Arrastando a quarentena

Cada dia, um novo dia.

Não para quem cumpre isolamento social.

Todos os dias são iguais. Todos. Não se contam mais os dias por seus nomes, porque segunda-feira, domingo, quarta-feira, sábado, tudo ficou exatamente igual. Nem mais o chopp de sábado ou a missa de domingo para diferenciá-los.

Chegamos a um ponto de absurdo que noites e dias também se igualaram. A pessoa simplesmente não se levanta da cama ao amanhecer porque não terá absolutamente nada para fazer.

E quando não aguenta mais ficar deitada, levanta-se e passa praticamente a noite acordada, vendo TV, comendo, andando feito zumbi dentro de casa.

Será que a intenção do governador, um neo Dr. Simão Bacamarte  é enlouquecer os cidadãos? Aí interná-los todos em alguma Casa Verde, ou transformar parte do Brasil em imensa Casa Verde?

Precisamos trabalhar. Ainda que o sonho de muitos brasileiros tenha sido sempre viver sem trabalhar, a grande maioria trabalha para se manter e à família.

Não vivemos de esmolas oficiais. Temos dignidade.

E até isso está sendo destruído pela política torta de isolamento horizontal. Tiraram do brasileiro até a dignidade de sustentar os próprios filhos.

Isso tudo por falta de humildade desse Dr. Simão Bacamarte moderno, que nunca trabalhou, nunca precisou ganhar durante o dia para comer à noite.

Só quem trabalhou desde sempre entende o que é trabalhar para viver.

E mais: a alegria de ter um trabalho, a alegria de se sustentar. Contrariamente ao que pensam os esquerdistas de iPhone, as pessoas têm, sim, prazer em trabalhar, em produzir. O único problema é que o governo do Brasil, desde 1.986, sempre jogou contra o trabalhador, contra o empreendedor e protegeu a vagabundagem.

Agora que temos um governo federal que preza o trabalho, o trabalhador, o empreendedor, o empresário, vêm esses porqueiras de governadores estaduais e jogam tudo no lixo.

Realmente, o Brasil não é para principiantes, como disse Tom Jobin, e eu acrescento: nem para amadores.

No terror

Várias viaturas fecharam a rua. Homens de farda desceram correndo e começaram a entrar nas casas. Correu para dentro, fechando portas e janelas. Mas isso não bastou.

Em poucos segundos a porta lateral veio ao chão. Armados, encapuzados, eles entravam e berraram. Não conseguia entender nada. Levou uma pancada na altura da costela. Sentiu uma dor aguda.

O pavor lhe paralisava as pernas e tampava os ouvidos. Não conseguia sair do lugar. Escutava vozes mas não entendia as palavras.

Eles gritavam. Via o movimento. Não sabia o que acontecia.

Levou outra pancada. Agora na cabeça. E eles gritavam.

Sentiu medo. Muito medo. Como nunca sentira em toda a vida. A náusea começava a dominar o corpo. Vertigens.

Um deles tirou a máscara e berrou “Onde estão os outros?”

Tentou replicar “Que outros?” mas a voz não saiu.

Eram muitos. Tentou contar quantos. Eles não paravam, iam de um lado para o outro, entravam em um cômodo, saíam de outro. Era impossível contar quantos.

“Vocês estão em quarentena” gritou o mesmo que estava sem máscara. “Quem autorizou abrir a janela e olhar lá fora?”

Era a própria face do terror. Abrira um pouco a janela para respirar, para ver a árvore que havia ali, tinha saudade do verde, do ar… tinha saudade da liberdade.

Recebeu outra pancada. Tudo ficou escuro e silencioso.

Acordou do pesadelo, olhou em volta, a casa calma, todos dormindo. Foi em busca de um copo de água, para acalmar o coração. Não teve coragem de olhar pela janela da cozinha. Tempos de isolamento social tiram o chão e perturbam a paz… não tinha dúvidas.

Invernos

“… E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível.” (Ruben Alves)

 

A Trail In The Forest On A Cold Winters Day, Calgary, Alberta ...

 

“Não é inverno, ainda…”, alguém vai dizer.

E eu respondo: “quem disse que não?”

Porque inverno não é apenas uma estação do ano, quase desconhecida aqui nesse país tropical. Inverno é uma estação da alma. Inverno é uma estação da vida.

Quando nos condenaram a esse isolamento social, colocaram-nos no inverno social.

Quando deixamos de voar porque precisamos de outra asa para formar um par, estamos no inverno afetivo.

Quando mais do que sozinhos, estamos sem a pessoa que amamos e queremos a nosso lado, nossa alma está no inverno.

E, por fim, quando a juventude já ficou muito longe, a maturidade também se foi, juntamente com as forças e as ilusões, já não somos mais capazes de sonhar, estamos no inverno da vida.

Quantas vezes derrapamos, tropeçamos, caímos na vida. Mas continuamos. De algum lugar insuspeito tiramos as forças e retomamos a luta. Por nós, por alguém, por outros.

Não podemos parar na queda e continuar caídos, ou seremos tragados pela crueza do existir.

Então sempre nos levantamos. E nossa força não reside em não cair. Mas em se levantar depois da queda e seguir adiante.

Quedas reais e figuradas.

Em minha vida, mais figuradas do que reais. Mas quedas. Algumas feias. Que machucaram muito. Deixaram cicatrizes – feias tatuagens na alma, que era tão delicada.

Leio novamente essa frase do insuperável Rubem Alves.

E penso, que, realmente, sempre descobri um novo verão dentro de mim.

Por isso segui em frente. Por isso estou aqui. Em pleno inverno da vida, descobrindo, ainda invencíveis verões.

Mas, para atingir esses verões, terei de passar, com toda a paciência, por outras primaveras.

Quarentena

Que coisa horrível esse isolamento social! Não aguentava mais ficar dentro de casa na companhia do marido. Resolveu ir embora. Aliás, a ideia já não era tão nova.

Ligou para a melhor amiga.

– Acabo de tomar uma decisão. Vou sair de casa. Acabar de vez com esse casamento.

– Calma. Essa quarentena mexe com os nervos de todos. Não seja precipitada, você pode se arrepender.

– Arrepender de que? Há tempos venho pensando em sair de casa. E a decisão foi tomada.

– OK. E por que você me telefonou? Quer vir para cá? Tudo bem, mas estamos em quarentena cerrada.

– Não, não é isso. Preciso de ajuda, mas diferente.

– Fala! Qual sua dúvida?

– Quantos pares de sapato você acha que devo levar?

– Pelo amor de Deus, amiga!!!! Você está fugindo de casa e pensa em sapatos?

– Claro, não vou viver descalça. Ah, tchau, você hoje está do contra.

– Tchau. Manda notícias. Se precisar de mim de verdade, é só chamar.

Desligou e recomeçou a juntar o que pretendia levar na fuga.

Esse casamento fora um erro. Logo completaria um ano de casada com um homem que já não amava mais.

Há meses vinha pensando em terminar a relação.

E agora, essa convivência forçada, isolados do mundo na mesma casa. Enlouqueceria se continuasse assim.

 Pegou mais alguns objetos, fechou a mochila e saiu do quarto. Torcendo para que ele estivesse com a porta do escritório fechada. A porta estava aberta, mas ele não estava lá.

Foi rapidamente para o hall de entrada, onde estavam as chaves da casa e do carro. Pendurado, junto com sua chave, havia um bilhete.

Pegou o papel e desdobrou para ler.

Sentiu o chão sumir sob seus pés em uma vertigem incontrolável.

“Querida, nosso casamento nunca foi o que esperávamos. Tentei o máximo que consegui. Mas esse tempo isolamento social compulsório mostrou que não possível continuar a conviver com você. Acho melhor terminar tudo. Fui.”

Começou a chorar. Como assim, “esse tempo de isolamento”? afinal, estavam apenas no segundo dia da quarentena…

Conversa com meu avô – nº 11

Eita, vô, falamos há menos de uma semana e o senhor está tão aflito para conversar… algum problema?

Pandemônio? Não, vô, é pandemia – uma epidemia que atingiu todos os países do mundo – por isso pandemia, por um vírus chinês.

Por que chinês? Porque apareceu lá na China. E se esparramou rapidamente, contagiando as populações em progressão geométrica incontrolável.

Não é um vírus perigoso, é uma mutação do nosso conhecido coronavírus. Um filamento envolto em uma camada de gordura. Mininanomicroscópico. Segundo dr. Beny Schmidt, patologista, esse vírus não é patogênico.

Então, qual o problema? Pois é vô, o problema é que não há como frear a progressão e o intenso contágio. Ou seja, aparentemente enquanto todos os habitantes da Terra não forem contaminados, o vírus não desaparecerá.

Ele sozinho, em organismos jovens e saudáveis, geralmente não provoca nada. Em pessoas com algum problema de imunidade pode provocar uma reação semelhante a uma gripe, mas também problemas respiratórios. O perigo são os mais idosos e quem já tem outras doenças, porque associado a isso, o vírus pode matar. Complicadinho, não é? Por isso o isolamento social, o fechamento do comércio, e, consequentemente, teremos uma quebradeira generalizada. Essa nossa imprensa podre esparramando o pânico descontrolado na população, o povo abestalhado fazendo um barulhão, achando que todos vão morrer.

Como assim, vô, isso tudo o senhor já está ciente? Então qual sua dúvida?

Pandemônio, vô? Que pandemônio?

Os governadores? Quais, como assim? Doria, Witzel, Caiado e mais alguns?

Ah, sim, agora entendi.

Realmente, vô, o senhor tem razão – com esses palhaços é o pandemônio!

16º dia

Horas de preguiça, dias vadios, vida inútil. O tempo se arrasta como no pêndulo do velho relógio da sala que já não consegue marcar os segundos com exatidão.

O tempo parou.

No décimo-sexto dia do isolamento social compulsório já não mais se ouve nem o cantar dos pássaros. À falta de alimentos e do contato humano, eles desapareceram.

Tudo é silêncio. Tudo é indolência.

Há tantos dias fechadas as janelas, paira no ar um cheiro de pó e mofo.

Foi olhar o pratinho do gato – estava ali, intocado, há dias. O bichano desaparecera. Talvez morrera por aí, talvez algum faminto o transformara em pastéis. Nesses tempos horríveis impera o vale-tudo.

Pensou em tomar um café – amargo, porque já não tinha mais açúcar em casa. Tentou ferver a água, mas o gás acabou antes.

Mastigou as últimas bolachas de um pacote. Olhava para o telefone, antes tão útil e agora ali, mudo, há uma semana.

Dias e noites se sucediam em uma cadeia de tédio e desânimo. Indiferente se era verão ou inverno. Se chovia ou fazia sol. Dentro de casa é sempre a mesma hora, a mesma estação, a mesma condição meteorológica.

Sentou-se novamente na poltrona, de onde mal saía. Até mesmo dormir era ali. Sentia-se como parte da mobília ou da própria casa. Era matéria, tijolo, ferro, cimento, madeira, verniz… a alma se fora. Não conseguia mais suportar o passado ecoando em seus ouvidos. Ouvir apenas o silêncio. Compartilhar apenas ausências.

Cochilou. A fome veio para impedir o sono.

Levantou-se, tentando ouvir algum sinal de vida. Nada. Talvez mesmo o mundo tivesse acabado lá fora, e, por se manter nessa clausura sem fim, nada percebeu.

Foi até o quarto e abriu a gavetinha.

Ela estava ali, linda, limpa, perfeita e municiada. A arma que fora sua companheira tanto tempo, era fiel.

Deitou-se de forma relaxada e confortável. O estampido foi o único som que se ouviu naqueles dias.

Delírios de quarentena

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Todas as janelas permaneciam fechadas e as portas não se abriam. Nas ruas não havia pedintes, nem crianças nem mesmo cães vadios.

Nenhuma loja aberta. Era o longo feriado mundial nunca visto antes – 9º dia de confinamento compulsório, em razão da grande peste que assolava todos os países.

Já nem se preocupava em abrir janelas, nem acender a luz, muito menos se alimentar. Às vezes ainda se obrigava a tomar um copo de água.

Pensava no seu amor, pego em país tão distante, quase no dia do retorno. Talvez nunca mais voltasse. Talvez nunca mais se vissem. Talvez morressem em terras distantes. Talvez… talvez… talvez. Não havia mais certezas. Somente talvez…

Contou novamente quantas pregas existiam na densa cortina da sala.

Ouviu o som de um soluço abafado. A vizinha não aguentava mais a pressão de ficar sozinha com seus pensamentos e agora chorava o dia inteiro. Ou já seria noite? Também não importava. Dias e noites se tornaram exatamente iguais.

Realmente, não havia mais nenhuma certeza. Nem mesmo que ainda vivesse. Mas não fazia diferença. A vida e a morte começavam a ter a mesma face.

Sentiu saudade do mar. Há quantos anos deixara de ir para o litoral, olhar para o mar que tanto amara em sua juventude… não imaginava que a vida acabaria assim, na penumbra de uma sala deserta, em completa solidão.

Depois do terceiro ou quarto dia cessaram os carros e motos na rua. Nem uma buzina. Depois as sirenes. Não havia mais doentes a serem transportados. Nem cadáveres a serem resgatados. E não eram diferentes, os doentes não passavam de pré-cadáveres, tirados das casas para que a moléstia não se disseminasse

ainda mais. Deixados em algum lugar para que morressem, porque não havia cura.

E o mundo foi silenciando.

No começo se assustava quando ouvia o som do sangue circulando nos ouvidos, quando ouvia as batidas do próprio coração. O silêncio era tanto, tanto, que ensurdecia, incomodava, causava dor.

Mas se acostumou.

O relógio parou por falta de corda. Não se preocupou, porque as horas eram todas iguais.

Também o sino da igreja se calou. Talvez o moleque que se pendurava nas cordas tivesse morrido de peste. Ou o próprio padre, e levou no bolso da batina a grande chave do templo.

E as pessoas foram se distanciando. A ponto de perderem o sentido comunitário, de não mais conseguirem sentir compaixão.

E as portas se fecharam definitivamente.

E cada um tornou-se ilha e muralha de si mesmo, em uma solidão amarga e indesejada.

Não mais amanhecia nem anoitecia.

Imaginou então, que era o começo do fim do mundo.