Noite de paz

Queria conhecer a noite eterna

E nela adentrar

Deitar, adormecer na calma da escuridão

Do silêncio da ausência de vida

Calmamente, imergir no nada

E ali ficar

Sem a ansiedade de um novo amanhecer

Sem a angústias das dores da madrugada

Sem a nova manhã – que vai chegar

Sem um dia a mais – que vai chegar

Sem ter de sentir a dores – que vão chegar

Sem nenhuma decepção – que vai chegar

Sem ter de enfrentar problemas – que vão chegar

Apenas docemente adormecer sem pensar

Ouvindo minha interna música de acalanto

Sentindo o calor aconchegante de estar em paz

E assim morrer

E não amanhecer

 

Hoje é dia de poesia – Margarida Vieira – Não me deixes morrer longe do mar

 

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

 

Uma lembrança

 

Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

 

Caminhando hoje ao longo das praias Pitangueiras e Astúrias, na altura das pedras que as separam, o mar dificultava a passagem, pela maré alta.

As fortes ondas traziam coroas de espuma tão branca que era um espetáculo quando se chocavam contra as pedras. Parei ali, para atravessar passo a passo só enquanto as ondas recuavam para nova investida.

Cenas de um passado muito distante voltaram-me à mente.

Um grupo de jovens entre 18 e 22 anos, todos amigos, alguns irmãos, outros namorados.

Todos apaixonados por praia, ficávamos horas entre a areia e os banhos de mar. Até o corpo não aguentar mais. Daí casa, banho, um cochilo, e rua de novo. Ser jovem é não sentir cansaço, ter disposição para tudo.

Reuníamo-nos na pizzaria. Era um festival de muitas pizzas, porque o apetite era enorme. E    devorávamos tudo, e ainda sempre terminávamos com as infalíveis pizzas doces – califórnia, romeu e julieta, morango com chocolate. Hoje eu não comeria nenhuma. E, no máximo,  como duas fatias de pizza básica. Mas aos 20 anos a história era outra…

Alimentados e felizes, era hora de ir para o apartamento da família da Sílvia, namorada do Fernando. Exatamente naquele ponto da cidade, onde as praias se dividem, no Edifício Sobre as Ondas.

E, luzes apagadas, sentados no chão, alguém tocando violão, todos cantando, fascinados deixávamos o tempo escoar enquanto olhávamos a força do mar, em ondas com brancas espumas, “entrando” sob o edifício para bater nas pedras.

Cada um seguiu seu caminho, Carlos se casou com Marta, Fernando com Silvia, uns casais se separaram, outros nem se formaram…

Mas a doce lembrança daquele tempo vadio, onde tudo era alegria, ficou cravado na saudade que não desaparece…

Canção/Poesia – VIAGEM

Hoje amanheci “ouvindo” essa canção. Tão doce, tão marcante… vale a pena conhecer a letra. Trata-se de Viagem, de Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino

Oh! tristeza me desculpe,
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar…

Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar…

Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar…

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol…

Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu…

Mas, pode ficar tranqüila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar…

Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar…

 

Para quem quiser conferir, copie e cole:

Sonho

Lobo que surge na noite

Que traz consigo o encanto

Lobo que some na noite

Deixa um rastro de paixão

Seu chamado é irresistível

Ecoa dentro da alma

 

Todo anoitecer ponho-me à espera

Ansiosa, sem saber se esse Lobo virá

Ele me sabe mais do que eu o sei

Porém eu o sinto mais que ele me sente

Sua força é irresistível

Faz de mim um seu brinquedo

 

Quando esse Lobo surge a meu lado

E me conta coisas de outros mundos

Dos caminhos que trilhou

Mostra amores que desconheço

Sua promessa é irresistível

E me chama para que eu o siga

 

Sempre tento em vão não escutar

O que me fala esse Lobo

Sei que ainda o seguirei.

Não, Lobo, não torne a chamar

Seu chamado é irresistível

Um dia irei com você…

Dia de Poesia -Francisco Otaviano – Morrer… Dormir…

Morrer .. dormir .. não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores: 
Um punhado de terra, algumas flores, 
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida; 
Não deixo amigos, e nem tive amores! 
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo.  Que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe,
Vem, pois, ó Morte, ao Nada me transporta!
Morrer… dormir… talvez sonhar… quem sabe?