Poesia, encanto e paixão

19 de outubro. Que dia especial! Data de nascimento daquele que despertou minha ternura. Ensinou-me – na prática – o que é paixão platônica. Como você pode se apaixonar a quilômetros de distância e permanecer em estado de encantamento. Como você pode nunca consumar um amor e mesmo assim continuar amando…

“Não é maior o coração que a alma
 Nem melhor a presença que a saudade
 Só te amar é divino, e sentir calma…” [1]

Seu olhar peculiar da vida, das mulheres, das relações amorosas (muito mais entendido em separações do que em casamento, por não conseguir viver sozinho nem seguir casado…) mostravam um outro universo.[2]

Ele era feito de paixão e poesia,: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes” (Carlos Drummond de Andrade)

Com ele aprendi que paixão é encanto.

Ensinou-me que mesmo não sendo eterno, o amor pode ser infinito. [3]

Muito cedo conheci a poesia e ela me fascinava. Li Vinicius de Moraes. Então conheci a Poesia. E apaixonei-me eterna e profundamente por sua poesia – não caberia nessa página do blog toda a poesia de Vinicius. Nem mesmo aquelas que mais gosto: Trecho, Soneto da Véspera, Ausência, Sursum, A volta da mulher morena, Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão (escrito quando da morte de seu pai, Clodoaldo), Sonata (isso mesmo: Sonata) do amor perdido, o insuperável Soneto da separação, Soneto da hora final. Soneto do amor como um rio, Poética (I e II)…

É tanta poesia, tanto lirismo, que acabei me apaixonando pela poesia e pelo poeta.

Um poeta que escreveu poesias à Poesia… [4]

“Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
  Por um momento, que não me chame
  Porque não posso ir
  Não posso ir
  Não posso.Mas não a traí. Em meu coração
  Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
  Envergonhá-la. A minha ausência.
  É também um sortilégio
  Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
  Num mundo em paz. Minha paixão de homem
  Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
  Loucura resta comigo. Talvez eu deva
  Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
  O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
  Livre e nua nas praias e nos céus
  E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
  O meu martírio…

  …

  Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
  Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
  Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
  É mais forte do que eu, não posso ir
  Não é possível
  Me é totalmente impossível
  Não pode ser não
  É impossível
  Não posso.”

O lirismo dava ritmo aos versos, na forma das ondas do mar 

“Oh, minha amada
 Que os olhos teus

 São cais noturnos
 Cheios de adeus
 São docas mansas
 Trilhando luzes
 Que brilham longe
 Longe nos breus…” [5]

 

Ou, do balançar de uma cadeira, a maior dor de um pai

“Homem sentado na cadeira de balanço
 Sentado na cadeira de balanço
 Na cadeira de balanço
 De balanço
 Balanço do filho morto.”[6]

Como nenhum outro, ele foi Poeta. Sua alma era a Poesia, ele a enfrentava, ele sofria por ela, ele sucumbia à paixão, em forma de poesia

“Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro, meu filho…”[7]

Sua poesia transcendia a audição – ou visão – para falar direto ao coração de quem a conheceu

 “…  Eu sei que vou chorar
 A cada ausência tua eu vou chorar
 Mas cada volta tua há de apagar
 O que essa ausência tua me causou

 Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
 A espera de viver ao lado teu
 Por toda a minha vida” [8]

Um lirismo simplesmente deslumbrante

“…  Você tem que vir comigo em meu caminho 
 E talvez o meu caminho seja triste pra você 
 Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos 
 Os seus braços o meu ninho 
 No silêncio de depois 
 E você tem que ser a estrela derradeira 
 Minha amiga e companheira 
 No infinito de nós dois” [9]

Sem dúvida, na minha preferência, está o Soneto da Quarta-feira de Cinzas, que elegi como a poesia da minha alma:

“Por seres quem me foste, grave e pura 
 Em tão doce surpresa conquistada 
 Por seres uma branca criatura 
 De uma brancura de manhã raiada 

 Por seres de uma rara formosura 
 Malgrado a vida dura e atormentada 
 Por seres mais que a simples aventura 
 E menos que a constante namorada 

 Porque te vi nascer de mim sozinha 
 Como a noturna flor desabrochada 
 A uma fala de amor, talvez perjura 

 Por não te possuir, tendo-te minha 
 Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
 Hei de lembrar-te sempre com ternura”

E depois de ler toda sua poesia, busquei sua prosa, sua dramaturgia, vi todos seus shows e ouvi todas suas músicas.

Tornou-se meu ídolo maior. Então percebi que até por ele era apaixonada também. Suas ideias, sua cultura notável, suas palavras, sua vida tão sem rotina. E, ainda por cima, dividíamos uma paixão: o whisky. O dele, com gelo, o meu, puro.

Fã incondicional, segui seus passos enquanto foi possível, até aquele triste dia 9 de julho em que ele nos deixou.

Agora ele já não ama, não sonha…

“Ó, quem me dera não sonhar mais nunca 
 Nada ter de tristezas nem saudades 
 Ser apenas Moraes sem ser Vinicius! 
 Ah, pudesse eu jamais, me levantando 
 Espiar a janela sem paisagem 
 O céu sem tempo e o tempo sem memória! 
 Que hei de fazer de mim que sofro tudo 
 ………………… 
 É muito triste se sofrer tão moço 
 Sabendo que não há nenhum remédio 
 E se tendo que ver a cada instante 
 Que é assim mesmo, que mais tarde passa 
 Que sorrir é questão de paciência 
 E que a aventura é que governa a vida 
 Ó ideal misérrimo, te quero: 
 Sentir-me apenas homem e não poeta!” [10]

Há tanto, tanto, a falar sobre ele e o vazio que ficou nesse mundo sem Vinicius…

Mas, desde sempre, todo dia 19 de outubro eu paro minhas atividades, leio seus poemas e faço uma prece para que ele esteja em paz e feliz. A bênção, Poetinha! Saravá!

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[1] Soneto da contrição

[2] A mulher que passa

[3] De tudo, ao meu amor serei atento antes
 E com tal zelo, e sempre, e tanto
 Que mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento

 Quero vivê-lo em cada vão momento
 E em seu louvor hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso e derramar meu pranto
 Ao seu pesar ou seu contentamento

 E assim quando mais tarde me procure
 Quem sabe a morte, angústia de quem vive
 Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
 Que não seja imortal, posto que é chama
 Mas que seja infinito enquanto dure

[4] Mensagem à Poesia

[5] Poema dos olhos da amada

[6] Balanço do filho morto

[7] Pedro, meu filho

[8] Eu sei que vou te amar

[9] Minha namorada

[10] Elegia quase uma ode

Canivetes

 

Meu avô era o “homem do canivete” – nunca, nem uma única vez, eu o vi sem estar portando pelo menos um canivete.

Ele dizia que não se pode andar sem canivete. Tinha alguns, bem afiados, e os usava. Para picar fumo e fazer seus cigarrinhos de palha (ah, que saudade, meu avô, quando o senhor me ensinou a fazê-los e me delegava essa função – preparadora de cigarros de palha…), para destravar a porta do carro quando a fechava com a chave dentro. Para abrir a porta da casa quando perdia a chave. Para descascar frutas. Para abrir correspondência. Para usar como chave de fenda. Para cortar pequenos objetos e, às vezes, até mesmo para cortar a comida no prato. Com um canivete meu irmão, orientado por ele, tirou o gesso com que veio para casa, quando teve alta depois de um sério acidente na BR 116, indo para a fazenda. Chamou o neto mais velho, mandou fechar a porta do quarto, entregou-lhe o canivete e o guiou para a retirada do gesso que envolvia seu tronco e um ombro.

Realmente, não há dúvidas quanto à utilidade de se ter à mão um canivete!

Fico fascinada nas vitrinas onde há canivetes. Quando os vejo a saudade de meu avô aperta o peito.

Eu era muito pequena quando ele meu deu meu primeiro canivete. E mandou usar. Sempre. E o mantinha afiado para mim. Descascar laranja com um bom canivete vem amolado é minha especialidade. Até hoje ando com canivete na bolsa.

E já me foi muito útil em muitas ocasiões.

Só não faço cigarros de palha porque não fumo e meu avô partiu para sempre há muitos anos.

Ainda tenho alguns, dentre eles um é muito especial – pertencia ao tio Ary, uma das pessoas que mais amei nessa vida, em forma de caneta, com seu nome gravado, sempre no bolso da camisa – e eu também nunca saio sem um canivete…

Tristeza

Por que sou triste? Não sei…

Como também não sei se deveria ser alegre

Às vezes cansamos da felicidade breve

Porque ela sempre se vai e a tristeza vem

A felicidade sempre traz tristeza

Enquanto a tristeza nunca se torna alegria

Melhor ser triste de uma vez

E não ficar temendo a tristeza

Porque ela, sim, é inevitável.

Há duas certezas nessa vida:

Ser triste e morrer.

Da esperança

 

 Esperança, fio invisível que nos sustenta e nos mantém vivos.

Como aquela sensação de prazer quando comemos tamarindo. Depois da acidez do primeiro bocado, vai ficando saboroso e deixa uma lembrança boa no paladar.

Assim é a esperança: depois da perda, o desespero ácido vai se desfazendo e se tornando a esperança – o gosto bom de se acreditar que tudo voltará um dia a ser como antes. Porque o desespero é desesperar e esperança é exatamente esperar.

A fogueira se apaga, mas brasas vivas ficam lá no fundo, cobertas de cinzas. A função da esperança é manter vivas essas brasas, e, na primeira ocasião, deixá-las tomar conta do coração e reaquecer a vida.

Viver só de esperança, porém, amarga a boca. Mas viver em estado de desesperança é morrer em vida.

Por isso a razão equilibra a emoção – alimentamos algumas esperanças e deixamos as outras, que mais machucam se não se concretizarem, desidratar e morrer.

Esperança são as flores das emoções, precisa ser cultivada, cuidada, para se manter viva. E precisamos dela para nos mantermos vivos.

A cada despertar, é a esperança que nos faz levantar e enfrentar mais um dia – se nada esperarmos, por que continuar vivendo e lutando?

Passos vencidos

Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar.

Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar. (Antonio Machado)

                             

Nunca li um livro da chamada literatura de autoajuda. Não posso tentar resolver meus problemas pela cabeça de um desconhecido, mesmo que ele tenha conseguido resolver um dos seus próprios e depois resolveu contar para todo mundo por meio de um livro.

Acho que cada um tem de sair das dificuldades pelas próprias pernas, dando os passos possíveis e fazendo seu próprio caminho…

As armadilhas em que caí ao longo da vida ensinaram-me que o grande segredo para ser feliz é se bastar. Não deixar minha felicidade nas mãos de terceiros. Não permitir ser necessária outra pessoa para me fazer feliz.

Dessa forma, ninguém pode me fazer infeliz. Porque eu me basto no quesito felicidade.

Os anzóis das iscas que me iludiram deixaram profundas marcas em minha carne.

Peixe carente, atirei-me com sofreguidão às iscas, sem perceber as ocultas intenções dos anzóis que as exibiam…

E foi assim que aprendi que as iscas mais atraentes trazem os anzóis mais cruéis.

Para se pensar

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. (Fernando Pessoa)

Ontem ouvi o relato do suicídio de uma garota – estava com depressão e a família não conseguiu ajuda-la. Os pais, obviamente, estão devastados. 

Além do choque para as pessoas que convivem com o suicida e ficam estarrecidos com aquela morte, fica o invencível e inevitável sentimento de ter falhado.

Falhado porque não percebeu o desespero daquela alma, falhado por não ter tirado a cortina negra que escurecia os pensamentos do suicida, falhado por não ter evitado o gesto.

Mas ninguém poderia evitar o suicídio em si.

Depois que a decisão de morrer é tomada, dificilmente alguém poderá evitar esse ato.

Convivi com alguns suicidas, chorei suas mortes e sei que ninguém tem culpa do ocorrido. Mas é difícil, muito difícil, conviver com a sensação que poderíamos ter feito alguma coisa e nada fizemos. Inevitável sentirmo-nos assim.

E o que é o suicídio? Um gesto de coragem ou covardia? Um gesto de desespero ou esperança em algo melhor?

Alguns casos podem-se entender, pessoas que estão acometidas de moléstias terríveis, sem qualquer chance ou esperança de cura, sofrendo no corpo as dificuldades da doença e na alma a falta de motivo para continuar vivo… até se entende, embora a religião nos ensine que a morte pertence ao Pai e somente ele poderá tirar-nos a vida.

Mas outros casos, a jovem que perdeu o ano na faculdade, a mulher madura e centrada que se aposentou e não mais se sentiu viva, o amigo que se viu envolvido em um processo judicial quase kafkaniano…

E assim eles foram ficando pelo caminho, enquanto outros enfrentaram as mesmas situações – doenças, velhice, processos, divórcios, perdas de filhos e continuaram vivos dando testemunho de uma fé inabalável na vida e no sentimento que não há caminho predeterminado, que fazemos nosso caminho ao caminhar.

Quando penso nesses assuntos lembro-me de  palavras do Padre José Mário Ribeiro: “Deus deu a vida – e não a morte – ao homem. Então devemos cuidar da nossa vida com muito carinho e desvelo, porque teremos que prestar contas deste dom ao Criador. Mas Deus guardou para si a morte, não a deu ao homem. Por isso devemos viver sem pensar na morte, sabendo que é inevitável e virá para todos, mas não é problema nosso. Na hora certa Deus cuidará de tudo. Não devemos ignorar que a morte existe, mas não devemos buscá-la nem desejá-la.”

E assim Padre Zé Mário me deu uma lição para toda a vida, mas que torna difícil entender a razão dos suicidas.

Há uma estatística que a cada 40 segundos uma pessoa se suicida – isso é um número altíssimo. Já temos notícias de crianças suicidas.

O que está acontecendo com a humanidade? Estamos perdendo o instinto de sobrevivência?

Em nome da Pátria

Aqueles que tombam pela Pátria não morrem, mas se fundem a ela eternamente. (General Osório)

                                     

Olho a imagem – tristíssima – dos soldados trazendo o corpo do companheiro morto em batalha. Vejo em outra foto de hoje a imagem do presidente norte-americano diante do cortejo do retorno de outros soldados mortos nessa guerra insana. E penso porque o presidente dos EUA acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz mesmo estando em guerra com dois países.

Não entendo se o prêmio foi desmoralizado ou se é a própria guerra que está desmoralizada.

Matar está tão banal, declarar guerra é tão comum, que não impede o Nobel da Paz ao presidente de uma nação em guerra…

Recordo o filme O Retorno de um Herói.

O drama do oficial que resolve aplacar a culpa de não ter ido para a frente da batalha no ato de acompanhar o corpo de um soldado que morreu na longíqua guerra, do momento em que for entregue ao exército até ser finalmente entregue à própria família para o enterro.

Filme de rara poesia, impossível não se envolver e sofrer também.

O respeito com que o corpo é tratado pelos encarregados de prepará-lo. A forma como é carregado para os veículos, as cerimônias de passagem – tudo tocante, emocionante.

E finalmente a dor da família ao receber morto o filho que emprestaram – vivo – à pátria. Para que? Para ir lutar numa guerra que não era dele, talvez nem soubesse direito para onde e para que estava indo. E não voltou. Ou melhor, voltou, mas seus olhos nada viram.

Não viu o carinho com que seu corpo foi manipulado, a emoção que tomou conta de todos os compatriotas que em algum momento estiveram junto na sua última viagem, o drama do oficial que o acompanhou nem os olhos vazios de sua mãe ao receber o caixão.

Vem como um presente – um filho – o corpo de um filho – em uma grande caixa, com bandeira nacional, toque de silêncio, cortejo militar. Mas é um presente às avessas, porque, na verdade, nada está  sendo dado – nem mesmo estão devolvendo o filho emprestado, mas sim enterrando o sonho de uma vida.

Até quando, me pergunto, até quando os homens continuarão a declarar guerra para mandar os filhos alheios morrerem. O homem não evoluiu tanto quanto pensa. Apenas mudou as armas: não joga mais pedras, não usa mais clavas, mas poderosas e mortíferas armas desenvolvidas por cientistas. E hoje a guerra é mostrada via TV ao mundo ao vivo e em cores.

Mas, no íntimo, no funcionamento do cérebro, realmente o homem ainda está na idade da pedra.

(31.10.2009)