Por aí (Memória)
Quero a beleza do amanhecer na floresta, com o ruído das folhas ao vento
Misturados à algazarra animada dos pássaros e às cores do dia que surge.
Não posso ficar indiferente a tanta beleza, a tanta alegria da natureza
Que nesse altar se revigora todas as manhãs, e renova a vida, o céu e a terra.
Mas também quero o silêncio longo do anoitecer no lago da montanha
Com suas cores exóticas, brisa amiga, longos pios ao longe dentre as árvores
E a água se vestindo de ouro, de azul, de prata, de cinzas vários até enegrecer
E a noite, cálida e amiga, despertando os corações para novas paixões.
E não quero viver longe da cidade grande, com seu caos organizado, sua vida
Pulsante que nos provoca sempre – sobreviver é a proposta, viver é o desafio
Onde tudo é difícil, mas maravilhoso, tudo longe, mas compensador e vibrante
E ali, na madrugada que se esvai, então dormir com a certeza de um novo dia.
Mas preciso do mar, meu amado mar, de tantas vestes diferentes e humor variado
Nas horas sem fim, que passo a mirar as águas, as ondas vadias que me chamam
Ouvir seu canto infinito, sua eterna canção de me ninar nas noites insones
Apenas estar. Sentir. Não pensar, não sofrer, voltar às origens da vida sem dor.
Tudo isso eu quero, ver a vida de tantas e diferentes janelas, nunca ficar parada
Saber que em algum lugar alguém me espera com ansiedade, sabendo que irei
Porque nunca estou, sou vento, sou chuva – apenas passo e não me detenho.
Voltarei pelo seu amor: não posso parar, sou ave de arribação, espere por mim.
Dia de Poesia – Mario Quintana – Seiscentos e Sessenta e Seis

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Poesia da casa – Silêncio pelo menino morto
Será que o mundo já esqueceu?

O menino deitado na areia Adormeceu Espera por seu pai De quem se perdeu. O menino deitado na areia Fugiu de sua pátria Fugiu da guerra e do horror Fugiu da fome e da violência. No vento frio da noite Segurava na mão de seu pai O menino deitado na areia Tinha pai, tinha mãe e irmão. No vento da noite o balanço do mar No frio da noite as ondas imensas No escuro da noite seu corpo no mar. Não viu onde foi seu irmão Não ouviu mais a voz de sua mãe Não achou mais a mão de seu pai. E as ondas do mar levaram o menino E o deixaram na beira da praia. Adormecido ali ficou o menino. O pequenino na areia da praia. Rostinho virado de lado não viu A cem metros estava seu irmão Deitado na areia da praia Dormindo na beira do mar. Não mais se deram as mãos Não mais se viram os rostos. O menino deitado na areia Deixou um planeta chocado Sacudiu o conforto de todos Arrancou lágrimas de dor Porque não brincava o menino Não aproveitava a alegria da praia O menino deitado na areia Fugindo do horror e da guerra Não dormia o menino na areia: Estava morto o menino Deitado na areia da praia Morrera nas ondas do mar. (para Alyam Kurdi, 2015)
Texto de autoria desconhecida

– O que ela é sua?
– Ela não é nada minha. Apenas estamos juntos, temos filhos, dividimos a casa, a cama, as contas, fazemos planos e amor, realizamos projetos juntos.
– Então ela é a sua mulher!
– Não. Ela é mulher, mas não é minha. É dela mesma, mas decide estar comigo.
– Então é sua esposa!
– Também não. “Esposa” é uma antiga definição para algemas. E ela não está presa a mim. Está comigo pelo simples desejo de estar. Não temos contratos, apenas vontade. Não temos nenhuma obrigação de permanecer, o fazemos por desejo.
– Isso não é perigoso?
– Perigoso é uma pessoa se sentir obrigada a permanecer onde não deseja estar, fazer sexo por “dever” e sem empolgação, conviver sem amor, estar presa por interesses materiais, coerção social, familiar ou religiosa.
Flor de cacto

Hoje o cacto floresceu. Onde era só aridez, sem cores, onde eram só espinhos, sem acolhida, agora são flores, tornou-se pura beleza.
O cacto nasceu para enfeitar o mundo com flores? Ou veio para resistir à secura, não para florescer? Para mostrar que é possível viver na solidão, no deserto, no abandono?
Sua missão é manter o verde-esperança vivo onde quase não há mais vida? Ou desabrochar e colorir a natureza da mesma forma que todas as outras flores?
Estranha vida, estranho florescer…
Tão seco o ar, tão árido o terreno, e o cacto, firme, solitário, enfrentando a adversidade. Traz em si a umidade que necessita. Nada pede, nada suga. Apenas vive. Resiste em seu ritmo, não se sabe se vive, mas sabe-se que não está morto.
Até esta manhã.
Quando inesperada, brusca e lindamente floresceu.
E suas flores, de cores tão singulares, diferentes dos quase monocromáticos marrom-poeira e verde-apagado da realidade do cacto, parecia fazê-lo gritar ao mundo: estou aqui!
A vida venceu. Venceu a secura, o abandono, a tristeza.
Esta manhã o cacto floresceu.
(Imagem: banco de imagens Google)