Dia de Poesia – Carlos Drummond de Andrade – Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Dia de poesia – Mia Couto – Amei-te sem saberes

Hoje não devia ser dia de poesia. Mas esse poema do Mia Couto me encantou, li e reli. E resolvi partilhar com vocês. 
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio 

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

Outros Poemas de Mia Couto:

Hoje é dia de poesia – Ferreira Gullar – Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Texto de Piátnitsa Melo

Algumas vezes penso que ele conversou comigo antes de escrever…

 

………………………………………..

 É-me impossível fugir da essência incandescente e frágil que me liga a ti. É algo que tento controlar, mas que me descontrola, sempre que penso em ti.

A cada dia, acresce uma nova esperança e a ilusão fantasiosa, que se forma, em meu ser, me envolve e me queima por dentro, como de um desejo incontrolável se tratasse, por doer tanto. Mas o amor é assim e penso que a todos acontece, sentir a ilusão de amar quem ainda não nos amou… sentir o terno abraço, de quem nunca nos abraçou… sentir preciosos momentos de pura ficção, como algo que estivesse a ser vivido, mas, que, infelizmente só é sentido em flashes de distração que se formam em meu subconsciente baseados na esperança de um dia tornar real todo este sonho que coabita dentro de mim, ao qual, se me tornou, inevitável escapar.

É um sentimento que começou com escassos segundos, que se duplicaram; se treplicaram; mas que agora se apoderaram e me mortificam, de dia e de noite, como que, pensar em ti, seja o único comprimido capaz de serenar minha alma e contagiar meus sonhos, ao ponto, de me perguntar, a sonhar, se de facto estou a sonhar, por serem reais de mais, para que sejam sonhos.

Ao mesmo tempo, esta ilusão irreal, de te amar, que se torna real quando perco o controlo da consciência, é um fenómeno tão envolvente e tão fascinante, que mesmo não existindo, nada em concreto, a não ser esta compreensão errada da mente, de um dia, tu e eu e eu e tu, nos pertencermos, me faz feliz.

Talvez reveja em ti, o que já vivi?

Talvez seja o passado a fundir-se com o presente e tu sejas a mesma em outra vida, mas que para mim és a mesma que já amei e continuo a amar, duas vezes, numa só vida? Tudo prova, que és tu que tanto amo, mas que tanto me assusta, te amar, por não ter como provar, o que os dois juntos já vivemos. Há coisas que nunca te poderei explicar! Palavras que nunca te poderei dizer!

Momentos, que só eu poderei reviver e que tu apenas, poderás desfrutar. Ápices, de um passado, vivido a dois, que se cruza com o presente, único para ti, mas não para mim, mas que se funde com o presente do amanhã, como só de um momento se tratasse, em tua vida. Conhecimento que não te posso revelar e o qual daria tudo para não saber, porque é um saber que me faz sofrer.

Apenas te quero dizer, que te amo, porque já te amei e também me amaste, mais que a tua própria vida, e que me continuas amar, contra a tua vontade, por não saberes, descodificar, o laço de afinidade que te prende a mim…

Mas, o amor, não é para descodificar nem compreender. Apenas se deve deixar acontecer, e é isso que eu espero que um dia aconteça, entre mim e ti, entre nós dois, comigo e contigo. Sim! Eu e tu, juntos para sempre, nos amando, sem querer saber, qual a razão, que nos une eternamente..

 

Dia de Poesia – Machado de Assis – À Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro. 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro. 

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados. 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Fala a Loucura

Para dizer a verdade, não nutro nenhuma simpatia pelos sábios que consideram tolo e impudente o autoelogio. Poderão julgar que seja isso uma insensatez, mas deverão concordar que uma coisa muito decorosa é zelar pelo próprio nome.

De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? Quem poderá pintar-me com mais fidelidade do que eu mesma? Haverá, talvez, quem reconheça melhor em mim o que eu mesma não reconheço? De resto, esta minha conduta me parece muito mais modesta do que a que costuma ter a maior parte dos grandes e dos sábios do mundo. É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.

Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais.

É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.

………………………………

E porque, segundo o meu costume, não hei de vos falar mais livremente? Dizei-me, por favor: serão, talvez, a cabeça, a cara, o peito, as mãos, as orelhas, como partes do corpo reputadas honestas, que geram os deuses e os homens? Ora, meus senhores, eu acho que não: o instrumento propagador do gênero humano é aquela parte, tão deselegante e ridícula que não se lhe pode dizer o nome sem provocar o riso. Aquela, sim, é justamente aquela a fonte sagrada de onde provêm os deuses e os mortais.

Pois bem, quem desejaria sacrificar-se ao laço matrimonial, se antes, como costumam fazer em geral os filósofos, refletisse bem nos incômodos que acompanham essa condição? Qual é a mulher que se submeteria ao dever conjugai, se todas conhecessem ou tivessem em mente as perigosas dores do parto e as penas da educação? Se, portanto, deveis a vida ao matrimônio e o matrimônio à Irreflexão, que é uma das minhas sequazes, avaliai quanto me deveis. Além disso, uma mulher que já passou uma vez pelos espinhos do indissolúvel laço, e que anseia por tornar a passar por eles, não o fará, talvez, em virtude da assistência da ninfa Esquecimento, minha cara companheira? É preciso dizer, pois, a despeito do poeta Lucrécio, e a própria Vênus não ousaria negá-lo, que sem a nossa pujança e a nossa proteção, a sua força e a sua virtude languesceriam e se desvaneceriam completamente.

Foi, por conseguinte, dessa agradável brincadeira, por mim temperada com o riso, o prazer e a amorosa embriaguez, que saíram os carrancudos filósofos, agora substituídos pelos homens vulgarmente chamados frades, os purpúreos monarcas, os pios sacerdotes e os pontífices três vezes santíssimos. Finalmente, dessa brincadeira é que também surgiu toda a turba das divindades poéticas; turba tão imensa que o céu, embora muito espaçoso, mal pode contê-la. Mas, pouco amiga seria eu da verdade, se, depois de vos provar que de mim tivestes o gérmen e o desenvolvimento da vida, não vos demonstrasse ainda que provêm da minha liberalidade todos os bens que a vida encerra.

Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia? Oh! Oh! Vós me aplaudis? Já vejo que não há aqui nenhum insensato que não possua esse sentimento. Sois todos muito sábios, uma vez que, a meu ver, loucura é o mesmo que sabedoria. Podeis, pois, estar certos de que também os estoicos não desprezam a volúpia, embora astutamente se finjam alheios a ela e a ultrajem com mil injúrias diante do povo, a fim de que, amedrontando os outros, possam gozá-la mais frequentemente. Mas, admitindo que esses hipócritas declamem de boa-fé, dizei-me, por Júpiter, sim, dizei-me se há, acaso, um só dia na vida que não seja triste, desagradável, fastidioso, enfadonho, aborrecido, quando não é animado pela volúpia, isto é pelo condimento da loucura. Tomo Sófocles por testemunho irrefragável, Sófocles nunca bastante louvado. Oh! nunca se me fez tanta justiça! Diz ele, para minha honra e minha glória: “Como é bom viver! mas, sem sabedoria, porque esta é o veneno da vida”. Procuremos explicar essa proposição.

Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável. Mas, que é que torna os meninos tão amados? Que é que nos leva a beijá-los, abraçá-los e amá-los com tanta afeição? Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre. Qual é a causa disso? É a natureza, que, procedendo com sabedoria, deu às crianças um certo ar de loucura, pelo qual elas obtêm a redução dos castigos dos seus educadores e se tornam merecedoras do afeto de quem as tem ao seu cuidado. Ama-se a primeira juventude que se sucede à infância, sente-se prazer em ser-lhe útil, iniciá-la, socorrê-la. Mas, de quem recebe a meninice os seus atrativos? De quem, se não de mim, que lhe concedo a graça de ser amalucada e, por conseguinte, de gozar e de brincar? Quero que me chamem de mentirosa, se não for verdade que os jovens mudam inteiramente de caráter logo que principiam a ficar homens e, orientados pelas lições e pela experiência do mundo, entram na infeliz carreira da sabedoria. Vemos, então, desvanecer-se aos poucos a sua beleza, diminuir a sua vivacidade, desaparecerem aquela simplicidade e aquela candura tão apreciadas. E acaba por extinguir-se neles o natural vigor.

Por tudo isso, observai, senhores, que, quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incômoda velhice, tão insuportável para si como para os outros. E, já que falamos de velhice, não fiqueis aborrecidos se por um momento chamo para ela a vossa atenção. Oh! como os homens seriam lastimáveis sem mim, no fim dos seus dias! Mas, tenho pena deles e estendo-lhes a mão. Não raro, as divindades poéticas socorrem piedosamente, com o divino segredo da metamorfose, os que estão prestes a morrer: Fetonte transforma-se em cisne, Alcion em pássaro, etc. Também eu, até certo ponto, imito essas benéficas divindades. Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os velhos são duas vezes crianças.

(Elogio da Loucura – Erasmo de Rotterdam)