Dia de poesia – J.G. de Araújo Jorge – Soneto a tua volta

Encontrei, por acaso, em minha biblioteca, um livro sem capa, que trazia, cobrindo a primeira página, um antigo papel de presente. E uma singela data, provavelmente quando veio parar em minhas mãos – 1975 – na qual pude reconhecer meu traço.

Bazar de Ritmos… J G de Araújo Jorge.

Começo a folhear. Poesia. Romantismo a toda prova. Saudade, separação, desesperança…

Trago, desse poeta e político brasileiro, uma poesia – Soneto à tua volta – que traduz muito do que todos nós já sentimos, ao menos uma vez na vida, datado de 1.935:

Voltaste, meu amor… enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho….
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado… Eu vivia tão sozinho…
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste… E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida…

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida…

Texto de Grace Ramsay, de “História de Iza”, escrito em 1.869

E as pessoas ficaram em casa
E ele leu livros e ouviu
E ele descansou e fez exercícios
E ele fez arte e tocou
E ele aprendeu novas maneiras de ser
E ele parou

E ele ouviu mais profundamente
Alguém meditou
Alguém orou
Alguém estava dançando
Alguém encontrou sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente

E pessoas foram curadas.
E na ausência de pessoas que viviam
De maneiras ignorantes
perigosas
sem sentido e sem coração,
Até a terra começou a se curar

E quando o perigo acabou
E as pessoas se viram
Eles lamentaram os mortos
E eles fizeram novas escolhas
E eles sonhavam com novas visões
E eles criaram novas formas de viver
E elas curaram completamente a terra
Assim como elas foram curadas.

Texto de Emille Kisar

Um dia a gente volta a se abraçar

Por enquanto,

abracemos no olhar

abracemos no falar

abracemos até no silêncio

abracemos ligando para saber como o outro está

abracemos pela janela e pela fresta

abracemos esperando o tempo passar

abracemos o mundo mesmo que de longe

Porque tudo vai passar

Estamos apenas dando um tempo ao tempo

Estamos deixando o tempo resolver a gente

Mas vamos continuar

Sempre continuamos

Nós e nossos abraços

Nós e nossos desejos de voltar a tocar

Nós e nossa vontade ainda maior de sermos humanos

Procure seu melhor abraço

e faça-o sem medo

 

Dia de Poesia – Pablo Neruda – Soneto LXVI

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

 

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

 

Consumirá talvez a luz de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego

 

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.

 

Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Esperança

Quando o primeiro frio se aproximava

    ela me deu um cobertor e disse

          que viria me aquecer.

          Eu fiquei esperando,

    mas o primeiro frio chegou

              e ela não veio.

 

          E estava por vir o segundo frio

quando ela ligou pedindo para esperá-la.

                Botei lenha na lareira

                 e aqueci chocolate,

mas o cheiro bom da saudade que pairava no ar

       me fez entender que ela não viria.

 

            No frio daquele ano,

                  o terceiro,

        eu pedi que ela viesse.

          Prometeu que sim.

       Comprei vinho do bom

             e discos de jazz,

           mas, mais uma vez,

            ela se fez ausente.

 

Quando o inverno do quarto ano chegou

                    não nos falamos.

              Uma réstia de esperança

             botou-me frente à janela

               espiando o horizonte

          pensando que, talvez, ela

       pudesse me fazer uma surpresa.

               Mas nada aconteceu.

 

    Agora, o quinto frio se prenuncia.

   Vez em quando olho pro cobertor

                 que ela me deu e,

         com uma certa apreensão,

espio a esperança pela fresta da janela.

 

 

 

 

Dia de Poesia – Cândido Arouca – Para sempre

Quando dissemos que era para sempre não precisámos de assinar um papel,
de jurar fidelidade,
até que a morte nos separe!
Quando dissemos que era para sempre jurámo-lo com o olhar,
selámo-lo com um beijo.
Eu dentro de ti,
tu receptiva à minha penetração!
Há lá jura melhor!
Contrato algum tem mais valor?
E não foi um “para sempre” dito da pele para fora.
Foi um “para sempre” vindo do coração,
que percorreu todas as artérias,
todas as veias,
todos os capilares.
Que aflorou a cada um dos poros e desaguou nas nossas bocas.
Não fizemos juras,
não prometemos nada,
não exigimos impossíveis,
não fizemos pactos,
não imitamos padrões.
O nosso compromisso assenta apenas numa premissa;
que hoje não nos amamos o suficiente,
que amanhã nos vamos amar mais,
e assim sempre,
todos os dias da nossa vida.»

 

Dia de Poesia – Álvaro de Campos – O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…