Texto de Carla Marques – Espera-me e eu voltarei

Se eu um dia

te deixei

de escrever

não foi porque te

e s q u e c i …

Foi porque o que

te esqueceste

de levar e

deixaste em mim…

Ainda não cicatrizou

e dói cada vez

que lhe mexo,

às vezes basta

uma palavra e

o mar fica agitado,

as ondas tornam-se

demasiado grandes

e sinto-me a

a f o g a r …

É isso…

deixar os sentimentos

lá no fundo,

manter-me à tona

a boiar sem ter de

suster a respiração…

Ficar ali a ver

as nuvens a viajar,

as marés a passar,

sem mergulhar!

Não me esqueci

apenas

não quero

lembrar!

(Imagem: foto de Maria Alice)

Invernos (memória)

“… E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível.” (Ruben Alves)

A Trail In The Forest On A Cold Winters Day, Calgary, Alberta ...

“Não é inverno, ainda…”, alguém vai dizer.

E eu respondo: “quem disse que não?”

Porque inverno não é apenas uma estação do ano, quase desconhecida aqui nesse país tropical. Inverno é uma estação da alma. Inverno é uma estação da vida.

Quando nos condenaram a esse isolamento social, colocaram-nos no inverno social.

Quando deixamos de voar porque precisamos de outra asa para formar um par, estamos no inverno afetivo.

Quando mais do que sozinhos, estamos sem a pessoa que amamos e queremos a nosso lado, nossa alma está no inverno.

E, por fim, quando a juventude já ficou muito longe, a maturidade também se foi, juntamente com as forças e as ilusões, já não somos mais capazes de sonhar, estamos no inverno da vida.

Quantas vezes derrapamos, tropeçamos, caímos na vida. Mas continuamos. De algum lugar insuspeito tiramos as forças e retomamos a luta. Por nós, por alguém, por outros.

Não podemos parar na queda e continuar caídos, ou seremos tragados pela crueza do existir.

Então sempre nos levantamos. E nossa força não reside em não cair. Mas em se levantar depois da queda e seguir adiante.

Quedas reais e figuradas.

Em minha vida, mais figuradas do que reais. Mas quedas. Algumas feias. Que machucaram muito. Deixaram cicatrizes – feias tatuagens na alma, que era tão delicada.

Leio novamente essa frase do insuperável Rubem Alves.

E penso, que, realmente, sempre descobri um novo verão dentro de mim.

Por isso segui em frente. Por isso estou aqui. Em pleno inverno da vida, descobrindo, ainda invencíveis verões.

Mas, para atingir esses verões, terei de passar, com toda a paciência, por outras primaveras.

(imagem: banco de imagem Google)

Dia de poesia – Mario Benedetti – Táctica y estrategia

Mi táctica es 
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos

no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

(Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 24 – Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade (1923-2005) foi um dos maiores poetas portugueses contemporâneos. Tem obras publicadas em várias línguas. Recebeu o Prêmio Camões, em 2001.

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Frontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa, Portugal, no dia 19 de janeiro de 1923.

Filho de camponeses, após a separação dos pais, passou sua infância em companhia da mãe. Com sete anos de idade mudou-se com a mãe para Castelo Branco.

Em 1932 muda-se para Lisboa, onde frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1935 já mostrava seu interesse pela leitura, passando horas nas bibliotecas públicas. Em 1936, Eugénio de Andrade começou a escrever seus primeiros versos.

Em 1939 publicou seu primeiro poema “Narciso”. Pouco tempo depois passou a assinar com o nome “Eugénio de Andrade”.

Em 1947, já em Lisboa, tornou-se funcionário público, exercendo durante 35 anos a função de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.

Em 1948 publicou o livro “As Mãos e os Frutos”, que recebeu elogio dos críticos literários. Em 1950 foi transferido para o Porto. Em 1956 morreu sua mãe, que tinha sido sua grande companheira. O poeta levava uma vida reservada, vivia distante da vida social e pouco aparecia em público.


Paralelamente ao cargo público, Eugénio de Andrade publicou mais de vinte livros de poesia, publicou obras em prosa, antologia, livro infantil e traduziu, para o português, livros do poeta Frederico Garcia Lorca, José Luís Borges, René Char. 
(Fonte: ebiografia)

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
Em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro,
Era como se todas as coisas fossem minhas:
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
Porque ao teu lado
Todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
Era no tempo em que meus olhos
Eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
Uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
Tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Poesia da casa – As naus

As naus partiram
Uma a uma, deixaram o porto
E se foram para sempre
O grande mar as tragou
E elas sumiram
Num horizonte sem fim
Num balanço sem volta

As naus partiram
Como todos os amores
Que um dia deixam a alma
E se vão, mar da vida afora
Em busca de novos horizontes
Sem se importarem com a dor causada
Vão, felizes, seguindo as ilusões

As naus partiram
E aquele porto, agora vazio,
Guarda apenas o inútil cais
Que vê as naus diminuírem
Na medida que se afastam
As mesmas naus, ingratas,
Que sequer olham para trás

As naus partiram
Ignorando o pranto do cais
Que suporta tanto abandono
Que tanto pedia “leva-me junto,
Nau amada, não me deixes aqui”
E o cais, desesperado, agora vago,
Deixado para sempre no velho porto...


As naus partiram
Para quem parte, a aventura
A conquista, a novidade
E, para quem fica
O vazio do porto onde,
Até então, se abrigavam
Na ternura do cais amoroso

As naus partiram
Deixando um vácuo de amor, de paixão
E de vontade de viver
Um rastro de pranto dolorido
Um cais destroçado e ferido
Onde tudo é saudade
Tudo é angústia, desolação

As naus partiram
Chora o cais o desespero solitário
De se ver sozinho, sem porvir
Tudo ficou triste, vazio,

Neste cais, coração abandonado, e sabe
Que as naus partiram
E não voltarão jamais

(Imagem: banco de imagens Google)