resolvi trazê-lo tal como o encontrei, mesmo apócrifo.


Pise levemente, ela está perto
Sob a neve,
Fale suavemente, ela pode ouvir
As margaridas crescerem.
Todo o seu brilhante cabelo dourado
Manchado de ferrugem,
Ela que era jovem e bela
Caída em pó.
Como um lírio, branca como a neve,
Ela mal sabia
Que era uma mulher,
tão docemente ela cresceu.
Tábua do caixão, pedra pesada,
Jazem sobre seu peito,
Eu aflijo meu coração sozinho
Ela está em descanso.
Paz, Paz, ela não pode ouvir
Lira ou soneto,
Toda a minha vida está enterrada aqui,
Acomode terra sobre ela.
(Imagem: banco de imagens Google)

Abro um livro antigo deixado em um canto da minha estante. Lido e relido há algumas décadas, de repente ficou esquecido.
Agora o recuperei e folheei.
Do meio de suas folhas, cai um pequeno cartão amarelecido pelo tempo passado.
Recolho do tapete e viro para ver o que é. Duas linhas verdes, paralelas e rústicas, cortam verticalmente o papel perto da borda esquerda. No alto, o desenho de alguns corações sobrepostos, como se fossem vitórias-régias.
Embaixo do coração, em letra cursiva, Mooni Ezra – design.

Respiro fundo antes de abrir e ver o interior. Sinto-me invadir por um misto de saudade e ternura. Mooni. Meu querido Mooni!
Com as mãos um pouco trêmulas, emocionada abro essa lembrança de um passado distante.
Um convite para sua festa de aniversário.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Lembro-me desse evento, da delicadeza e do carinho com que Mooni sempre me recebia – no ateliê ou em sua linda casa.
De suas obras maravilhosas, inspiradas na natureza.
Por seu entusiasmo com o Brasil, onde considerava ser o melhor lugar para se viver.
Dos flamingos. Das cacatuas. De seu amor pelas aves.
Dos almoços com coquetéis e vinhos.
Das ostras a Rockefeller no Manhatann, harmonizadas com um pinot grigio ou chablis. Algumas vezes um champagne branco, brut.
Quantas conversas. Mooni, que superou suas provações, era leve. Mostrava-me outro lado da vida e abria meus horizontes.
Quantas risadas. Sabia ser ácido no tom certo. Seus comentários – irônicos ou não – sempre cabiam inteiramente no contexto…
E fico imersa em tantas lembranças de um amigo tão presente, tão querido, tão bonito e sempre gentil e doce, poliglota, imigrante que morria de saudade da Pátria e da mãe que ficara para trás. Ele – Mooni – foi uma das poucas pessoas que nunca passaram, porque mesmo ausente da vida, é tão presente na realidade, nas imagens, nas recordações, que é um amigo sempre comigo.
Mooni, que partiu tão cedo…
(Imagens: fotos de Maria Alice)