Angelita di Anzio

 

Conta-se – não se sabe se lenda ou verdade – a estória de uma menina de cinco anos encontrada chorando numa praia no Lazio, quando do desembarque dos Aliados, já no fim da Segunda Guerra.

Segundo se sabe por estórias contadas no local, ela foi encontrada pelo soldado escocês Royal Scots,  fuzileiro, e alguns dos seus camaradas, talvez mesmo por alguns soldados brasileiros.

Levaram a criança da praia, onde estava sozinha, e tentaram encontrar sua família ou descobrir alguma coisa, mas nada conseguiram, deram-lhe o nome de Angelita e a confiaram a uma enfermeira. Dias depois ambas – Angelita e a enfermeira – morreriam durante um bombardeio.

A estória se popularizou e a cidade de Anzio, onde se deram os fatos, resolveu construir um monumento à menina, que foi feita pelo escultor Sergio Cappellini, inaugurado em 22 de janeiro de 1979 (Dia Mundial da Criança), onde se vê a garota cercada por gaivotas.

A dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É lanhar-se em pedras quentes para sentir outra dor maior, bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

São lágrimas sem fim, bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.

Amigos

One day in your life when you find that you’ve always waiting
For the love we used to share, just call my name, and I’ll be there
(Don Eliot)

 

O que é um amigo? São tantas as respostas que nós nos sentimos perdidos na hora de definir amigo.

Algumas definições – clássicas nesse mundo do descartável – são hilárias, outras, sentimentais e outras ainda parecem verdadeiras.

… amigo não é o que separa a briga, mas o que chega do seu lado dando voadora no agressor…

…amigo não é aquele que impede seu pranto, mas o que enxuga sua lágrima…

…amigo não é a sombra, que só te acompanha enquanto o sol brilha…

Fui e sou pessoa de poucos amigos. Não sei bem o porquê.

Em criança preferia os livros às brincadeiras – por volta de cinco anos de idade os adultos descobriram que eu já sabia ler – ninguém me ensinara, mas eu lia, e, curiosamente, não sabia ainda escrever porque não fora alfabetizada, mas sabia ler. Ler não me magoava. Ler não me feria.

As outras crianças em geral eram más – mesmo quando entrei na escola, não tinha amigos. Resultado: hoje sei que fui uma criança solitária, e por isso mesmo gosto da solidão, me sinto bem comigo mesma.

Sempre tive a companhia dos irmãos e primos, família numerosa, à moda antiga, unida e amorosa. Para que precisaria de estranhos?

Muitas pessoas não conseguem manter amizade com os próprios irmãos, e se desmancham em amizades com estranhos. Não entendo isso.

Mas, ao longo dos anos, obrigada à convivência social, fiz alguns amigos, além das relações familiares.

E vejo que amizade não é algo que se põe na balança, que se mede em centímetros… não adianta porque a conta não bate – sempre alguém dá mais, cede mais, se doa mais…

Mas é bom ter amigos, ainda que não sejam tão amigos, mas sejam mais que simples conhecidos ou colegas de trabalho.

Se algum, por uns momentos, se dispõe a pegar a outra alça da nossa sacola da vida, já torna momentaneamente mais leve nosso caminhar.

Os encontros, as conversas descompromissadas, a convivência alegre e despreocupada da relação volátil, isso é tempero de viver.

Alguns amigos são tão passageiros que sequer marcam nossa existência, nem sei se podemos denominá-los amigos, ainda que frequentem nossa casa e se façam muito presentes por um breve tempo. Mas nada trazem, não somam, não acrescentam.

Outros, porém, se tornam parte de nossa existência, e ainda que fiquemos muito tempo sem encontrá-los, quando temos a sorte e a felicidade de um reencontro, a conversa flui leve, a distância não existe e o tempo de separação não interferiu no carinho mútuo. Esses eu acredito que são os verdadeiros amigos. Mesmo distantes estão, de alguma forma, a nosso lado.

Concluo, então: amigo é o que ficou quando todos já se foram, sejam os amigos/irmãos de sangue ou de vida.

No escuro

Hoje está difícil. Depois de uma mais-que-típica segunda-feira, com direito a DOIS períodos de espera em consultórios médicos, para agravar a situação, agora estamos no escuro. Breu total.

Daí a dificuldade, reverter a conexão do computador para bluetooth e usar o celular como roteador pelo acesso pessoal. Mas não ficarei sem postar por causa de uma dificuldade qualquer.

Para quem não sabe,em parte do meu tempo, eu moro em uma cidade chamada Ribeirão Preto. A porta do inferno de calor.

Aqui só há duas estações no ano, bem definidas: verão e inferno. Atualmente estamos no verão. Daqui uns quarenta dias começará o inferno.

Bem, agora no começo da noite, começou a chover. E, como sempre quando chove nestas cidadezinhas de interior, acabou a energia elétrica. Nunca morei em nenhum lugar (e olhe que já me mudei 23 vezes de cidade) – em que tivesse tanto problema de energia. Progresso à moda ribeirão-pretana, tipo rabo de cavalo – cresce para baixo. E não é tempestade nem chuva de verdade. Garoão desgraçado e raios.

Uma chuvinha que está aumentando a sensação de estufa e afastou qualquer possibilidade de vento. Estou derretendo. Detesto calor. Se não estivesse caindo tanto raio, colocaria uma chaise na prainha da piscina e iria dormir dentro da água.

Mas, por coincidência, formatei e editei um conto hoje – O causo da grande noite.

É uma batalha entre a noite e a escuridão. Gosto da noite. Da quietude e da solidão confortáveis que só a noite me traz.

Gosto do escuro. Há uma vela no chão, lá no canto do quarto, porque meu marido não é adepto da escuridão. Mas eu sou. Tenho olhos de gato e enxergo no escuro. Não preciso de luzes.

Agora só espero que com tanta tecnologia, um discípulo de São Carrier invente um ar-condicionado com bateria solar. Porque ou eu digito ou uso a mão para me abanar com um leque…

Poesia, encanto e paixão

19 de outubro. Que dia especial! Data de nascimento daquele que despertou minha ternura. Ensinou-me – na prática – o que é paixão platônica. Como você pode se apaixonar a quilômetros de distância e permanecer em estado de encantamento. Como você pode nunca consumar um amor e mesmo assim continuar amando…

“Não é maior o coração que a alma
 Nem melhor a presença que a saudade
 Só te amar é divino, e sentir calma…” [1]

Seu olhar peculiar da vida, das mulheres, das relações amorosas (muito mais entendido em separações do que em casamento, por não conseguir viver sozinho nem seguir casado…) mostravam um outro universo.[2]

Ele era feito de paixão e poesia,: “Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes” (Carlos Drummond de Andrade)

Com ele aprendi que paixão é encanto.

Ensinou-me que mesmo não sendo eterno, o amor pode ser infinito. [3]

Muito cedo conheci a poesia e ela me fascinava. Li Vinicius de Moraes. Então conheci a Poesia. E apaixonei-me eterna e profundamente por sua poesia – não caberia nessa página do blog toda a poesia de Vinicius. Nem mesmo aquelas que mais gosto: Trecho, Soneto da Véspera, Ausência, Sursum, A volta da mulher morena, Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão (escrito quando da morte de seu pai, Clodoaldo), Sonata (isso mesmo: Sonata) do amor perdido, o insuperável Soneto da separação, Soneto da hora final. Soneto do amor como um rio, Poética (I e II)…

É tanta poesia, tanto lirismo, que acabei me apaixonando pela poesia e pelo poeta.

Um poeta que escreveu poesias à Poesia… [4]

“Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
  Por um momento, que não me chame
  Porque não posso ir
  Não posso ir
  Não posso.Mas não a traí. Em meu coração
  Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
  Envergonhá-la. A minha ausência.
  É também um sortilégio
  Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
  Num mundo em paz. Minha paixão de homem
  Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
  Loucura resta comigo. Talvez eu deva
  Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
  O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
  Livre e nua nas praias e nos céus
  E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
  O meu martírio…

  …

  Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
  Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
  Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
  É mais forte do que eu, não posso ir
  Não é possível
  Me é totalmente impossível
  Não pode ser não
  É impossível
  Não posso.”

O lirismo dava ritmo aos versos, na forma das ondas do mar 

“Oh, minha amada
 Que os olhos teus

 São cais noturnos
 Cheios de adeus
 São docas mansas
 Trilhando luzes
 Que brilham longe
 Longe nos breus…” [5]

 

Ou, do balançar de uma cadeira, a maior dor de um pai

“Homem sentado na cadeira de balanço
 Sentado na cadeira de balanço
 Na cadeira de balanço
 De balanço
 Balanço do filho morto.”[6]

Como nenhum outro, ele foi Poeta. Sua alma era a Poesia, ele a enfrentava, ele sofria por ela, ele sucumbia à paixão, em forma de poesia

“Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro, meu filho…”[7]

Sua poesia transcendia a audição – ou visão – para falar direto ao coração de quem a conheceu

 “…  Eu sei que vou chorar
 A cada ausência tua eu vou chorar
 Mas cada volta tua há de apagar
 O que essa ausência tua me causou

 Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
 A espera de viver ao lado teu
 Por toda a minha vida” [8]

Um lirismo simplesmente deslumbrante

“…  Você tem que vir comigo em meu caminho 
 E talvez o meu caminho seja triste pra você 
 Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos 
 Os seus braços o meu ninho 
 No silêncio de depois 
 E você tem que ser a estrela derradeira 
 Minha amiga e companheira 
 No infinito de nós dois” [9]

Sem dúvida, na minha preferência, está o Soneto da Quarta-feira de Cinzas, que elegi como a poesia da minha alma:

“Por seres quem me foste, grave e pura 
 Em tão doce surpresa conquistada 
 Por seres uma branca criatura 
 De uma brancura de manhã raiada 

 Por seres de uma rara formosura 
 Malgrado a vida dura e atormentada 
 Por seres mais que a simples aventura 
 E menos que a constante namorada 

 Porque te vi nascer de mim sozinha 
 Como a noturna flor desabrochada 
 A uma fala de amor, talvez perjura 

 Por não te possuir, tendo-te minha 
 Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
 Hei de lembrar-te sempre com ternura”

E depois de ler toda sua poesia, busquei sua prosa, sua dramaturgia, vi todos seus shows e ouvi todas suas músicas.

Tornou-se meu ídolo maior. Então percebi que até por ele era apaixonada também. Suas ideias, sua cultura notável, suas palavras, sua vida tão sem rotina. E, ainda por cima, dividíamos uma paixão: o whisky. O dele, com gelo, o meu, puro.

Fã incondicional, segui seus passos enquanto foi possível, até aquele triste dia 9 de julho em que ele nos deixou.

Agora ele já não ama, não sonha…

“Ó, quem me dera não sonhar mais nunca 
 Nada ter de tristezas nem saudades 
 Ser apenas Moraes sem ser Vinicius! 
 Ah, pudesse eu jamais, me levantando 
 Espiar a janela sem paisagem 
 O céu sem tempo e o tempo sem memória! 
 Que hei de fazer de mim que sofro tudo 
 ………………… 
 É muito triste se sofrer tão moço 
 Sabendo que não há nenhum remédio 
 E se tendo que ver a cada instante 
 Que é assim mesmo, que mais tarde passa 
 Que sorrir é questão de paciência 
 E que a aventura é que governa a vida 
 Ó ideal misérrimo, te quero: 
 Sentir-me apenas homem e não poeta!” [10]

Há tanto, tanto, a falar sobre ele e o vazio que ficou nesse mundo sem Vinicius…

Mas, desde sempre, todo dia 19 de outubro eu paro minhas atividades, leio seus poemas e faço uma prece para que ele esteja em paz e feliz. A bênção, Poetinha! Saravá!

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[1] Soneto da contrição

[2] A mulher que passa

[3] De tudo, ao meu amor serei atento antes
 E com tal zelo, e sempre, e tanto
 Que mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento

 Quero vivê-lo em cada vão momento
 E em seu louvor hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso e derramar meu pranto
 Ao seu pesar ou seu contentamento

 E assim quando mais tarde me procure
 Quem sabe a morte, angústia de quem vive
 Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
 Que não seja imortal, posto que é chama
 Mas que seja infinito enquanto dure

[4] Mensagem à Poesia

[5] Poema dos olhos da amada

[6] Balanço do filho morto

[7] Pedro, meu filho

[8] Eu sei que vou te amar

[9] Minha namorada

[10] Elegia quase uma ode

Canivetes

 

Meu avô era o “homem do canivete” – nunca, nem uma única vez, eu o vi sem estar portando pelo menos um canivete.

Ele dizia que não se pode andar sem canivete. Tinha alguns, bem afiados, e os usava. Para picar fumo e fazer seus cigarrinhos de palha (ah, que saudade, meu avô, quando o senhor me ensinou a fazê-los e me delegava essa função – preparadora de cigarros de palha…), para destravar a porta do carro quando a fechava com a chave dentro. Para abrir a porta da casa quando perdia a chave. Para descascar frutas. Para abrir correspondência. Para usar como chave de fenda. Para cortar pequenos objetos e, às vezes, até mesmo para cortar a comida no prato. Com um canivete meu irmão, orientado por ele, tirou o gesso com que veio para casa, quando teve alta depois de um sério acidente na BR 116, indo para a fazenda. Chamou o neto mais velho, mandou fechar a porta do quarto, entregou-lhe o canivete e o guiou para a retirada do gesso que envolvia seu tronco e um ombro.

Realmente, não há dúvidas quanto à utilidade de se ter à mão um canivete!

Fico fascinada nas vitrinas onde há canivetes. Quando os vejo a saudade de meu avô aperta o peito.

Eu era muito pequena quando ele meu deu meu primeiro canivete. E mandou usar. Sempre. E o mantinha afiado para mim. Descascar laranja com um bom canivete vem amolado é minha especialidade. Até hoje ando com canivete na bolsa.

E já me foi muito útil em muitas ocasiões.

Só não faço cigarros de palha porque não fumo e meu avô partiu para sempre há muitos anos.

Ainda tenho alguns, dentre eles um é muito especial – pertencia ao tio Ary, uma das pessoas que mais amei nessa vida, em forma de caneta, com seu nome gravado, sempre no bolso da camisa – e eu também nunca saio sem um canivete…