Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Poesia da casa – De passagem

Veio com brisa tão leve - Uma pluma a flutuar Não tinha nenhum destino Só um desejo: passar E como se fosse um beijo Roubado sem um abraço Deixou o rastro apertado De um nó onde fora laço Se não podia ficar Se era só de passagem Por que ficou tanto tempo Antes de seguir viagem? Não há antes nem depois Só o instante da magia Daquele beijo furtivo Mas dado com maestria Uma passagem tão breve Deixou a fieira de pena Que traz de volta a saudade Ao sentir a brisa serena Passou o tempo cruel E o trinco da madrugada, Chegado o fim do caminho Então não resta mais nada
(Imagem: banco de imagens Google)
Poeira das estrelas – Fernando Martins

Quando olhamos a noite sem lua e sem estrelas, no céu puro do litoral, sentimos alguma coisa se remexendo em nossas entranhas… somos feitos de matéria estelar.
“Cada átomo em nosso corpo veio de uma estrela que explodiu. E os átomos em nossa mão esquerda provavelmente vieram de uma estrela diferente do que os da nossa mão direita.
Na verdade é a coisa mais poética da Física: Somos todos poeira de estrelas.
Não poderíamos estar aqui se as estrelas não tivessem explodido, porque os elementos – carbono, nitrogênio, oxigênio, ferro, todos os elementos que importam para a evolução e a vida – foram criados na fornalha nuclear das estrelas, e a única forma de chegarem até nosso corpo é que as estrelas, gentilmente explodissem.
As estrelas morreram para que pudéssemos estar aqui hoje.” (Lawrence M. Krauss).
Existe algo como uma visão antiga, codificada e incluída em nosso DNA, que reconhece seu ponto de origem, com tanta certeza quanto o salmão reconhece o riacho onde nasceu.
Por isso olhamos para o céu, com saudades de casa…
Os extraterrestres somos nós.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Texto de Lia Luft

Às vezes é preciso recolher-se.
O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas.
Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir.
É um começo de sabedoria, e dói.
Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido.
Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico.
Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador.
Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta.
Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar.
Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz.
Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambiguidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.
(Foto de Maurício Bohac Ferreira da Rosa)
Poesia da casa – Se

Se você surgisse como o sol dos meus dias Trazendo luz e calor para aquecer minha alma Eu poderia enxergar então uma realidade melhor Mas você não surge, ah, meu amor, você não surge Se você voasse comigo para outros mundos Juntos conheceríamos a verdadeira felicidade E nunca mais ficaríamos separados, Mas você não voa comigo, meu amor, não voa Se você quisesse ser para sempre meu amor E andarmos todos nossos caminhos de mãos dadas Eu te cobriria de beijos e carinhos sempre, Mas você não quer, meu amor, você não quer Se você chegasse na minha noite de insônia E me desse todo carinho até me adormecer Colocaria cores e alegrias nos meus sonhos, Mas você não chega, meu amor, você não chega Se você viesse navegar comigo no meu barco Eu te contaria todas as histórias das sereias E te falaria o nome de todas as estrelas nas noites, Mas você não vem, meu amor, você não vem
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de Poesia – espaço para Jenário de Fatima

Remexo nos meus “guardados” e são tantas velharias. Retratos amarelados de gente que eu mais queria. Um belo lenço bordado de alguém que amei um dia. Um vinil todo arranhado de canção que eu tanto ouvia. Um poema inacabado falando em vida vazia. Um cordão enferrujado que nunca teve valia. Um velho troféu quebrado sem nenhuma serventia Pra que meu Deus, guardar isso se não há encanto ou feitiço que devolva aqueles dias?
(Imagem: banco de imagens Google)