Rotina

 

Noite de domingo. Mais uma semana vivida. Menos uma semana para se viver…

E depois de um domingo preguiçoso, sempre vem uma segunda-feira acelerada. Já fico cansada só de pensar.

Quando estamos nos acostumando com o ritmo da semana, chega o esperado sábado. E desaceleramos. Mais um domingo de pura ociosidade. Nunca fui acostumada à vida madraça, mas agora, já na soleira do fim, estou apreciando viver sem muita obrigação. Mesmo assim, ainda acho que estou com muitos compromissos.

Sonho com o dia em que acordarei nos dias de semana sem absolutamente nada para fazer. Nem tirar o carro da garagem. Talvez mesmo nem destrancar as portas. Vaguear pela casa, em silêncio, sem tv ligada, sem ninguém falando nada.

Preparar meu café da manhã em qualquer horário – não fará a menor diferença se me levantar 5h45 ou 10h15.

Deitar para fazer nada até o corpo gritar que precisa se movimentar. Daí preparar alguma refeição – do meu jeito, sem carnes nem gorduras, saborear lentamente e continuar vadiando até a noite chegar. Passar a tarde lendo deitada em uma rede.

 Como não sou de ferro, ao anoitecer tomar um bom whisky, na varanda, pensando na vida boa que estou levando.

E assim continuar até ir dormir de novo.

Essa seria minha nova rotina. Mas acredito que vai ficar no sonho, porque minha realidade é bem diferente. Mas, como enfrentar a realidade sem sonhar?

O tempo não passa

Nessa hora morta entre o final da tarde e o anoitecer, o dia já se foi, mas a noite ainda não chegou. Hora de saudade doer, de ansiedade surgir, de fazer um balanço do dia – e sempre o resultado é negativo.

Dizem: “anoiteceu, acabou o dia, o tempo passa rápido…”. Não, isso não é verdade.

Nós passamos e o tempo fica, ainda que os homens acreditem que o tempo é que passa. Não, o tempo fica.

Todos os dias amanhece, entardece e anoitece. Igualmente.

Não há dia nem noite envelhecidos, nem de cabelos brancos, nem alquebrados.

Podem ser chuvosos ou luminosos. Nublados ou ensolarados. Mas com vida. Sempre. O tempo não se cansa. Não se desgasta. Apenas existe.

Enquanto a humanidade envelhece, apodrece, se torna incômoda.

Os homens passam, as gerações se findam, ninguém mais se lembra de quem estava aqui há cinquenta anos atrás.

Mas todos sabem como foi o dia de hoje há cem anos atrás: amanheceu, entardeceu e anoiteceu. Com ou sem sol. Com ou sem lua. Mas estava aí, exatamente como o dia de hoje.

O tempo não é cruel. Cruel é a vida, que nos açoita continuamente. Cruéis são os sonhos, que nos iludem e nos decepcionam porque não se realizam.

Cruel é apaixonar-se e ficar sofrendo em solidão aguda.

Cruel é a fragilidade do corpo humano.

O tempo, ah, o tempo é indiferente às misérias dos homens. Apenas se limita a assistir a batalha diária dessas criaturas insignificantes diante da majestosidade da eternidade.

Uma lembrança

 

Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

 

Caminhando hoje ao longo das praias Pitangueiras e Astúrias, na altura das pedras que as separam, o mar dificultava a passagem, pela maré alta.

As fortes ondas traziam coroas de espuma tão branca que era um espetáculo quando se chocavam contra as pedras. Parei ali, para atravessar passo a passo só enquanto as ondas recuavam para nova investida.

Cenas de um passado muito distante voltaram-me à mente.

Um grupo de jovens entre 18 e 22 anos, todos amigos, alguns irmãos, outros namorados.

Todos apaixonados por praia, ficávamos horas entre a areia e os banhos de mar. Até o corpo não aguentar mais. Daí casa, banho, um cochilo, e rua de novo. Ser jovem é não sentir cansaço, ter disposição para tudo.

Reuníamo-nos na pizzaria. Era um festival de muitas pizzas, porque o apetite era enorme. E    devorávamos tudo, e ainda sempre terminávamos com as infalíveis pizzas doces – califórnia, romeu e julieta, morango com chocolate. Hoje eu não comeria nenhuma. E, no máximo,  como duas fatias de pizza básica. Mas aos 20 anos a história era outra…

Alimentados e felizes, era hora de ir para o apartamento da família da Sílvia, namorada do Fernando. Exatamente naquele ponto da cidade, onde as praias se dividem, no Edifício Sobre as Ondas.

E, luzes apagadas, sentados no chão, alguém tocando violão, todos cantando, fascinados deixávamos o tempo escoar enquanto olhávamos a força do mar, em ondas com brancas espumas, “entrando” sob o edifício para bater nas pedras.

Cada um seguiu seu caminho, Carlos se casou com Marta, Fernando com Silvia, uns casais se separaram, outros nem se formaram…

Mas a doce lembrança daquele tempo vadio, onde tudo era alegria, ficou cravado na saudade que não desaparece…

Um dia…

A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)

Um dia serei feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.

Um dia, não agora.

Sou feita de saudade e melancolia. Desesperança e ansiedade. Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.

Mas um dia serei feliz. Prometo.

Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.

Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.

Serei só ternura, maciez e aconchego.

Mas não agora. Isso no dia em que eu for feliz…

Para o Darcy

Para se somar às tristezas e às perdas de 2019, chega-me a triste notícia do falecimento de Darcy. Meu muito querido amigo Darcy Passos.

                                                     

Pessoa extraordinária, de memória privilegiada, cultura invejável, e um humor inigualável. O seu lugar no coração dos amigos jamais será preenchido.

Conhecemo-nos há mais de trinta anos. E a amizade e o entrosamento foram instantâneos. Da mesma forma que tivemos sérios embates pelas nossas posições políticas frontalmente opostas, demos muitas risadas. Muito mais diversão e alegria do que desentendimentos. E quantos whiskies bebemos juntos… daria para encher muitas garrafas… E declamamos, e cantamos, e dançamos… encontrar o Darcy era, por si só, uma festa. Se fosse em uma festa, sem dúvida ele era a alma, o centro da reunião. Tinha uma rara capacidade de agregar as pessoas, com amigos de todas as idades.

Quando começou a lambança na política, perguntei-lhe um dia (com a liberdade que os verdadeiros amigos têm) o que ele estava achando do cenário. Com uma indescritível tristeza nos olhos ele me respondeu que “não foi para isso que passei tudo o que passei na vida nem que minha família sofreu o que sofreu”, disse que não mais queria saber de política… ele, o grande Darcy, tivera sua maior desilusão.

Certa vez, fizemos uma viagem de navio em que não parava de chover. Então ficávamos todos no bar o dia inteiro… “derrubamos” o bar do Costa… acho que não sobrou uma garrafa de whisky no estoque. Dias inteiros de cantorias e risadas…

Todos os seminários que participamos, suas verdadeiras aulas quando lhe era dada a palavra. 

Hoje você partiu, Darcy. Nunca mais cantará nem declamará para mim. Guardo com carinho as lembranças de nosso último encontro. Já doente, você não podia me ver. Cantei para você uns versos do Vinicius que você cantava para mim e de imediato você falou “Alice!!!!”. Chorei naquele dia, Darcy, ao ver como a vida estava sendo cruel com você, lembrava-me que sempre eu lhe dizia que quando você não fosse mais usar seu privilegiado cérebro, se você o daria para mim… quanta tristeza, meu amigo, e você não está mais aqui para fazer uma graça, para me fazer rir, para tentar me alegrar…

Como choro agora, enquanto escrevo e ouço Vinicius cantando as mesmas músicas e já começo a sentir saudade de você. Quem conviveu com você entende a falta que sentiremos de sua presença amiga, calma, ponderada, lúcida e genial.

Obrigada, Darcy, por seus ensinamentos. Por tudo que me ensinou de política, geopolítica, instituições e constituições… de amor, paixão, sentimentos, poesias… pelo seu bom humor…

Obrigada, Darcy, por todas suas anedotas, mesmo as que eram sobre mim e me faziam rir tanto… por todos os whiskies que compartilhamos.

Vá, meu querido amigo, em paz, que você merece o descanso eterno. Até um dia, se Deus quiser…

Pipas ao vento

Senhor, acalmai os ventos. / Tornai nosso céu azul.
Abençoai nossas pipas e papagaios, para que sejam lançadas com muita paz e segurança.
Senhor, iluminai nossas almas, para que dela flua uma beleza sincera e harmoniosa.
Senhor, tu és soberano, dai-nos a sabedoria divina para transformar nossos sonhos em realidade.. 
(Oração do Pipeiro) 

Dançam, coloridas, as pipas no ar. Ventos de agosto. Hora de soltar papagaio. Ou pipa, ou pandorga, ou arraia, cafifa, quadrado, pepeta ou ainda outros nomes por esse Brasil afora. 

A praia, terreno livre, sem fios, sem trânsito, é o local mais que apropriado para essa brincadeira, que vem de tempos imemoriais, comprovadamente mais de 200 anos a. C, na China. 

É muito interessante toda a atividade que envolve essa brincadeira – fazer, ou melhor, construir a pipa é uma arte. Que um de meus irmãos, Paulo Cesar, dominava com maestria e tinha paciência de ensinar à exaustão quem quisesse aprender. 

Na falta da praia em nossa cidade, usávamos as calçadas e ruas, praças e canteiros centrais das avenidas para empiná-las. 

E eram várias ao mesmo tempo. 

Uma corridinha, e a pipa solta começava a subir. A arte de dar linha e puxar, soltar e prender, se cabeceava era preciso recolher e corrigir a rabiola. 

Para recolher era preciso muito cuidado, ou poderia cabecear e bater no chão, se espatifando e portanto estaria imprestável. Não podíamos desperdiçar o papel.  

A cada uma que subia e se estabilizava, a linha correspondente, presa numa lata vazia de ervilha, massa de tomate ou palmito, que era trazida até o chão e firmada com uma pedra grande. 

E ficávamos, extasiados, assistindo ao colorido balé aéreo que as pipas proporcionavam. 

E desta forma as tardes de agosto se iam entre a escolha dos bambus, seus cortes, a confecção das pipas e a melhor parte, que era empinar. 

Se o vento aumentava anunciando chuva, as pipas eram cuidadosamente recolhidas e guardadas para a próxima tarde. Uma relação realmente de carinho, como se as pipas tivessem vida própria. Talvez carregassem em si um pouco do sonho de voar de cada um de nós. Na impossibilidade de subirmos nós mesmos, dávamos linha a nossas pipas, e nos realizávamos ao vê-las voando mais e mais alto. 

Assim na vida venho construindo e empinando pipas figuradas. Quantos relacionamentos começaram na escolha do bambu certo, buscado direto na moita, que foi colhido, cortado, aplainado para que as pontas deixassem de machucar. Depois o corte do papel, cujas cores deviam combinar em tons e contrastes agradáveis aos olhos. 

Com muito afeto era construída a pipa do relacionamento, e chegava a hora mais terrível: ver se conseguiria empinar esse relacionamento, se dando linha ele iria alto, ou iria cabecear e se espatifar no asfalto da vida. 

Se não dermos linha nossa pipa não sobe. O ciúme é a negativa da linha – nega à pipa sua própria natureza de voar alto. E a pipa no chão se quebra mais fácil ainda. 

A perfeição da pipa está na altura de seu voo – quando mais alto conseguirmos empinar, soltando a linha generosamente, mais bonita de se ver, mais perfeita como pipa. 

Mas dando linha corremos o risco de vê-la ir-se para sempre, restando-nos apenas a lembrança de suas cores a sorrirem do alto. 

Muitas vezes – que acontece reiteradamente em minha vida – quando minha pipa voava alto, dançando linda contra o céu azul, outra pipa traiçoeira, com cerol, sorrateiramente a arrebatava de mim. 

Ou, ela própria, rebelde, por si mesma, arrebentava a linha e se ia, deixando o vazio na paisagem que compunha. 

Sobraram-me a lembrança do carinho com que a construí, sua figura a bailar no ar, e o resto da linha que ficou em minhas mãos. 

Só quem empinou pipas em criança e perdeu outras depois de adulto sabe a poesia que há nas pipas voando alto, mas não livres. Porque quando se soltam e partem no voo solo deixam de ser pipas, são varetas grudadas em papéis soltos no vento, sem dono, sem destino, sem volta… 

Vejo-as, agora, daqui de minha janela, sorrindo para mim e para a praia aqui em embaixo, e morro de inveja das pipas que voam alto e dos moleques que as prendem à Terra.

Que vontade de empinar uma pipa!

(Guarujá, 20.08.2008)