Quando eu te deixar

Um dia hei de me cansar e me irei

E a ti, eu te deixarei para sempre

Quem te amará quando eu desistir de te amar?

Quem olhará nos teus olhos com tanto amor

Como sempre viste nos meus?

E ficará a teu lado em todos teus dias

E te esperará todas as noites e madrugadas?

Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor

E nunca te dirá – mais tarde,  pois agora ocupo-me de mim?

Quem te enviará versos falando

De uma paixão ardente que abrasa a vida

Rompe o tempo e apaga a distância?

Quem mais te fará os versos que eu te fiz?

Espinho

Cravado espinho trago no peito

Jorra-me o sangue aos pés da flor.

Tal rouxinol a tingir a rosa

Como Wilde cantou um dia,

Vejo o vermelho chegar às mãos

Que carregam as flores tristes,

Coroando o fim de um amor.

Onde um dia éramos alegres risadas,

Hoje escorrem lágrimas salgadas

Marcando as faces já tão sulcadas,

De um viver em vão dentre lembranças,

Que o vento da distância avivou

– verdadeiras chamas de um antigo vulcão

Que se acreditava adormecido para sempre,

Nesse peito que ainda sente bater

Um coração que um espinho trespassou –

O terrível espinho da paixão ardente.

de mais Saudade

 

Lembranças doces que nos perseguem
Ausência de uma paixão que se esmaeceu no tempo
Presença constante da falta que alguém nos faz
Buscar no nada uma razão para a existência
Fazer da névoa da memória uma companhia
Olhar para as próprias mãos, agora vazias
Ainda com o perfume do amor compartilhado
De tudo que escorreu por entre nossos dedos
E não conseguimos reter em nossa vida,
Mas não tivemos jeito de tirar do coração.
Relembrar cada momento de doçura e encanto
Ouvir de novo a voz agora tão calada
Perder os contornos precisos e só ter um vulto
Como um barco que se afasta aos poucos do cais
Sentir de novo toda a ternura repartida
Ver caírem, uma a uma, as pétalas do amor
desfazendo a rosa vermelha da paixão
Saudade é o nome da solidão infinita
É a distância que insiste em ficar perto
É a certeza da perda, do não ter mais
É saber que o sonho acabou para sempre
É desejar morrer docemente dentro desse vazio

Amanhecer

 

 

Alvorecer

A hora mágica em que a madrugada se esvai

E o dia ainda não chegou

As cores mais lindas da natureza se exibem

Orgulhosas entre a primeira claridade e os

Primeiros raios de sol.

A aurora, clara como a lua, se aproxima

E põe fim, então à madrugada.

 

Madrugada

Quando os pensamentos se encontram

E o poeta sofre e chora entre seus versos

Momento em que o mundo, buscando a paz, respira tranquilo

Não há cores. Apenas o escuro do céu e algumas

Luzes de estrelas que teimam em brilhar,

Procurando amantes desgarrados

Que ainda estão nas ruas

 

Madrugada

Fim das noites de tristeza ou de alegria

Fim das festas e dos velórios

A troca dos turnos dos dias

Que se revezam com noites imensas

Tudo faces da mesma moeda

Calmaria no silêncio da natureza.

 

Alvorecer.

Instante único em que a madrugada se veste de branco

E traz de volta a esperança da vida

O último momento antes do raiar do dia

A alvorada dos pássaros em algazarra

O despertar da vida até então em repouso

A vida voltando a acontecer

E a saudade da madrugada que se foi

 

Como eu te amo

Eu te amo

sem orgulho

sem esperança

Como o mar ama a montanha

sem jamais a alcançar

e, por suas ondas, incessantemente,

tenta chegar a seus pés

 

Eu te amo

Com desvario

Com insanidade

Como a lua ama o sol

Sem jamais encontrá-lo

E sem temer o abraço fatal

Que os fundiria irremediavelmente

 

Eu te amo

Sem vaidade

Sem egoísmo

Com um amor que não tem brio

que sufoca a dignidade

e se basta a si mesmo

 

Eu te amo

Com loucura

Com paixão

Nesse doce devaneio

Que é apenas insanidade

Esse constante delírio

De inquieta alucinação

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho, apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada, nem ninguém, viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria, qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação, que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria, e sorriso, e êxtase.

Amanheceu um novo dia. A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.