Janela de ver a vida

  Je rends grâce à cette terre qui exagère tant la parte du ciel. (Roger Caillois)

 

Da vidraça da janela vejo a vida passando pela rua. Pessoas, carros, bicicletas, motos, alguns ônibus.

Onde vai toda essa gente? Por que só eu estou dentro de casa?

Do outro lado da rua vejo uma moça na outra vidraça. É uma vitrine e a moça é de resina – ou gesso – não sei do que são feitos os manequins de vitrines.

Por que as moças que não são de verdade são tão perfeitas? Por que seus cabelos estão sempre penteados, sua maquiagem nunca está borrada nem a meia desfiada?

Sentado de costas para a parede vejo um homem com seu cão, que dividem uma refeição em uma marmitinha de papel alumínio.

Por que para eles essa comida miserável é tão apetitosa? Por que nada lhes faz mal e eles não ficam doentes de comer sobras que não fora guardadas com todos os requintes que a saúde pública exige?

Passando alegres e saltitantes vejo duas adolescentes voltando da escola.

Por que para os jovens a vida é tão leve? Por que acham tudo maravilhoso e vivem tão intensamente como se não houvesse um amanhã?

Logo depois vejo um casal que passa empurrando um carrinho de bebê. Conversam despreocupadamente da mesma forma que o bebê dorme.

Anoitece, está na hora de fechar a janela e enfrentar a vida aqui deste lado. Já não vejo mais nada, mas suspeito – seriamente – que lá fora a vida continuar palpitante e iluminada, não partilhando o escuro que reina dentro de mim.

(05.11.08)

Velhos quintais

(Escrito em 24/03/10, mas mais atual do que nunca) 

A casa de meu avô…

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

(Manuel Bandeira

 

Viver é se reciclar. Ou não é viver, é ficar vivo e espantado esperando a morte. 

O que era já não é mais. O que foi já não tem mais… 

E nesse mundo do instantâneo em que vivemos, cinco minutos podem ser a diferença entre o novo e o obsoleto. 

A relação, por exemplo, entre as pessoas e seus aparelhos de telefone celular. Parece que nasceram já trazendo seu celular nas mãos. Não podem ficar sem eles por cinco minutos. 

Ando na rua e vejo muitas, muitas pessoas caminhando e falando ao celular enquanto andam; enquanto dirigem; enquanto comem em restaurantes (engolem a comida porque não prestam atenção no comer, apenas na conversa) e assim por diante. 

E pensar que há pouco mais de quinze anos não existia telefone celular, e sobrevivemos muito bem assim… 

Também os cachorros. Estes eram dados às crianças, para desenvolver a sociabilidade, inibir o egoísmo, ou eram adquiridos para mais segurança das casas e seus enormes quintais. Hoje pertencem à mãe, que gosta mais do cão que dos filhos, mora dentro da casa e dorme na cama dos donos. Coisa impensável em outros tempos. 

Os quintais – item essencial nas casas de algum tempo atrás, era o domínio da criançada. Fomos crianças dos quintais. Que tinham árvores, horta, grama, terra. E era nosso, nosso reino, nosso forte, nosso tudo. Hoje as crianças vivem em apartamentos que poderiam caber no quartinho da garagem de nossas casas. Crescem sem ralar o joelho, sem cair das árvores, sem ver a minhoca saindo da terra fresca…

O respeito aos mais velhos – éramos mesmo obrigados a respeitar tios, avós, vizinhos idosos etc. Fazia parte da educação. 

Hoje nada mais disso há. E temos que viver nesse mundo, não adianta ficar chorando num mundo que já se foi. 

Mas a nostalgia existe. E dá uma certa pena de ver essas crianças mecanizadas, que ganham brinquedos no lugar de afeto, que disputam os pais com os cães, e, pior do que tudo, não têm quintal…

 

O pescador de Sorrento

Na terça-feira última, 28.05.2019, foi o lançamento do meu livro de contos – O pescador de Sorrento.

Esse é meu terceiro livro solo, sendo certo que participei, ainda, de cinco antologias.

É sempre uma emoção ver um livro “nascer” e seguir seu curso. Haverá outros? não sei… espero que sim!  agradará os leitores? não sei, espero que sim…

O conto que deu nome ao livro se desenrola no ambiente do mar, e, para o lançamento, foi-me preparada, pela Nina Kuznetzow, uma mesa que trazia o fundo do mar. Linda.

Esse cuidado ao preparar a mesa que me destinou, essa demonstração de carinho, valem mais do qualquer palavra.

Deixo, aqui, imagens da beleza do arranjo da Nina:

 

 

Para meu pai

Quando eu era só a criança que ainda habita em mim, pequena e assustada, ele era meu herói-todo-poderoso.

Matava as baratas que me aterrorizavam, explicava os barulhos noturnos e afastava os fantasmas. Dirigia o carro para fora dos temporais e o tirava de todos os atoleiros… Montava o cavalo com a maior facilidade, e cavalgava lindamente. Tinha uma pontaria incrível, acertava os discos lançados, e nunca voltou de mãos vazias das caçadas.

Ele remava no rio. Ele me levava mar adentro e ensinava a não ter medo.

Nunca contei para ele, mas eu morria de medo da pinguela na fazenda, principalmente quando anoitecia e eu passava sozinha – às vezes carregando algum objeto – sem enxergar nada e temendo cair no rio. Mas nada dizia, porque ele admirava e elogiava a coragem. E poderia não querer mais me levar junto. Quando a água estava alta, aí ele me dava a mão para atravessar e o medo desaparecia.

Então eu cresci. E seus ensinamentos mudaram. Era sobre a seriedade no trato com as pessoas, a honestidade nos negócios, e a justiça em todas os atos.

Era sobre respeito e religião.

Era sobre ter responsabilidade sobre os próprios atos, assumir os erros.

E a vida fluiu, seguiu seu curso.

E seus lindos olhos verdes se iluminavam cada vez que eu regressava à casa, e seu sorriso me acolhia.

Nunca cobrou nada de mim. Entendia minha vida corrida e a necessidade da minha ausência. Mostrava que se orgulhava de minhas conquistas, sempre companheiro e atencioso.

Sem nunca dar um palpite na minha vida, foi sempre companheiro e conselheiro.

Agora ele se foi. Nesta semana, há quatro dias atrás, eu o vi sendo levado, cercado de filhos e netos, deixando um vazio e uma dor que nunca terão fim.

Não consigo imaginar como será a realidade do dia-a-dia sem ele, sem seu apoio, seu sorriso, suas observações.

E, frágil e me sentindo abandonada, tenho medo dos rios que ainda atravessarei. Então, voltando a ser apenas aquela criança indefesa, eu peço – “pai, por favor, pega na minha em todas as pinguelas que eu tiver de atravessar, está escurecendo na minha vida”.

Conversa com meu avô – nº 06

Então, vô, quanto tempo sem nos falarmos… tudo anda complicado aqui, o senhor sabe de alguns dos problemas.

Ah, o senhor quer saber o que está acontecendo na política, que só de piscar já perde o fio da meada e não entende mais nada…

Pois é, vô, coisa de doido que só no Brasil se vê.

Depois que a Dilma foi tirada da Presidência da República, o vice eleito com ela assumiu o mandato até a próxima eleição, é, o Temer, sim, o que tem a chave da cadeia – vai preso e sai, vai preso de novo e sai de novo…

Tivemos as eleições em outubro e quem ganhou para Presidente da República foi um Capitão paraquedista do Exército, já reformada, chamado Jair Bolsonaro.

Esse mesmo, vô, que já era deputado federal, da bancada da bala. O homem foi até esfaqueado durante a campanha para sair do caminho e dar passagem ao hadad, candidato do Lula.

Claro que o Lula continua preso – se der condenação em todos os processos que ele responde, deverá ficar muito tempo preso, mas os petistas e esquerdistas em geral acham que ele deve ser presidente de novo. Fazer o que…

Então, o Capitão Bolsonaro foi eleito. O cara é sério, vô, não aceita corrupção nem corruptos. E por isso o congresso nacional está em polvorosa.

Ele não negociou nenhum cargo, em nenhum escalão do governo. E nem solta dinheiro para negociatas e troca-troca com deputados.

O nhonho, quer dizer, o Maia, presidente da câmara – não, vô, não é o Cesar Maia, mas o filho dele, o Rodrigo – de pirraça está impedindo o homem de governar.

Sim, além de não votarem nada, ainda estão atrapalhando até a reforma ministerial do novo governo. Eu sei que nunca o congresso se meteu em assuntos administrativos, mas acho que era porque os deputados enfiavam os afilhados e apaniguados nos ministérios e nas estatais, então ficava tudo bem.

Agora acabou o toma-lá-dá-cá.

Ah, agora o senhor entendeu o que está acontecendo, não é?

Pela primeira vez desde que o Tancredo Neves não foi presidente estamos diante de um governo que não quer lambança. Um homem que está de olho nas próximas gerações de brasileiros e não nas próximas eleições brasileiras.

Então chegamos num impasse – o Presidente da República não pode praticar nenhum ato, os esquerdistas acham que enchendo a internet de mentiras vão derrubá-lo e convocar novas eleições para colocar o lula ou qualquer pau-mandado no lugar.

Por isso essa manifestação no próximo domingo, vô. Até os militares já reformados (cerca de 85.000) estão convocando o povo para ir às ruas e mostrar apoio ao Presidente eleito e ainda exigir uma pauta do congresso.

Ah, e tem ainda o caso dos sinistros do supremo. Que comem lagosta com vinhos estrelados (eu pensava que era proibido bebidas alcóolicas em repartições públicas) e também atrapalham o governo em tudo e os senadores se recusam a dar andamento aos pedidos de impeachment dos ministros. Vai ser parte da reivindicação.

Fica sossegado que seus netos e bisnetos estarão lá, todos de verde-e-amarelo, com a Bandeira do Brasil nas mãos, defendendo o futuro da Nação.

Claro que voltarei aqui para contar para o senhor o que aconteceu nas manifestações. E não tem perigo, quem é a favor desse governo é gente do bem, não faz quebra-quebra, não joga bomba nem apanha da polícia, que está do nosso lado.

Fica aí no céu torcendo por nós e pelo Brasil, vô. Até a próxima,

(nota da blogueira: desde 2014 essas conversas com meu avô vêm sendo publicadas no Alinhavando letras, sobre os problemas políticos do país).

Arte

Desde sempre convivi com arte.

Arte no sentido clássico. Arte como atividade humana que desperta uma emoção.

Estética, beleza, harmonia…

Assim foi durante a infância e adolescência, quando estudava música e fazia conservatório musical, com aulas de história da música e história da arte.

Também pelo interesse e estudo sobre a matéria. Sou fascinada pela música e pela escultura, as quais considero a expressão máxima da capacidade humana de tocar a alma de outro ser humano.

Admiro as outras artes, como a pintura – não sei desenhar nem o elefante dentro da cobra do Pequeno Príncipe. Admiro quem desenha, quem escreve, quem pinta, quem encena, quem canta, quem dança…

Ao mesmo tempo, infelizmente, presenciamos uma nova era artística. De onde o belo foi banido.

Nada de bonito, nem de harmônico, nem de sentimento estético.

A arte foi desconstruída para dar espaço a pessoas completamente sem talento.

Imagino, aqui, os museus do futuro …

Vida

Vida, vida… ah, vida, o que ou quem é você?

Recebemos sem pedir, e será tirada sem nossa licença.

Não nos pertence. Mas não vivemos sem.

Não é nossa, mas não podemos trocar com a de outra pessoa.

O que é essa abstração que chamamos de vida?

Sempre ouço: “Você tem sua vida”… será que tenho minha vida?

Será que tenho uma vida?

Ou apenas vivo?

Há alguém vivo que não tenha vida?

Por que algumas pessoas deixam a própria vida descerem ralo abaixo?

E ainda ficam tentando se intrometer na vida dos outros?

Também ouço: “Ah, você, sim, sabe viver, aproveitar a vida…”.

Alguém vive sem saber viver?

Quando nos dão a vida ela vem com um manual para saibamos viver?

E “aproveitar”? o que seria aproveitar a vida?

Tirar proveito daquilo que ocupamos temporariamente sem nos pertencer?

O que faz parecer que um vive melhor, “aproveita” melhor, “sabe viver melhor”?

Todos nascem igualmente – nus, assustados, vulneráveis…

Vão morrendo ao longo da vida – alguns de uma vez e outros lentamente.

A cada segundo que pensam vivido, na verdade apenas se aproximaram mais um segundo da morte.

Também a expressão “minha vida!”… ninguém é dono da vida. Apenas vive.

Viver, para mim, é apenas e simplesmente, ficar segurando a vida enquanto se espera a morte.