
Fala, Jenário!

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Caminho pelo infinito em busca de lugar nenhum
o céu me cobre e protege o vento me acompanha
a neblina me espera e não deixo sequer pegadas,
pois que a chuva apaga as marcas de meus passos nesse caminho de ida, um caminho sem volta
trago no embornal restos das idas ilusões,
cacos dos sonhos desfeitos
e um pouco dos carinhos recebidos
Não tenho comigo sobras de amor, nunca o conheci,
sempre me faltou, insuficiente e falso
nem trago qualquer tipo de esperança
Apenas pedras duras da realidade
Um pouco do calor das mãos que me tocaram
E muita saudade de quem eu fui um dia
(Imagem: banco de imagens Google)

Adoro gente doida.
Não a doida perigosa, destrutiva, vazia.
Adoro a doida intensa.
A que sente demais,
a que vive sem filtro,
a que não aprendeu a ser morna.
A que ri alto,
chora fundo,
ama sem manual de instruções.
A que diz o que pensa.
Não quer chocar; só não sabe mentir.
A doida que se emociona com um cão na rua,
que vê beleza numa esquina suja,
que se despede das coisas como se fossem pessoas.
A que se entrega até quando sabe que pode partir-se.
A que se parte tantas vezes que já perdeu a conta.
A gente doida de humana.
Os outros, os que se orgulham do equilíbrio,
da racionalidade perfeita,
das emoções controladas como quem gere um orçamento,
esses é que me assustam.
Quem nunca enlouqueceu um dia enlouquece de vez.
Coitado de quem nunca perdeu o chão.
De quem nunca chorou sem saber porquê.
De quem nunca quis gritar no meio da rua sem motivo.
Os que evitam a loucura ficam malucos num instante.
E o pior é que nem sequer dão por isso.
Texto publicado em 26 de março de 2020, 8° dia do isolamento compulsório imposto em razão da pandemia – covid 19…
Não se trata de uma ordem, mas, sim, de uma firme recomendação: FIQUE EM CASA.
Há um vírus de difícil controle atingindo a população mundial. Os repórteres de TV, sem muito assunto e aproveitando para destilar o ódio que sentem do resultado da eleição presidencial, tocam terror 24 horas por dia na população. Que, oscilando entre o medo, o pavor e a ignorância, repercutem sem parar as notícias mais alarmistas e trágicas. Sem se importar com a verdade.
Quarta-feira, 18 de março de 2020.
Cheguei em São Paulo dia 12/03. Sozinha e com muitos assuntos para resolver. Continuo em São Paulo. Saindo, comendo em restaurante (afinal, nem cozinha tenho aqui no meu cantinho paulistano). E não pretendo morrer de inanição.
Medo? Não me dou esse luxo. Se tivesse medo de morrer não estaria mais viva.
Tudo começa a fechar. Reuniões desmarcadas. Tenho um compromisso em Belo Horizonte. Passagens compradas. Hotel reservado.
A Prefeitura de Belo Horizonte suspende o evento.
Desmarco o hotel por telefone. Eles não opõem obstáculos. Sou a 20ª desistência do dia. Morro de pena. Sei que teremos desemprego e miséria. Mas não me perguntaram nada a respeito quando decidiram que seria melhor o Brasil ter mais falidos do que falecidos em razão da peste chinesa.
Não consigo acesso à Latam. Encontro Myriam, amiga de todas as horas e vamos a uma loja TAM. Duas funcionárias completamente desocupadas. Não podem me atender porque não comprei as passagens naquela loja. Explico que comprei pelo site, mas que o mesmo se encontra inacessível. Elas só informam que o problema não é delas.
Myriam e eu vamos a Congonhas. Eu lhe digo que lá pode ser lugar de contaminação. Ela responde que, se eu posso ir, ela pode ir também. E lá vamos nós. O taxista, feliz pela corrida, que sabe ser das últimas em razão da insegurança que se desenha no horizonte, pergunta se pode ficar esperando. Peço dois minutos, vou até a loja da TAM – fila interminável.
Pego a senha preferencial, afinal, passei dos 60 anos há alguns anos, e volto até o Alexandre. Informo que vou demorar muito. Não há condições de me esperar.
Assim ficamos por cerca de uma hora. Sou atendida. Walter, com toda a gentileza, abre a passagem até 31 de dezembro de 2020. Espero que até lá consigamos voltar ao normal nesse país.
Voltamos para casa. Descemos no supermercado, pegamos alguns produtos e vamos a pé, cada uma para sua casa. Oito dias atrás. Parece que há uma década.
Consigo antecipar a outra passagem, e vou para Ribeirão Preto, onde está meu marido e onde minha mãe – ambos de grupo de risco real, residem. E me interno na minha casa.
Há oito dias aqui. Estética, massagista, depilação, tudo fechado. Ao final desse período estaremos verdadeiros ursos polares: gordos, pálidos e peludos.
Não tenho a menor dificuldade em permanecer em quarentena.
Minha casa (qualquer uma, resido simultaneamente em três – São Paulo, Guarujá e Ribeirão Preto, enquanto mantenho fechada uma quarta casa, em outra cidade no interior de São Paulo) – é meu reino. Aqui dentro tenho tudo o que preciso.
Enquanto não completar 15 dias do meu retorno estou sem contato direto com minha mãe, irmã e sobrinhos.
Não posso arriscar transmitir a eles um vírus com o qual possa estar contaminada, ainda que assintomática.
E há 24 anos iniciei meu trabalho em sistema home office. Eram dez a quatorze horas/dia, em média, dentro do escritório. Portanto, venho em quarentena há mais de duas décadas.
Detalhe: adoro ficar em casa. Detesto sair na rua. Não gosto de shoppings; supermercado para mim é tortura. Sempre saí apenas para o estritamente necessário. Não sei nem o preço da gasolina, porque demoro tanto a completar o tanque do carro, que quando vou de novo já me esqueci o quanto foi da última vez. Tenho o mesmo carro há oito anos, tirei novo e ele está com 26.000 km.
Não sou miss gasolina. Não “bato perna”, não fico por aí e nem na casa das outras pessoas. Aliás, detesto fazer visitas. Sou bem bicho-do-mato e antissocial.
Assim, chego ao meu 8º dia de isolamento social ouvindo um concerto de violoncelo enquanto escrevo.
Tranquila, sem qualquer medo de contrair o vírus, a gripe, a insuficiência respiratória ou morrer. Porque de tiro, faca, pancada ou vírus, um dia morrerei. Nem antes nem depois. No dia exato. E, como sou pessoa de fé, sei que a Graça do Pai não nos coloca onde Sua Misericórdia não nos pode alcançar.
Sem sofrimento nem mudar meus hábitos, cumpro a quarentena. Com medo do dia em que me proibirão de ficar em casa. Aí vou me desestruturar…

Às vezes, dá vontade de sentar à beira do caminho e por ali ficar, até que os ventos mudem, até que as nuvens chorem, até que a dor passe.
Sei que, às vezes, dá vontade de abandonar o barco, engavetar os projetos, esquecer os sonhos, porque o tempo é difícil demais.
Porque, muitas vezes, a vida atravanca, se perde num labirinto, pesa, machuca os ombros.
Mas sei também que, muitas vezes,
é preciso retroceder pra respirar,
olhar de longe o que de perto não se vê,
ganhar fôlego pra caminhar mais um tanto.
O tempo não para, mas é preciso vagarosas pausas pra aliviar a alma e descansar o coração.
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)

Se quiser saber quem eu sou, venha até mim, eu lhe mostrarei.
Venha, calce esses meus sapatos de trabalhar. Ande muito com eles. Passe pelos caminhos que eu passei, tropece onde tropecei, se desequilibre onde eu caí…
Por muitos anos ande com esses meus sapatos de trabalhar – por muitas décadas eu os usei diariamente. Enfrente os maus colegas, desvie das rasteiras, engula os desaforos, mas não tire esses meus sapatos de trabalhar.
E depois calce esses meus sapatos da vida particular. Enfrente todo o desamor e a tristeza. Caminhe sozinho e com medo por estradas assustadoras, segure você mesmo sua mão porque ninguém fez por mim nem fará por você. Quando a noite vier, não tire esses meus sapatos da vida particular, continue, em total solidão, caminhando com eles, mesmo na escuridão, sem nada enxergar à frente.
E então calce esses meus sapatos de atravessar o inferno. Sabendo que na entrada deverá tirá-los porque o inferno se atravessa descalça. Eu o fiz várias vezes. Por mais terrível que seja, eu asseguro – há uma saída. Então não pare de caminhar. Se e quando conseguir sair, poderá calçá-los novamente.
Depois disso, poderá dizer que me conhece.
E os meus sapatos de ser feliz? Você quer caminhar com eles também? Desculpe-me negá-los, mas não os tenho…
(Imagem: banco de imagens Google)