A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Um dia, disse Guimarães Rosa: “Não gosto de passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente.”
Eu sempre amei passarinho. Fui criadora oficial. Além dos “meus”, sempre os busquei livres na natureza, encantada com seu voo – quanta liberdade! – e plumagem, e canto, e tudo.
Hoje, domingo, meu terceiro Dia dos Pais depois de órfã, acordei com o canto dos passarinhos.
Havia um que eu não conseguia identificar. E me lembrei do meu pai, e me lembrei de Guimarães Rosa, e minha orfandade doeu de forma ainda mais doída.
Passei não só a infância, mas a vida, pedindo a meu pai que me dissesse que pássaro estava cantando – e ele os sabia todos.
Ouvia um pouquinho e identificava.
Assim fui aprendendo, eu também, a identificar os pássaros invisíveis na natureza pelo canto.
Um dia – o dia marcado pelo Pai, o dia certo para ele, mas muito cedo para mim, ele partiu. E me vi, naquela manhã, órfã. E desde então sinto falta de algo no mundo, na vida, um vazio que nada preencherá jamais.
É o lugar do meu pai no meu mundo e na minha vida.
E ele faz essa falta nas grandes e pequenas coisas. Quantas vezes preciso de uma opinião (que ele só externava se buscada, nunca deu “palpite” na vida dos filhos), de uma orientação, de uma mão firme para atravessar um perigo, de um interlocutor para conversar sobre tudo e sobre nada, e, ainda, alguém para me dizer o gosto das comidas, os cuidados com o carro, ou que pássaro está cantando e de onde vem o canto, quando não visualizo a ave que canta…
Não tenho mais meu pai. E tudo isso acabou.
Hoje é Dia dos Pais. Era um dia santificado para mim. Fazia qualquer sacrifício para estar com meu pai nesse dia. Agora estou sozinha. O Dia dos Pais continua, mas não tenho mais meu pai.
E isso é muito triste.
A saudade dele é imensa, indescritível.
E, nesse amanhecer, tão triste, quando ouvi os pássaros cantando, e principalmente quando não identifiquei um deles, entendi plenamente a frase de Guimarães Rosa – esse passarinho pôs mais saudade em meu coração.
Hoje vou repetir esse post, porque tenho esperança que esse dia há de vir…
A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)
Um dia vou ser feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.
Um dia, não agora.
Sou feita de saudade e melancolia.
Desesperança e ansiedade.
Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.
Mas um dia serei feliz. Prometo.
Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.
Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.