Dia de Poesia – Ana Acto – Malditos poetas

Que ousaram semear o caos
Ao inventar um sentimento maior
Puro, altruísta 
Até lhe deram um nome,  Amor... 

Fizeram-nos acreditar
Em eternidade
De laços e comunhão 
E que até se pode morrer de desgosto
À sua rendição 

Malditos poetas...
Que espalharam a palavra
Como crença 
Aos tolos, solitários e carentes
Os convertendo, a sua religião 

Acreditam em finais felizes...
Vejam lá!  tal houvesse,
Em superação e transcendência 
E trazem cegas multidões 
Que os lêem ávidos 
De tal benção e salvação... 

E agora?
Andamos em constante busca
De uma metade que não se encaixa 
De um coração que não sangre
E se ofereça inteiro 

Malditos poetas
Que foram  inventar?
Uma praga
Que deu ao mundo esperança 
E o fez acreditar 

Me rendo
Por quem sou!
 
Antes seja maldita o louvando
Que ignorante o renegando...

(Imagem: banco de imagens Google)

Quadro – Natureza morta

Há um copo sobre a mesa.

Não é um copo de fino cristal. Nem um copo para bebidas especiais.

Apenas um copo.

Simplesmente aquela vasilha de forma cilíndrica para auxiliar na ingestão de líquidos.

Há uma mesa.

A mesa não está posta. Não ostenta toalha de cambraia de linho bordada à mão, nem porcelanas inglesas ou portuguesas. Não há elegantes guardanapos bordados nem talheres de prata.

Só a tosca madeira nua, castigada pelo tempo, trazendo marcas de queimados e molhados, que mostram o uso diário durante décadas.

Há um silêncio.

Não o silêncio respeitoso do momento de meditação durante a missa. Nem aquele que impera nos velórios.

Nem o silêncio da expectativa dos primeiros acordes de um concerto. Nem o silêncio do medo ao enfrentar uma situação de perigo.

Apenas um silêncio.

Surdo. Pesado. Asfixiante.

E há penumbra.

Não a penumbra das alcovas que abriga os corpos em brasa dos que se amam.

Nem a penumbra que antecede o amanhecer.

Mas uma penumbra dolorida das janelas que permaneceram fechadas com as cortinas cerradas.

Há, na penumbra sufocante, um silêncio cortante, com um simples copo sobre a velha a mesa.

Foi tudo o que restou depois de anos de morte, tristeza, desolação e isolamento.

(Imagem: foto de Maria Alice)

É São João!!!!!!

Dia de fogueira, fogos, balões, bandeirinhas, quadrilha e alegria. Dia do Santo querido, aquele que comemoramos a data de nascimento (e não de morte como todos os outros). Aquele que conheceu Cristo quando ainda não eram nascidos. São João, o primo que batizou Jesus nas águas do Rio Jordão. Por isso São João Batista – o São João que batizou.

Poesia da casa – Na estrada

Não sei se passo eu por essa estrada
Ou se é essa estrada que por mim passa
No asfalto – tão cinza e tão feio
Correm brancos riscos a meu encontro

Nos dois lados troncos fazem cercas
Cruzam rápidos, levando esticados
Tantas linhas feitas de arame farpado
Só para mostrar existir um limite invisível

Poste e torres correm com seus fios
Levam luz, levam calor, levam progresso
E ainda levam as boas e as más notícias

Cruzando com esses riscos brancos
Passo eu por estrada que não tem fim
Ou é ela, a estrada, que passa por mim?

(Imagem: foto de Maria Alice)