Dia de Poesia – Antonio Carlos Augusto Gama

Lindo poema de meu amigo Antonio Carlos Augusto Gama, ou Gama, ou Gaminha:

 

Algum dia serei pedra
e entre tantas
ela me escolherá
para carregar no dedo

Nalguma primavera serei flor
quiçá amarela
que ela colherá
para entremear nos cabelos

Um dia serei areia
numa praia deserta
e em mim ela deixará
a marca etérea do seu caminho

Nalgum verão serei linho
e ela me vestirá
para sentir na pele nua
o abraço tênue do meu carinho

Alguma vez serei água
e ela me beberá
para matar a sede
que é apenas minha

Enfim já não serei eu
mas ela saberá
que fui somente seu

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Sacrifício da Aurora

Um dia a aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida…
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!

Dia de Poesia – João M C Gomes

É nas minhas madrugadas
que mais sinto a tua ausência
depois de mais uma noite
em que a solidão
dormiu na minha cama.
Na minha mão,
não sinto a tua mão,
no meu peito,
não sinto o teu braço,
e o calor da perna
que traçavas sobre a minha
é agora ausente
e parte de um sonho amordaçado.
O tempo do amor
diluiu-se nos dias de tristeza incontida,
e as luzes que nos iluminavam
deixaram morrer as flores
que trazíamos sedentas
dentro de nós.
As sombras desceram sobre a nossa paixão,
cobrindo de espanto e de dúvidas,
os dias de amor, antes fácil,
destruindo as searas que lavrávamos,
nos nossos corpos e na nossa alma.
Mas é nas madrugadas,
que te revejo e ainda te sinto presente,
sem encontrar solução
para a dor que trago no peito,
e o arrependimento de te deixar partir
deste corpo e desta mente
carente e amordaçada,
como um castelo desmoronado,
por um simples sopro de uma mulher,
que me amarrou,
nas linhas do seu cabelo,
e me deixou exausto de sede e de fome,
na solidão de um amor inacabado.

Dia de Poesia – Carlos Drummond de Andrade – Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.