A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Não é um copo de fino cristal. Nem um copo para bebidas especiais.
Apenas um copo.
Simplesmente aquela vasilha de forma cilíndrica para auxiliar na ingestão de líquidos.
Há uma mesa.
A mesa não está posta. Não ostenta toalha de cambraia de linho bordada à mão, nem porcelanas inglesas ou portuguesas. Não há elegantes guardanapos bordados nem talheres de prata.
Só a tosca madeira nua, castigada pelo tempo, trazendo marcas de queimados e molhados, que mostram o uso diário durante décadas.
Há um silêncio.
Não o silêncio respeitoso do momento de meditação durante a missa. Nem aquele que impera nos velórios.
Nem o silêncio da expectativa dos primeiros acordes de um concerto. Nem o silêncio do medo ao enfrentar uma situação de perigo.
Apenas um silêncio.
Surdo. Pesado. Asfixiante.
E há penumbra.
Não a penumbra das alcovas que abriga os corpos em brasa dos que se amam.
Nem a penumbra que antecede o amanhecer.
Mas uma penumbra dolorida das janelas que permaneceram fechadas com as cortinas cerradas.
Há, na penumbra sufocante, um silêncio cortante, com um simples copo sobre a velha a mesa.
Foi tudo o que restou depois de anos de morte, tristeza, desolação e isolamento.
Dia de fogueira, fogos, balões, bandeirinhas, quadrilha e alegria. Dia do Santo querido, aquele que comemoramos a data de nascimento (e não de morte como todos os outros). Aquele que conheceu Cristo quando ainda não eram nascidos. São João, o primo que batizou Jesus nas águas do Rio Jordão. Por isso São João Batista – o São João que batizou.
Ó minha amada / Que olhos os teus Quanto mistério / Nos olhos teus Quantos saveiros / Quantos navios Quantos naufrágios / Nos olhos teus…
(Poema dos olhos da amada, Vinicius de Morais)
Durante esta semana, quando zapeava, assisti uma cena na TV que me chamou a atenção: um homem vê uma mulher (sua esposa ou namorada) dançando abraçada e beijando outro homem. Ele grita algo e a mulher se vira assustada. O homem, cuja expressão demonstrava então susto, ao ser novamente focado pela câmara sofre uma transformação no olhar que faz a cena inesquecível: do susto seus olhos passam a expressar uma tamanha decepção que o telespectador sente a dor dele, antes de explodir a raiva em seu olhar. Bastou esta cena para que eu ficasse a pensar nos olhos. Ou melhor, nos olhares.
Como um ator pode passar essas sensações apenas com o olhar é algo que não consigo entender. Não sei quem o personagem nem o nome do ator. Mas naquele momento ele foi digno de um Oscar – o Oscar de melhor expressão no olhar, o que me leva a lembranças de outro ator.
Desde que pela primeira vez assisti Dr. Jivago (e lá se vão décadas, foi na época do lançamento aqui no Brasil), além da música e das paisagens, o que me fascinou foi a força do olhar de Omar Sharif. (*)
Todas as vezes que revejo essa película o olhar do Jivago é um espetáculo à parte do filme. Acho que talvez Omar Sharif seja o ator com maior expressão no olhar que já vi.
Ao comparar seu olhar como o sofredor Jivago com o olhar como o altivo xerife Ali em Lawrence da Arábia (este, um filme que merece um post à parte) e seu olhar como o encantador e humilde Pedro, no filme homônimo, não se pode deixar de considerá-lo como o olhar mais eloquente da estória do cinema.
A personalidade frágil de Jivago, à qual não se dá trégua para ser um nobre, dividido entre a saudade da falecida mãe e a realidade de Moscou, entre a forte Tonia e a amada Lara, entre a vida burguesa e o apelo proletário, tudo isso traduzido em um olhar febril e ansioso.
A altivez da própria força do xerife Ali, que tudo podia, senhor da vida e da morte de quem passasse em seu território, em olhares arrogantes, de puro orgulho e desprezo pelos semelhantes, mas que se adoça quando se liga por laços inesperados de amizade com um inglês cuja força moral é surpreendente.
E o olhar humilde de Pedro, que não entende as dúvidas de sua própria fé, nem por que Cristo o escolhe para ser a pedra da nova Igreja, os olhos com que o personagem encara Cristo, vivo e em agonia no Calvário, tornam o filme triplamente merecedor de ser assistido.
Como pode, pergunto, um homem, transformar seus próprios olhos desta forma, através da força do olhar?
Será que todos nós temos a capacidade de nos expressarmos pelo olhar e nunca nos demos conta dessa importância?
É possível notar a expressão em geral nas crianças, mas sem tanta força. E, depois que crescem, seus olhos fecham a cortina do sentimento e passam a mostrar apenas o que lhes interessa.
Será que tendo essa capacidade, isso não é percebido pelos outros, que se esquecem de olhar para nossos olhos e não veem o que mostram, o que sentimos?
Ao longo da história a maquiagem sempre se destinou especialmente a dar destaque e realce aos olhos.
Algumas pessoas exageram, assumindo uma expressão bovina, mas de forma geral esse truque dá resultado e conseguimos assim visualizar com destaque os olhos.
Mas não enxergamos o que esses olhos estão dizendo.
Não temos olhos treinados para ver os olhares alheios, mas somente os olhos. E muito mais importante que os olhos são os olhares, da mesma forma que muito mais importante que os braços são os abraços…
E meus olhos, o que será que dizem meus olhos????
De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?…
(Fernando Pessoa)
(*) Seu verdadeiro nome é Michel Demitri Shalhoub, egípcio de Alexandria, nascido em 1932.