Poesia da casa – Chão de terra

 

Chão de terra batida de minha infância

Cheiro de chuva molhando o capim

ao redor cantos de pássaros entre árvores

e na varanda o doce colo de minha avó

 

Chão de terra batida de minha alegria

Da liberdade que deixou tanta saudade

ao longe a cerca que se destinava

a me proteger de todos os perigos

 

Perigo era o poço d’água fundo e mal tampado

Perigo era a vaca brava que perseguia com seus chifres

Perigo era a máquina de triturar ração

– eram esses os perigos de minha infância

 

Chão de terra batida de minha lembrança

O café – tão lindo – secando no terreiro

o doce de leite sobre o fogão de lenha…

Chão de terra batida que nunca mais pisei!

 

 

Poesia da casa – A pena

A pena que leve voa,

solta, flutua no espaço,

é a mesma que transcreve

as mágoas todas que passo.

 

A pena que nada sente

é a pena que tudo escreve;

e que de nada tem pena,

mas todas as dores descreve.

 

Essa pena, todas as penas

e a dor que o outro sente,

ela apenas reescreve;

ela subscreve o que não sente,

 

mas a pena nunca mente:

porque a dor que ela escreve

é o poeta quem sente.

Poesia da casa – Anoitecer

Na hora mágica do anoitecer,

quanto o encanto acontece

por já não ser mais ser dia

mas não é noite ainda

as cores e as luzes se misturam

numa indecisão de brilhos e reflexos vários

 algo se rompe dentro de mim

e também já não sei quem sou nem onde estou

e loucamente começo a te buscar

em cada minuto em cada segundo

em cada astro que surge no infinito

cada estrela que surge a brilhar me trazem teus olhos

 a lua ri de mim e mostra direções incertas

 todos os sons da natureza se transformam

pássaros já não cantam mais, recolhidos nos ninhos

 os gritos das crianças silenciam

e não se ouvem mais as buzinas dos carros

novos sons surgem a cada instante 

grilos invisíveis enchem o ar com seu cricrilar encantador

ao longe a primeira coruja pia, daqui outra responde,

e, num repente não  visto, o sol se retira completamente

e o escuro impera no céu e na terra.

Outras são as luzes que agora me guiam

E esses novos sons às vezes me apavoram

Mesmo assim sigo nessa procura insana

Que talvez já tenha perdido o sentido

Quanto mais eu te busco a cada noite,

mais eu não te encontro

e não me pergunte se e por que tenho tanta pressa em te ver

eu sei que tenho pressa,

muita pressa nesse encontro

porque como esse anoitecer que encerra mais esse dia

a noite dos tempos também está chegando

para encerrar o dia da minha vida  

Poesia da casa – Minhas dores

As minhas dores são tantas…

São dores que estão seladas:

As dores do corpo são chagas,

Da alma são mágoas passadas.

 

Diante da dor sinto medo

Mas me mantenho serena;

A dor me torna tão frágil,

O medo me faz tão pequena.

 

Sempre juntas nessa vida,

Das dores não me separo,

Assim eu vou caminhando:

 

Com minhas dores vivendo,

Eu, minhas dores cantando,

Em mim, minhas dores doendo…

Saudade

Saudade … ecos do passado

Ouvir a voz de quem já não está

Sentir os braços que já não abraçam

Buscar uma presença na ausência

Aquecer com o frio e se queimar

Morrer por dentro e querer viver

Viver doendo e querer morrer

Tudo é finito, como o é a própria vida

E chega o momento em que desmorona

Nada do que era ainda existe

Sons desconhecidos, outras luzes

O momento em que devemos

Desmontar a paixão e recolher

As flores que deixamos nos caminhos

Guardar tantos sonhos e desfazer os planos

Abafar as brasas ainda vivas que teimam

Em inundar de encanto um coração

E então cuidadosamente espalhar sobre elas

As cinzas frias do esquecimento