Texto de Khalil Gibran – Sobre o Amor (de O Profeta)

Quando o amor o chamar, siga-o, ainda que suas maneiras sejam duras e íngremes;
e quando as asas dele o abraçar, renda-se a ele, embora a espada escondida dentro de suas penas possam o ferir.
E quando ele o falar, acredite nele…
Ainda que a voz dele possa despedaçar os seus sonhos,
como o vento frio do norte devasta o jardim florido…

Por que, além de o coroar, ele também o crucifica.
Para além de seu crescimento, ele existe para a sua podação.

Mesmo quando ele subir a sua altura para acariciar os seus ramos mais macios que estremecem ao sol,
também ele o desceria a suas raízes e agitá-las-ão aderidas à terra…
Como polias do milho, recolhê-lo-á para si mesmo
O debulha para fazê-lo despido…
O peneira para libera-lo das suas cascas…
O moe até que fique branco e puro..
E o amassa até que seja moldável…
Pois, ele o cozinha em seu forno sagrado para você tornar-se pão sagrado…
Para a Sagrada Festa de Deus!

Tudo isso o amor vai fazer para você,
só para você saber todos os segredos do seu coração…
E para que neste conhecimento, você chegue a ser um fragmento do coração da Vida…

Mas, se com medo, você só procurar a paz e o prazer do amor,
É melhor que você cubra a sua nudez, e saia do caminho do amor,
Para ficar no mundo sem estações,
Onde riria, mas não todas as suas risadas,
e choraria, mas não todas as suas lágrimas…

O Amor só da de si mesmo, e pega nada mas do que si mesmo…
O Amor não possui, e não pode ser possuído…
Por que o Amor é bastante á si mesmo.

Quando você amar, não deve falar,
Deus fique no meu coração…
mas fale, Eu fico no coração de Deus!
E nem pense que possa dirigir o curso de Amor…
Por que, o Amor, se achar você merecedor, dirigir o seu curso…
O Amor só tem um desejo: para satisfazer de si mesmo…
Mas, se você ama, e necessite ter desejos, deixe eles ser os seguintes:
Derreter e ser como um ribeirão corrente,
para cantar a sua canção pela madrugada.
Saber a dor de tanta ternura…
Ser ferido pelo seu próprio conhecimento de Amor…
e sangrar com abundância da felicidade….
Acordar com a coração alado
e agradecer mais um dia de Amor.
Descansar ao meio do dia e meditar no êxtase do amor…

E voltar a noite com agradecimento…

Então, dormir com uma prece no coração para a sua amada,
e uma canção de louvor no seus lábios.

Os desvãos do nada

Trinta raios convergem para o meio de uma roda

Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.

Molda-se o barro para fazer um vaso;

É o espaço dentro dele que o torna útil.

Fazem-se portas e janelas para um quarto;

São os buracos que o tornam útil.

Por isso, a vantagem do que está lá

Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.

(TaoTe Ching, cap. 11)

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Quando o nada é o que preenche, a utilidade está no não-espaço, enxergamos outro lado da realidade.

Nosso concreto, nosso visível, tátil, sensível, já não se impõe. Atravessamos o espelho e vemos o outro lado – exatamente o abstrato, o que não vemos, não sentimos, e encontramos conforto nessa outra realidade.

Quantas vezes nos agarramos ao que existe, enquanto, na verdade, queríamos apenas o que não está lá fisicamente.

Vivemos uma vida de apego ao material. Ao que vemos. Ao que podemos ostentar. Ao que sentimos, ao que podemos dividir. Ao que pegamos, ao que podemos exibir. Sem perceber que o mais importante era o nada, o vão, o intangível. E não damos importância ao que realmente nos marca, nos alegra, nos toca e nos emociona.

Os detalhes valem mais que o todo. Os desvãos contam os segredos . Onde nada se mostra, tudo existe.

O que dói não são as lágrimas que vemos. Mas a dor invisível que as causou.

O que importa não são os braços, mas os abraços.

Um dia, apenas a ausência será a nossa companhia.

O que fica não é a presença, mas a saudade.

E o nada, o que mais nos preenche.

(Foto: Stock Photo)

A eterna tristeza de 09 de julho

41 anos. Mas ainda queima como se tivesse sido esta manhã.

Atendo o telefone. Vem a pergunta: “Está chorando? Já chorou muito?”

E eu respondi: “Eu, chorar? Por que?”

E a bomba: “Ainda não sabe? Vinicius de Moraes morreu no amanhecer.” Então comecei a chorar…

Ele partira. Em uma aura de poesia, envolto em uma névoa de paixão.

Junto com a Aurora, ele se fora. Esperou sua chegada e com ela partiu. E ele sabia que a Aurora é fria.

“… Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim

…. É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!”

Nesse triste 09 de julho, ele que cantara a morte, quando mal amanhecia, com ela se encontrara.

A morte vem de longe 
Do fundo dos céus 
Vem para os meus olhos 
Virá para os teus 
Desce das estrelas 
Das brancas estrelas 
As loucas estrelas 
Trânsfugas de Deus 
Chega impressentida 
Nunca inesperada 
Ela que é na vida 
A grande esperada! 
A desesperada 
Do amor fratricida 
Dos homens, ai! dos homens 
Que matam a morte 
Por medo da vida.

(A Morte, Rio de Janeiro, 1954)

Não sei se ele “se” morreu de amores. Mas sei que ele amou. Muito. Sempre. E morreu sem saber quem pagaria o enterro e as flores. Mas nessa manhã, Vinicius teve sua Hora íntima… (Rio de Janeiro , 1950)

Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim: – Nunca fez mal… 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: – Rei morto, rei posto… 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: – Foi um doido amigo… 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspecção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento 
Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda. 
Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará: – Não há de ser nada… 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada? 

Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?

Ele, o imortal, morrera.

E sempre será não só imortal, mas o Poeta infinito.

A paixão em forma humana.

Deixou o mundo mais doce, pôs encanto em nossa vida.

E estará, sempre, entre nós. Porque sua Poesia não morrerá jamais.

Texto de Ana Luiza Fireman – Mala d’estórias

Visão traseira de uma mulher idosa ativa relaxando na rocha e olhando para o pôr do sol na praia — Fotografia de Stock

 O tempo pode te rabiscar o rosto

Pode te pratear os cabelos

Mas não deixe que o tempo te apague o viço

Nem te adormeça o riso

Conserva teu jeito de olhar macio

Tua capacidade de sonhar

Guarda em ti tuas vontades mais absurdas

Teus desejos infantis

Conserva tua poesia, teu amor proibido

Reserva também tua indignação, tua rebeldia

Guarda tua teimosia

Não te acomodes com as voltas do tempo

Renova-te a cada manhã, a cada pão

Por dentro, não deixe o tempo te roubar a vida.

Dia de poesia – Florbela Espanca – Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era q’rida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida

Que dantes tinha o rir das Primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa olhando o vago…

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma!

Ninguém as vê cair dentro de mim!

Nostalgia e covardia

Nostalgia.

Como sobreviver a esse sentimento tão intenso?

Tão forte que faz mais sentido em sua raiz grega, nóstos e ἄλγος.

Na alma há limitação para  o espaço da alegria. Do sonho. Da esperança.

Mas a parte destinada à dor, à melancolia, à saudade, essa parte não tem limites. E, muito menos, à nostalgia.

Nesses tempos estranhos que vivemos, mais e mais alimentamos a nostalgia.

Sentimos falta de nosso passado, de nossa rotina, de nossa própria vida. Sentimos falta de nosso viver.

E temos de seguir todas as regras, mesmo não concordando com tudo o que acontece. Mesmo sabendo que não precisava ser tão ruim. Que poderia ser mais leve se encarado com bom senso.

E assim lá se vão dezesseis meses perdidos na nossa curta vida.

Sentimos a dor da impotência diante do aumento do desemprego, fome e miséria. Sentimos saudade de tudo o que perdemos de vida, liberdade e sonhos.

Tudo isso dói.

Mas a nostalgia, ah, essa dói mais que tudo.

O isolamento em si não é sofrido. A proibição causa sofrimento. A compulsoriedade causa sofrimento.

A separação forçada das pessoas que amamos.

A impossibilidade de se viajar, de se conviver, de se viver.

As almas – especialmente as almas livres e as almas nômades – não podem ser contidas. São pássaros de voo alto, que não se prendem em gaiolas nem literais nem figuradas. Nem de grades nem de convenções sociais.

Sou desse grupo, de alma livre.

Vamos voltar à vida, reassumir nossas funções, recuperar a alegria que um dia tivemos.

Que fique em casa quem quiser. Quem puder. Quem se acovarda diante da morte.