Hoje é dia de Poesia – Canção

 

Canção

(Cecília Meireles)

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas

Dia de Poesia – Estrela do mar

Mais que uma canção, uma poesia…

Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
E imaginou coisas de amor


Passaram anos, muitos anos
Ela no céu e ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pode com ela se encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar


O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela do mar.

(Marino Pinto/Paulo Soledade)

Sinto falta

Sinto saudades de ti, sem ainda te ter.

Sinto desejo de ti, sem nunca te ter tocado.

Sinto a tua falta, sem nunca teres estado junto de mim.

Sinto o que nunca aconteceu como que tudo tivesse acontecido.

Sinto falta do teu calor, sem nunca te ter tocado.

Sinto falta do teu amor sem nunca me teres amado.

Sinto falta das palavras de amor que nunca proferiste.

Sinto falta dos teus abraços que ainda não me deste.

Sinto falta e desejo de tanta coisa que conosco nunca aconteceu, porque sinto no teu olhar, que sentes o mesmo que sinto eu.

Sinto que quando olhas para mim, fantasias comigo, o que nunca aconteceu e que de noite na cama, sonhas comigo, como que eu já fosse teu.

É verdade!

Sentimos falta, do que entre nós, nunca aconteceu, mas que acontece, todas as noites, em que eu sonho que já és minha e que tu sonhas, como que eu já fosse teu.

Sentimos desejo do que nunca aconteceu e só deixará de haverá desejo quando tu já fores minha e eu já for teu.

Mas se o desejo continuar, é porque ainda não nos amamos o suficiente. para que ele possa acabar, ou então, nosso amor é ilimitado e quanto mais nos amarmos, mais nos desejamos amar…

(Piátnitsa Melo)

Hoje é dia de Poesia – Neruda

Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.

(Poema nº 12 de Veinte Peomas de amor y una cancipon desesperada – Pablo Neruda)

O livreiro

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja a base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade. Não é portanto compulsoriamente adquirido. – O pão diz ao homem: ou me compras ou morres de fome; – O batom diz à mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si mesma, como o porco com a lama.

 E, pois, o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se. Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro. E é graças a esta generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde. Suprimam-se o livreiro e estará morto o livro – e com a morte do livro retrocederemos à idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre.

A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpetua, a trêmula chamazinha da cultura.”

(Monteiro Lobato)

 

Dia de poesia – Clovys Torres

Hoje trago um poema de meu amigo Clovys Torres…

 

Se eu fosse poeta, te faria poesias…

se eu fosse escritor, te escreveria romances…

se eu fosse jardineiro, te cultivaria jardins…

se eu fosse doido, te faria loucuras..se eu fosse músico, te dedicaria canções….

se eu fosse bailarino, dançaria com você.

Só que não sou nada e me entrego inteiro!

Eu roubei o relógio do tempo.

 

Vem, vamos brincar com a eternidade

e então seremos românticos,

cantaremos em nossos jardins

e dançaremos como loucos pelas bordas do mundo!

 

Venha, vamos colorir o mar, engolir a lua e

coreografar o vento!

 

Venha,

vamos ser loucos,

fazer loucuras

sem saudade

da lucidez…

 

Se eu fosse sensato,

não te convidaria, 

eu sei que você virá!

e em seus olhos trará

o oceano inteiro

e eu te beberei

como um rei!

 

Sem medo de me afogar!

(de “Curva de vento”)