Asas para voar

O desejo de liberdade é mais forte que a paixão. Pássaro, eu não amaria quem me cortasse as asas. Barco, eu não amaria quem me amarrasse no cais.                     (Rubem Alves)

                             

Empresta-me tua asa, hoje quero voar sozinha…

Porque para voarmos juntos precisei me desfazer de uma de minhas asas.

Mas agora irei só…

Quero ir a lugares que você não iria

Voar sobre outros mares, conhecer outros lagos

Ver florestas e campos de terras tombadas

Outros povos, outras realidades

Quero voltar a sentir as nuvens a meu redor

Ver do alto a beleza das curvas dos rios

Viver a liberdade do voo solo

Cansei de não mais voar alto

De nunca mais voar longe, sem destino

Preciso me sentir livre

Minhas raízes estão em suas mãos

Prometo voltar logo

Mas, para que eu possa ir, eu peço:

Empresta-me tua asa…

Velho barco

Não gostava de se ver no espelho depois de tirar toda a maquiagem.

Sabia não ser bonita, mas conseguia efeitos mágicos quando maquiada. Odiou-se por tudo. Ele a deixara. Culpava-se por não ser bonita, não conseguir prendê-lo, não ser interessante… Mas o amava e achava que ele jamais a deixaria.

Ele brincava com ela. Porque tinha certeza que ela estava sempre disponível, e ele zombava dessa paixão intensa, ia e voltava, não a respeitava.

Já sentia saudade dele, de suas mãos, do conforto de seu peito, de seus braços… mas ele dissera que dessa vez era para sempre. Ele não voltaria mais, estava firme em outra relação e amava outra mulher.

Conseguiu manter sua dignidade e não chorou na frente dele nem implorou para que ficasse. Talvez na aflição do momento não tenha entendido direito o que ele dizia. Agora, sozinha, mastigava mentalmente cada palavra. De certa forma sentia alívio. Nunca sabia se estavam ou não juntos, porque ele era inconstante. Mas cada vez que ele voltava ela se sentia a mais feliz das criaturas. Mesmo sabendo que logo ele sumiria de novo. Por esse prisma, era realmente melhor saber onde pisava, mesmo que isso custasse a separação.

Começou a chorar.

Entendeu, então, que era apenas um velho barco abandonado num cais…

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Mais uma noite

A noite chega com seus mistérios. Para alguns a noite “desce”. Não sei se ela estava no alto, esperando o horário para descer… Outros dizem “cai” a noite… será que ela ainda existiria se caísse todos os finais de tarde desde que o mundo existe?

De onde vem a noite?

Aos poucos ela vai mudando as cores do dia, esmaecendo as luzes, afastando o sol, até tomar conta de tudo.

A transição entre o dia e a noite – a linda e poética “hora crepuscular” – fascina.

A noite, para nós, é curta, porque a usamos para dormir. Não a vemos. Não a vivemos.

Mas eu já a vivi intensamente.

Às vezes sinto saudade de tempos passados, quando era possível sair em São Paulo por volta de 21h00, de carro, e ir em vários bares, até amanhecer o dia seguinte. Vida leve. Vida boa. Que não voltará jamais.

Agora, o silêncio da noite, quebrado unicamente pelo incessante cantar do mar, me ajuda a adormecer.

Sobre o escuro mar noturno, dezenas de luzes dos navios fundeados. O único sinal de vida que posso visualizar.

Fico a ouvir o mar e esperar que algumas estrelas venham enfeitar o céu.

A alternância impassível entre dia-e-noite escancara meu envelhecimento. Quantas noites já tive em minha vida?

Seguramente mais de vinte mil.

Se o anoitecer aqui na praia é lindo, não menos maravilhoso era o anoitecer no sítio, numa montanha da Mantiqueira. Em noites de lua cheia eu ficava na varanda, vendo o pasto se pratear ao luar e aproveitava cada minuto daquele alumbramento.

E todos os dias da minha vida terminaram em um anoitecer. Assim como minha vida, onde também já anoitece.

Mágoas

Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água… (Chico Buarque)

 

 

Mágoas e mais mágoas… quantas mágoas trazemos na alma, de tantas desatenções, de tantas decepções…

Com quantas mágoas se faz uma tristeza?

Difícil fazer de conta que não magoa, fazer de conta que não sente nada… o pote vai enchendo e a qualquer momento transbordará. Por mais delicado que alguém seja, nada impede que outro o magoe profundamente, por egoísmo, por vaidade, para se mostrar superior, em razão de complexo de inferioridade.

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns são tão magoados que se protegem por uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhuma existe para a dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas. Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo. Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Mas meu coração, tal como o pote da canção, está à beira de transbordar…

Meu coração silenciou

Meu coração silenciou.

Como num vácuo do tempo e dos sentimentos.

Foi-se a ansiedade, foi-se a angústia.

Tomou-se de uma profunda calma e então serenou.

Bate agora tranquilo dentro de um compasso confortável.

Não sangra nem grita. Não dispara nem ameaça parar.

Cumpre sua nobre função. Apenas isso.

Já não há mais emoção.

Nada o atinge nem perturba.

Sinto falta de sua desordem, seus sobressaltos.

Falta daquela adrenalina continuamente ativa.

Porém já não encontro nada disso.

Meu coração silenciou.

Simplesmente a paixão se acabou.

Conversa com meu avô – nº 09

Eita, vô, se nem para nós, aqui embaixo, está fácil de entender, imagino aí de cima, sem seguir passo a passo os acontecimentos políticos… mas, vamos lá, vou tentar explicar:

Eu não sei porque a manifestação dessa vez foi no sábado e não no domingo, mas era, sim, o mesmo pessoal – os brasileiros honestos e trabalhadores, abrigados sob a bandeira verde-e-amarela. A diferença é que agora a luta é mais difícil, mais complicada: é preciso dar um jeito nos ministros do supremo.

Claro que tem mais lixo na política, mas acontece que seis desses sinistros se uniram para acabar com o país, com o governo, com a democracia. Estão a favor da quadrilha que roubou o país. Estão fazendo o diabo para a esquerda voltar ao poder.

Para conseguirem o intento, começaram a legislar, e inventar umas regras excêntricas, o que levou à libertação do nove dedos. Que nunca foi preso de verdade. Estava numas dependências cinco estrelas da superintendência da polícia federal em Curitiba, com geladeira, telefone, esteira ergométrica, namorada… tudo pago por nós.

O maior problema agora é que ele continua inelegível, por força de condenação em âmbito criminal. Por esse motivo aqueles seis respeitáveis senhores, estão tramando um golpe final na justiça do país e na operação lavajato – a maior operação do mundo contra a corrupção – e pretendem simplesmente anular os processos do larápio-mor.

Por isso as manifestações. Ou acabamos com o supremo ou o supremo acaba com o Brasil.

Como? O atual Presidente da República? Ah, vô, com esse estamos tranquilos. Está, aos trancos e barrancos, tirando o país do atoleiro em que a esquerdalha nos deixou. Contra ele temos o congresso – câmara e senado, em sua maioria composto por traíras e bandidos, e o supremo. Pois é, ainda assim o cara está conseguindo ótimos resultados, que dão esperança de melhorarmos um pouco.

Nos países vizinhos o que aconteceu foi que na Venezuela continua aquele horror de violência e fome, na ditadura esquerdista à la castro, conforme já conversamos. Exatamente, vô, parece que não tem saída. Pobre povo venezuelano, está num sofrimento danado.

No outro país vizinho, o índio cocaleiro fraudou de novo as eleições bolivianas e foi de novo eleito. Mas dessa vez o povo não aceitou o resultado da eleição e foi para a rua protestar. No começo houve violência, mas a polícia lá se lembrou do ídolo Simon Bolivar – “Maldito sea el soldado que apunta su arma contra su pueblo”, e simplesmente o índio perdeu o apoio e renunciou.

Enquanto isso, no Chile, onde o governo é de direita, a canalhada está provocando caos, violência, desabastecimento, todas as dificuldades, para tentar derrubar o presidente. Estão incendiando universidades e igrejas católicas. Uma profanação atrás da outra.

Na Argentina, los hermanos se lembraram de suas origens e elegeram novamente a Kirchner. Vão afundar em mais miséria ainda.

É isso, vô, o quadro atual da América do Sul, “pegando fogo” na luta entre os parasitas de esquerdas e os trabalhadores de direita.

Há, sim, muita esperança para o país. Se o supremo e o congresso pararem de atrapalhar, ainda voltaremos a ser uma potência.

Mas, se Deus quiser – e vai querer – sairemos vencedores. Vamos voltar à ordem, ao crescimento, dar um fim a esse desemprego cruel que está destruindo famílias.

Deu para entender, vô?

Por que “um pouco”?

Ah, é isso mesmo – há uma parcela de vagabundos no Brasil lutando contra o país, e eles têm mais voz, fazem mais barulho. Mas é minoria. Serão aniquilados, pode esperar.

Então, vô, qualquer coisa me chama que tento explicar. Até…