Dia de poesia – Fernando Pessoa – Amei-te e por te amar


Amei-te e por te amar

Só a ti eu não via...

Eras o céu e o mar,

Eras a noite e o dia...

Só quando te perdi

É que eu te conheci...



Quando te tinha diante

Do meu olhar submerso

Não eras minha amante...

Eras o Universo...

Agora que te não tenho,

És só do teu tamanho.



Estavas-me longe na alma,

Por isso eu não te via...

Presença em mim tão calma,

Que eu a não sentia.

Só quando meu ser te perdeu

Vi que não eras eu.



Não sei o que eras. Creio

Que o meu modo de olhar,

Meu sentir meu anseio

Meu jeito de pensar...

Eras minha alma, fora

Do Lugar e da Hora...



Hoje eu busco-te e choro

Por te poder achar

Não sequer te memoro

Como te tive a amar...

Nem foste um sonho meu...

Porque te choro eu?



Não sei... Perdi-te, e és hoje

Real no [...] real...

Como a hora que foge,

Foges e tudo é igual

A si-próprio e é tão triste

O que vejo que existe.




Em que és [...J fictício,

Em que tempo parado

Foste o (...) cilício

Que quando em fé fechado

Não sentia e hoje sinto

Que acordo e não me minto...



[...] tuas mãos, contudo,

Sinto nas minhas mãos,

Nosso olhar fixo e mudo

Quantos momentos vãos

Pra além de nós viveu

Nem nosso, teu ou meu...



Quantas vezes sentimos

Alma nosso contacto

Quantas vezes seguimos

Pelo caminho abstracto

Que vai entre alma e alma…

Horas de inquieta calma!



E hoje pergunto em mim

Quem foi que amei, beijei

Com quem perdi o fim

Aos sonhos que sonhei…

Procuro-te e nem vejo

O meu próprio desejo…



Que foi real em nós?

Que houve em nós de sonho?

De que Nós fomos de que voz

O duplo eco risonho

Que unidade tivemos?

O que foi que perdemos?



Nós não sonhámos. Eras

Real e eu era real.

Tuas mãos — tão sinceras…

Meu gesto — tão leal...

Tu e eu lado a lado...

Isto... e isto acabado...



Como houve em nós amor

E deixou de o haver?

Sei que hoje é vaga dor

O que era então prazer...

Mas não sei que passou

Por nós e acordou...



Amámo-nos deveras?

Amamo-nos ainda?

Se penso vejo que eras

A mesma que és... E finda

Tudo o que foi o amor;



Assim quase sem dor.

Sem dor... Um pasmo vago

De ter havido amar...

Quase que me embriago

De mal poder pensar...

O que mudou e onde?

O que é que em nós se esconde?




Talvez sintas como eu

E não saibas sentil-o...

Ser é ser nosso véu

Amar é encobril-o,

Hoje que te deixei

É que sei que te amei...



Somos a nossa bruma…

É pra dentro que vemos...

Caem-nos uma a uma

As compreensões que temos

E ficamos no frio

Do Universo vazio...



Que importa? Se o que foi

Entre nós foi amor,

Se por te amar me dói

Já não te amar, e a dor

Tem um íntimo sentido,

Nada será perdido...



E além de nós, no Agora

Que não nos tem por véus

Viveremos a Hora

Virados para Deus

E n'um (...) mudo

Compreenderemos tudo.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Mia Couto – O habitante (ao meu pai)

Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesses ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

(Imagem: banco de imagens Google)

Recomeço

Recomece mesmo se os seus pés cansarem.

Mesmo se o seu coração estiver sem forças, mesmo se os seus olhos lacrimejarem.

Recomece mesmo com medo do futuro e com receios por já terem ferido o seu coração.

Tenha certeza que vai dar tudo certo.

Ame seus detalhes, ame ser você.

Porque ninguém além de você vai entender os seus calos e as suas cicatrizes.

Então, é você por você, não espere nada de ninguém.

Faça sempre por você. Se valorize, se ame.

Porque pra fazer parte da sua vida tem que entender que é preciso profundidade.

Recomece não pelos outros, mas sim, porque você merece que entendam o quanto você é uma pessoa corajosa e extraordinária.

(Desconheço a autoria)

Escritor (Memória)

A definição de escritor é banal: escritor é quem escreve.

Hoje, Dia Nacional do Escritor, medito sobre ser escritor. Porque não se está escritor – ou se é ou não se é escritor. Não dá para ser mais ou menos escritor. Não é possível ser escritor apenas às vezes.

Escrever está no sangue. Corre nas veias, invade todos os sentidos, inunda nosso ser e somos praticamente obrigados a deixarmos qualquer outra atividade para escrevermos.

Cada escritor tem uma maneira toda peculiar de colocar no papel – ou na tela – suas palavras. São muitas as histórias dos hábitos – alguns bens esquisitos, como, por exemplo, escrever imerso em um barril de água ou uma banheira; só escrever completamente nu; escrever ouvindo trechos de óperas; escrever sentado no chão… – mas, em comum, todos têm a paixão que leva a escrever.

Inspiração. criatividade, fantasia, seja lá o nome que possa dar ao impulso que leva a transmitir, por escrito, algo que se traz na alma, sem esse ímpeto não existe escritor.

Complicado responder quando nos fazem a clássica pergunta: “de onde você tira inspiração?”, porque não “tiramos” inspiração de nenhum lugar.

Apenas, dentro de nós, surge uma ideia ou uma outra pessoa que pede para sair. Precisamos ajudá-la a ganhar a liberdade. Tornar-se um texto – poesia, crônica, conto, romance, qualquer forma de escrito – e lançar-se ao mundo.

Quando temos um romance começado, por vezes o deixamos de lado. Os personagens surgem em nossos pensamentos, ganham vida própria, reclamam que estão abandonados, e temos de voltar ao texto e dar novo impulso. Escrevemos o nascimento dos personagens, mas eles vivem a própria vida e muitas vezes tomam outro rumo totalmente diverso daquele que a princípio imaginávamos que teriam.

Não há dúvida que ler bastante ajuda a ser escritor, mas não faz o escritor. Ter um bom dicionário também é grande ajuda, mas não basta para ser escritor. Escrever é sair de dentro de si e assumir múltiplas personalidades, é mostrar ao mundo seus mais íntimos pensamentos e sentimentos. Desnudar sua alma.

Não é possível tornar-se um escritor. Já se nasce escritor, ainda que não se escreva ou que se demore a começar a escrever. Não há curso, faculdade, apostila, nada que possa levar uma pessoa a ser um escritor. Porque a escrita nasceu dentro das veias.

O impulso de escrever é irresistível. Há uma necessidade física de escrever, não é possível viver com todas as frases, todos os textos dentro do cérebro.

Não é preciso ritual nem preparação. Necessários uma superfície – qualquer uma – e um objeto que a marque. E 26 letras, alguns sinais e pontos. Está pronto o arsenal do escritor.

Porque a escrita, essa não se aprende em nenhum lugar, não tem para comprar, não tem como vender. Vem do ponto mais fundo das memórias, dos sentimentos acumulados, de algum lugar inacessível de dentro do ser. Quando tudo isso excede a capacidade de armazenamento, é preciso escrever.

Escritor é quem tem a sensibilidade de deixar outros viverem dentro de si.

Escrever é o transbordar das emoções.

(Imagem: banco de imagens Google)