
Desconheço a autoria – mas doeu…

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –



One day in your life when you find that you’ve always waiting / For the love we used to share, just call my name, and I’ll be there (Don Eliot)
O que é um amigo? São tantas as respostas que nós nos sentimos perdidos na hora de definir amigo.
Algumas definições – clássicas nesse mundo do descartável – são hilárias, outras, sentimentais e outras ainda parecem verdadeiras.
… amigo não é o que separa a briga, mas o que chega do seu lado dando voadora no agressor…
…amigo não é aquele que impede seu pranto, mas o que enxuga sua lágrima…
…amigo não é a sombra, que só te acompanha enquanto o sol brilha…
Fui e sou pessoa de poucos amigos. Não sei bem o porquê.
Em criança preferia os livros às brincadeiras – por volta de cinco anos de idade os adultos descobriram que eu já sabia ler – ninguém me ensinara, mas eu lia, e, curiosamente, não sabia ainda escrever porque não fora alfabetizada, mas sabia ler.
As outras crianças em geral eram más – mesmo quando entrei na escola, não tinha amigos. Resultado: hoje sei que fui uma criança solitária, e por isso mesmo gosto da solidão, me sinto bem comigo mesma.
Sempre tive a companhia dos irmãos e primos, família numerosa, à moda antiga, unida e amorosa. Para que precisaria de estranhos?
Muitas pessoas não conseguem manter amizade com os próprios irmãos, e se desmancham em amizades com estranhos. Não entendo isso.
Mas, ao longo dos anos, obrigada à convivência social, fiz alguns amigos, além das relações familiares.
E vejo que amizade não é algo que se põe na balança, que se mede em centímetros… não adianta porque a conta não bate – sempre alguém dá mais, cede mais, se doa mais…
Mas é bom ter amigos, ainda que não sejam tão amigos, mas sejam mais que simples conhecidos ou colegas de trabalho.
Se algum, por uns momentos, se dispõe a pegar a outra alça da nossa sacola da vida, já torna momentaneamente mais leve nosso caminhar.
Os encontros, as conversas descompromissadas, a convivência alegre e despreocupada da relação volátil, isso é tempero de viver.
Alguns amigos são tão passageiros que sequer marcam nossa existência, nem sei se podemos denominá-los amigos, ainda que frequentem nossa casa e se façam muito presentes por um breve tempo. Mas nada trazem, não somam, não acrescentam.
Outros, porém, se tornam parte de nossa existência, e ainda que fiquemos muito tempo sem encontrá-los, quando temos a sorte e a felicidade de um reencontro, a conversa flui leve, a distância não existe e o tempo de separação não interferiu no carinho mútuo. Esses eu acredito que são os verdadeiros amigos. Mesmo distantes estão, de alguma forma, a nosso lado.
Concluo, então: amigo é o que ficou quando todos já se foram, sejam os amigos/irmãos de sangue ou de vida.
(04.09.2008)
(Imagem: banco de imagens Google)

No mais profundo do ser Está sua alma inatingível Com sua consistência de nuvem Em suas paredes de fumaça E sua força de névoa Não ser Não estar Apenas existir Como algo inconsútil Que não se rompe Não se entrega Não se deixa dobrar Ali permanecer No silêncio do nada Entre as pregas do querer No regaço do desejo Do avental do amar Até o final Em busca do sentido Achar o sentido no nada Quando não restar mais Do que uma onda de quietude E uma partida sem volta.
(Imagem: banco de imagens Google)


Seu tamanho diminui a meus olhos conforme vou soltando a linha. Minha pipa, tão linda, voa longe. Presa a mim por um fio quase invisível, ela dança seu estranho balé, sobe, cai, flutua… e me encanta. Às vezes preciso corrigir seu rumo, ela, rebelde, cabeceia e tenta resistir. Entra em contradança com a rabiola e me faz sorrir.
Ela quer mais. Dou linha. Ela quer mais.
Na verdade, ela quer se soltar e seguir seu destino de liberdade. Não sabe – ingênua que é – o que a espera se for sozinha. Sua essência é ser pipa, estar ligada a mim por um fio e ser controlada para manter seu voo. Não voaria sozinha, apenas seria levada pelo vento e destroçada ao primeiro obstáculo.
Furiosa por não se soltar, ela cabeceia com força, olha-me com raiva. Eu relevo. Mesmo o filho mais rebelde, um dia se acomoda e volta manso ao ninho.
Dou-lhe toda a linha que tiver, toda a linha que ela quiser. Mas mantenho a outra ponta presa em mim. Não a abandonaria a sua própria sorte, para não ver sua ruína. Ela sobe mais um pouco.
Vê as nuvens se juntarem e escurecerem. A brisa, que a beijava e sustentava com carinho, agora começa a se transformar num vento que a quer levar para longe. Ela teme a chuva, pois não sobreviveria à água.
Olha para mim desesperada, pedindo ajuda. Não vou começar a trazê-la de volta agora.
Ainda há sol, podemos brincar mais um pouco.
Com carinho eu a construí. Com um sonho eu a idealizei. Porque o sonho nos permite fazer tudo o que precisamos para a nossa felicidade. Eu a sonhei, com meu sonho de liberdade, então a fiz. Não a perderei tão fácil.
Puxo um pouco a linha e ela volta a dançar. Olho para ela, lá no alto, e os raios de sol tornam a linha completamente invisível. Parece que nesse momento ela está livre.
Sei de sua invencível vontade de liberdade. Essa liberdade que ela jamais terá.
Lágrimas escapam de meus olhos, ao pensar em meu próprio sonho de liberdade, que jamais realizarei. Com todo cuidado, entre minhas mãos mantenho seguro, junto do meu coração, esse fio que nos liga, e lentamente começo a recolher a linha antes da tempestade que se anuncia.
(Imagem: banco de imagens Google)