
Fechando o mês de junho e suas festas – E viva São Pedro!

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Ela Cerveja, Ele Coca Cola. Ela disco, ele tinta. Ela toca, ele pinta. Ela dança, ele tenta. Ela sorri, ele não aguenta. Ela escandalosa, ele calado. Ela festeira, ele sossegado. Ela quer ir, ele tá de boa. Ela desiste, ele ‘me perdoa’. Ela pontual, ele demora. Ela tem pressa, ele sem hora. Ela espera, ele vai embora. Ela pergunta, ele enrola. Ela desencana, ele peleja. Ela explica, ele boceja. Ela respira, ele fraqueja. Ela entende, ele a beija. Ela ponto, ele porém. Ela forte, ele do bem. Ela do momento, ele do além. Ela ama, ele também.
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Me acostumei sem tua presença
nesta enjoada forma diária...
Sem sabedoria, nem cafés da manhã.
É mais um desencontro,
feroz e insensível,
nesta realidade que é apenas minha,
assim como é minha tua ausência.
(Nancy Alcântara, in A fé no existir)

Solidão… tema recorrente…
A solidão não chega tocando a campainha e entrando porta-a-dentro, como uma visita indesejada. Nem precedida de ventos, raios e trovões como uma tempestade se anunciando.
A solidão chega de mansinho. Tímida. Vai-se encostando na sua alma, entra sem ser percebida. Em profundo silêncio. E ali se instala. Faz sua eterna morada.
Você só percebe no dia em que se dá conta que a solidão já ocupou todos os espaços, expulsou todos os desejos, dominou todos os pensamentos.
E conclui, então, sem tristeza nem desespero, mas com resignação, que se tornou um ser extremamente solitário.
Traz a solidão um novo existir, uma inovadora forma de se conviver consigo mesmo. E, paradoxo existencial, a única coisa que se leva desta vida é exatamente a solidão. Quem já se acostumou a ela enfrenta a morte com mais galhardia e até mesmo uma ponta de alegria. Enfim, só. Para todo o sempre.
Tem-se, no existir solitário, a exata dimensão do próprio valor, da beleza interior que se carrega, da riqueza que é a própria companhia.
E, com o passar do tempo, qualquer convivência social convencional torna-se dispensável. Não por se ter tornado um ser antissocial. Mas, simplesmente, porque se está tão preenchido com a calma da solidão, que festas ruidosas, pessoas vazias, situações deprimentes, conversas idiotas, não fazem o menor sentido e entendiam mortalmente. Acaba-se querendo a própria companhia, na calma de um lugar isolado.
A companhia de uma boa música, por vezes uma dose de whisky e excelentes livros bastam.
Não se pode viver no completo isolamento. A não se que se tenha a sorte venturosa de poder viver em um farol…
Então escolhe-se, atentamente, as poucas companhias, as escassas reuniões sociais, a mínima convivência com seres indesejados.
Mas a solidão não é vazia.
É um estado de alma totalmente preenchido.
Do que é feita, com o que é preenchida a solidão?
A solidão é construída com as pedras que foram atiradas, com as mágoas causadas, com as dores suportadas em silêncios, com os abandonos sofridos.
Com a lembrança do que já foi. E não lembrança seletiva, mas lembrança integral – do que foi bom, do que foi ruim. De quando se foi feliz e de quão infeliz se foi.
E, principalmente, a solidão é preenchida de tantas ausências. Porque ausência é algo concreto, palpável.
O vazio que deixaram na alma se torna integrante da solidão.
E tudo que o que está lá guardado não pode ser repartido. Solidão é egoísmo. Recordações que não se partilham, desejos sufocados que não se pode dividir. Grandes alegrias que se quer inteiras e dores que não se pode cindir e distribuir.
Assim, como peças de montar, as lembranças compõem a solidão. Pode-se brincar com elas – fazer muros, pontes e até castelos ou casinhas. Pode-se pegar uma ausência que é mais dolorida e deixar por cima, para ser sempre a primeira a se sentir.
Há ausências tão doloridas na solidão, que preenchem todos os cômodos da alma. A ausência que preenche a solidão pertence integralmente a quem foi deixado um dia. A mais ninguém.
E, no feliz fecho do poema de minha querida amiga Nancy Alcântara, “Nesta realidade que é apenas minha, / assim como é minha tua ausência.”
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)


Solidão. Ou estar só. Ou viver só.
Nem sempre a solidão é solitária.
Principalmente quando é fruto de escolha.
Porque solidão não é exatamente estar só. Nem viver só. Estar só é circunstancial. Viver só e sentir isso como um peso é abandono.
Mas solidão – consciente e por opção – é muito mais do que isso tudo. Solidão é riqueza de alma.
Pode ser, pontualmente, triste.
A tristeza eventual faz parte da vida de todos. De quem vive só e de quem vive a dois ou a dez.
Mas estar junto é quase sempre triste.
Viver junto com outra pessoa é a situação do pássaro na gaiola: através das finas grades, o pássaro recebe luz. Imagens. Vê a natureza, vê os arredores, vê a vida em seu entorno. Mas não vive nada. Canta de desespero. Não de solidão, mas de falta de liberdade. Tem tudo ali – comida, água, limpeza, calor, luz, conforto. Mas não tem liberdade. Isso é viver só. E geralmente a vida compartilhada é assim.
A solidão da vida compartilhada é a situação mais triste que existe. É ver a passar a vida que não pode viver.
Na fala poética de Oswaldo Montengro, “A solidão é como um nome que se esquece, Como um homem que envelhece, sem viver o que sonhou”. Isso é estar só.
Viver só é opção. Ou abandono.
Abandono quando tudo o que se quer é viver com familiares ou amigos, mas o egoísmo, o descaso, o “tanto faz” dessas pessoas afasta definitivamente e impede a convivência.
Enquanto a opção por viver só – ainda que por decepção, por desentendimentos, não é imposto, mas escolhido.
E quem vive só descobre toda a riqueza que traz em si.
Descobre o valor da liberdade. Optar pela solidão é escolher a liberdade.
Nada impede ter família, ter amigos. Conviver.
Mas a vida, essa só a si pertence.
E, nesse caso, ter para si toda sua vida, não é para todos. Só para os especiais.
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.