Dia de poesia – Mia Couto – Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

(In “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”, 1999)

Dia de Poesia – Clarice Lispector – Eu te deixo ser

Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser então…

Me deixa ser aquela que chega em silêncio,

mas que quando passa deixa seu rastro.

Me deixa ser aquela dúvida infinita,

ou quem sabe todas as respostas imediatas.

Me deixa ser aquela menina desprotegida

ou aquela mulher segura de si.

Me deixa ser aquela que faz seu coração bater mais forte,

ou talvez sua maior decepção.

Me deixa ser a conselheira amiga

ou poderei ser a sua destruição.

Te deixo ser você…

te deixo pensar com sua própria mente

andar com suas próprias pernas

Ter seus amigos e amigas,

seus anseios e suas dúvidas

Te deixo ser livre

mas nunca em hipótese alguma,

me deixe de canto, ou faça algo que necessite do meu perdão.

Não pense que por eu ter dois opostos, dois lados…que eu tenha duas caras…

Não, isso não!

Sou o que você imaginar…

Mas vou além da sua imaginação, portanto

Me deixa ser sua razão, que eu te deixo ser a minha… 

Dia de Poesia – A Camões – Manuel Bandeira

Quando n’alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

Te resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe  que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

 

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

 

Dia de poesia – Timidez – Cecilia Meireles

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

Hoje é dia de poesia – Margarida Vieira – Não me deixes morrer longe do mar

 

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

 

Canção/Poesia – VIAGEM

Hoje amanheci “ouvindo” essa canção. Tão doce, tão marcante… vale a pena conhecer a letra. Trata-se de Viagem, de Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino

Oh! tristeza me desculpe,
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar…

Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar…

Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar…

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol…

Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu…

Mas, pode ficar tranqüila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar…

Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar…

 

Para quem quiser conferir, copie e cole:

Dia de Poesia -Francisco Otaviano – Morrer… Dormir…

Morrer .. dormir .. não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores: 
Um punhado de terra, algumas flores, 
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida; 
Não deixo amigos, e nem tive amores! 
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo.  Que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe,
Vem, pois, ó Morte, ao Nada me transporta!
Morrer… dormir… talvez sonhar… quem sabe?