Da esperança

 

 Esperança, fio invisível que nos sustenta e nos mantém vivos.

Como aquela sensação de prazer quando comemos tamarindo. Depois da acidez do primeiro bocado, vai ficando saboroso e deixa uma lembrança boa no paladar.

Assim é a esperança: depois da perda, o desespero ácido vai se desfazendo e se tornando a esperança – o gosto bom de se acreditar que tudo voltará um dia a ser como antes. Porque o desespero é desesperar e esperança é exatamente esperar.

A fogueira se apaga, mas brasas vivas ficam lá no fundo, cobertas de cinzas. A função da esperança é manter vivas essas brasas, e, na primeira ocasião, deixá-las tomar conta do coração e reaquecer a vida.

Viver só de esperança, porém, amarga a boca. Mas viver em estado de desesperança é morrer em vida.

Por isso a razão equilibra a emoção – alimentamos algumas esperanças e deixamos as outras, que mais machucam se não se concretizarem, desidratar e morrer.

Esperança são as flores das emoções, precisa ser cultivada, cuidada, para se manter viva. E precisamos dela para nos mantermos vivos.

A cada despertar, é a esperança que nos faz levantar e enfrentar mais um dia – se nada esperarmos, por que continuar vivendo e lutando?

Passos vencidos

Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar.

Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar. (Antonio Machado)

                             

Nunca li um livro da chamada literatura de autoajuda. Não posso tentar resolver meus problemas pela cabeça de um desconhecido, mesmo que ele tenha conseguido resolver um dos seus próprios e depois resolveu contar para todo mundo por meio de um livro.

Acho que cada um tem de sair das dificuldades pelas próprias pernas, dando os passos possíveis e fazendo seu próprio caminho…

As armadilhas em que caí ao longo da vida ensinaram-me que o grande segredo para ser feliz é se bastar. Não deixar minha felicidade nas mãos de terceiros. Não permitir ser necessária outra pessoa para me fazer feliz.

Dessa forma, ninguém pode me fazer infeliz. Porque eu me basto no quesito felicidade.

Os anzóis das iscas que me iludiram deixaram profundas marcas em minha carne.

Peixe carente, atirei-me com sofreguidão às iscas, sem perceber as ocultas intenções dos anzóis que as exibiam…

E foi assim que aprendi que as iscas mais atraentes trazem os anzóis mais cruéis.

Último poema

 

Era apenas uma lágrima. Gota quente que brotou dos olhos

Na fria madrugada ao receber a mensagem do já esperado adeus.

Esperado, não desejado, não provocado, mas sinalizado.

E a lágrima, lentamente desceu pela face, esfriando e a marcando.

Outras vieram em seguida. Quentes, misturavam-se, e ao final

Todas estavam frias, como era fria aquela triste madrugada.

Geladas, chegaram ao coração. Que até então batia aquecido

Na paixão ardente que o embalava nos últimos anos.

O coração gelou e congelou o sangue. A aurora, mais fria ainda

Aproximou-se e entrou de mansinho, tentando dar um consolo

Àquela alma que se contorcia na dor da perda inexplicada.

A doçura e a mansidão dessa alma a mantiveram em silêncio.

O dia amanheceu, radiante e ensolarado, secando as últimas

Lágrimas que insistiam em cair. E aquela intensa dor da alma

Se transformou em dor física. E tomou conta de todo o corpo.

Anoitecera e adormecera no calor de uma paixão tão linda

Mas amanheceu na solidão silenciosa e dolorida do abandono,

Que cortava como faca afiada. O sol avisou que a vida continuava.

Devastada, aos pedaços, mas não viva, pois algo morrera por dentro,

Levantou-se e enfrentou o dia, já inundada de uma saudade que

Sabe jamais saciada, e se pergunta agora como seguir em frente

Com todos seus sonhos pisoteados, quando nada mais tem a esperar…

Meu encanto

Foi um vendaval – um forte e quente vento de verão

Que se aproveitou de uma janela esquecida aberta

E subitamente adentrou neste velho coração

E trouxe dúvidas para a essa vida que estava certa

 

Não consegui contê-lo, e assim também não me contive

E se anoiteci na rotina de tantas tristezas antigas

Amanheci renovada, na paixão incontida

Reavivada no calor dessas lembranças amigas

 

Tsunami, temporal, sensações passadas

Desejo, saudade, palavras esquecidas

Torvelinho fatal do que estava resolvido

 

Fecho hoje com cuidado as janelas – agora já cerradas

E as cinzas, que esvoaçaram doidas, voltam, entristecidas

A cobrir de novo as brasas de um coração adormecido.