Dia de poesia – Miguel Torga – Recomeça

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

(Imagem: foto de Nelson O’Reilly Filho)

A água e o rio

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.

Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.

Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.

Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?

Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha. Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.

Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.

Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.

O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.

Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.

À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago. Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.

Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.

Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Lua e mar

Vejo a lua como se fosse a primeira vez
Não importa quantas noites já a vi
Ela chega pálida, tímida, despercebida
Chega no final da tarde para não se atrasar
E ali fica, tão quieta, esperando o anoitecer
Quando então, soberana, domina o firmamento
E nos olha, divertida, em esplêndido brilho.
Ou nem vem, resolve ir amar em outro canto
E nos deixa em noite escura sem brilhar
E apenas a imaginamos, ao olharmos para o céu
Sabendo que ela existe, está em algum lugar
É sempre uma primeira vez todas as noites
A grata surpresa de poder ver a lua.

Vejo o mar como se fosse a primeira vez
Não importa quantas vezes eu já o vi
Sempre cantando em constante ondular
Vem tão manso em suas águas transparentes
Esperando o carinho de um mergulho
Quando então, poderoso, arrasta e traz de volta
E nos olha, divertido, em esplêndido azul-mar
Ou sossega, e acalma suas ondas
E nos deixa abandonados sem brincar
De repente, se levanta, entediado, e nos leva
E nos traz, em seu louco balançar,  
É sempre uma primeira vez todas as vezes
A grata surpresa de poder ver o mar.

E quando, na noite, em puro encanto, ela nua
Prateia as águas no rastro do luar
A maré, apaixonada, então recua,
Dando espaço para todo esse brilhar,
Penso na alegria de ser sua
Como marca desse nosso intenso amar:
Deixe-me, meu amor, ser sua lua
E seja sempre, você, o meu mar

(Imagem: banco de imagens Google)

O silêncio (Memória)

O que é o silêncio?

Apenas a ausência dos sons?

A falta de ruídos?

O silêncio é concreto ou abstrato? Necessário ou indesejado?

O silêncio não apenas nos cobre, mas nos invade. Toma nossa alma e a faz refém.

Não da calma, mas da calmaria que antecede a tempestade.

Não do sol que aquece, mas do calor que abrasa e destrói.

O silêncio pode ser a companhia ideal em certas situações, mas pode ser o opressor que tortura em tantas outras.

Quando resulta do abandono, do descaso, da solidão dolorida de uma ausência, o silêncio é dor, faz sangrar.

Na madrugada é bem-vindo, mas nos domingos é aflitivo.

Na hora da oração é necessário, mas na hora na qual deveria haver cantos e alegria, é cruciante.

A saudade é feita de longos e cruéis silêncios.

Quantas vezes o silêncio é torturante, mais ensurdecedor do que qualquer barulho.

O silêncio é a foto que congela as ondas do mar sem seu canto, as águas tombando na cachoeira sem seu estrondo, a alegria dos pássaros depois da chuva, sem sua algazarra…

Tão antagônico, tão contrário a si mesmo é o silêncio, e, neste exato momento, tão amado e tão dolorido para mim…

(Imagem: foto de Marina Maggioni)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 28 – Olegário Mariano

Olegário Mariano (Olegário Mariano Carneiro da Cunha), poeta, político e diplomata, nasceu no Recife, PE, em 24 de março de 1889, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1958.

Era filho de José Mariano Carneiro da Cunha, herói pernambucano da Abolição e da República, e de Olegária Carneiro da Cunha. Fez o primário e o secundário no Colégio Pestalozzi, na sua cidade natal, e cedo se transferiu para o Rio de Janeiro. Frequentou a roda literária de Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Coelho Neto, Martins Fontes e outros. Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911. Sua poesia falava de neblinas, de cismas e de sofrimentos, perfeitamente identificada com os preceitos do Simbolismo,  já em declínio.

Foi inspetor do ensino secundário e censor de teatro. Representou o Brasil, em 1918, como secretário de embaixada na Bolívia, na Missão Melo Franco. Foi deputado à Assembleia Constituinte que elaborou a Carta de 1934. Em 1937, ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi ministro plenipotenciário nos terceiro centenário da Restauração de Portugal, em 1940; delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadêmica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945; embaixador do Brasil em Portugal em 1953-54. Exerceu o cargo de oficial do 4º Ofício de Registro de Imóveis, no Rio de Janeiro, tendo sido antes tabelião de Notas.

Em concurso promovido pela revista Fon-Fon, em 1938, Olegário Mariano foi eleito, pelos intelectuais de todo o Brasil, Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac, o primeiro a obtê-lo.

Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olímpio, Olegário Mariano publicou, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, mais tarde reunidas em dois livros: Bataclan e Vida, caixa de brinquedos.

Sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o “poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos. (Fonte: Academia Brasileira de Letras)

A ovelha tesmalhada

A noite abriu, em céu estranho,
para adorá-las e querê-las,
um turbilhão tonto de estrelas,
lindas ovelhas de um rebanho.

O luar — pastor lírico, em breve,
surge e, apontando o seu cajado,
vai por montes e colinas de neve
guiando o rebanho mágico e doirado...

Mas uma ovelha tresmalhada
perdeu-se. O luar, em cólera, se espelha:
— Onde andará aquela ovelha
de olhos verdes, a mais amada,
de boca a mais vermelha?

“Onde andará?...” De serra em serra:
“Onde andará?...” Ansioso, avança,
como um doido pelas alturas...

E ela tranquila, aqui na terra,
com o nome lindo de Esperança
iludindo e matando as criaturas...


A cigarra morta

Ontem, Cigarra, quando veio a aurora,
acordei a vibrar com a tua vinda.
A tua voz tinha, de espaço fora,
notas tão claras que eu a escuto ainda.

Glorificando a luz consoladora,
cantaste, e enfim tua cantiga é finda.
Tenho nas minhas mãos, inerte agora,
teu corpo cor de mel. Cigarra linda.

Foste feliz, porque te deram esta
garganta de ouro. Assim, de palma em palma,
passou, num sonho, a tua Vida honesta...

Vendo-te, os meus sentidos se levantam,
esperando a cantiga de tua alma,
que as almas das Cigarras também cantam...