Dia de poesia – Roberto Ferrari – Dor de amor

Se tu pudesses de repente compreender Toda loucura que meu amor pode conter Se tu pudesses, num momento de razão Saber ao menos quanto dói uma paixão Quanta loucura habita meu peito Quanta felicidade irradia dos meus olhos Quando te veem e te abraçam Quem sabe mulher, ao descobrir a dor do amor Tu jamais partisses para sempre me amar Mas me parece que uma poesia iria nascer Na minha voz embargada pela dor de sofrer de amor E em cada verso iria te dizer que vale mais morrer de dor Do que viver um momento longe de ti e dos teus abraços.
(Imagem: banco de imagens Google)
Lições do mar (Memória)

Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna, nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.
A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.
Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia.
Eu sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.
Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.
Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.
Era céu e mar. E eu.
Fui rodando com a marola, para me localizar.
A praia estava muito longe. Não daria para voltar.
O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.
Então eu fui me posicionando numa linha reta entre a barco e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.
E ali fiquei. Uns vinte minutos até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.
Só uns vinte minutos.
Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.
Vinte minutos são a eternidade.
Sobrevivi.
Estou aqui.
Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para resgate.
Conclusão:
Aprendi, em vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.
Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.
O que vida me manda, aceito com alegria.
Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.
Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.
A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.
(Foto de Maria Alice)
Texto de Ana Acto (de Pedaços de mim)

Pendem-me nas pálpebras todos os cansaços
De meus olhos, apenas uma pequena nesga de brilho se lhes rebela
Desenham-se-me na íris todos os tormentos
Que em minha expressão se espelha
Em cumplicidade
Também meus lábios se lhes juntam
E se cerram conformados
Saudosos de todos os momentos
Em que em loucura foram por ti beijados
O tempo se escusa a seguir a meus lamentos
Sucubindo em protesto lho peço
Mas me exorta a despertar
Me leva a ver o mar
E a sentir em meu rosto a brisa do vento
Ah, soubesse ele ….
Como eram os beijos dos lábios do meu amor
Se sentaria comigo na areia
Condoído da minha dor
Dia de Poesia – Mia Couto – Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono
(Imagem: foto de Adriano dal Molin – Pôr-do-sol sobre o Rio Madeira, Mirante II, Porto Velho, RO – em 01.02.2007, às 17h02)
Poesia da casa – Nosso mapa

Na paisagem do teu corpo Desenho os traços do meu querer Encontro montes, picos e colinas, Planícies, savanas e campinas No relevo de teu peito Descanso meu turbilhão Repouso o meu cansaço Revivo todo meu desejo No rebojo desse impulso Ofereço o remanso de meu ventre Para que tua voragem Se complete em meu caminho Juntos seguimos as trilhas esboçadas pela vida nos atalhos de um seguir que nos torna apenas um Quando vens eu te recebo Na intensidade da entrega e riscamos, enfim, juntos, o mapa de nossa paixão.
(Imagem: banco de imagens Google)