Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 14 – Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, no dia 19 de dezembro de 1916. Filho de João Venceslau Barros e de Alice Pompeu Leite de Barros passou a infância na fazenda da família localizada no Pantanal.

Na adolescência estudou em colégio interno na cidade de Campo Grande, época em que escreveu suas primeiras poesias.

Manoel de Barros foi um poeta espontâneo, um tanto primitivo, que extraía seus versos da realidade imediata que o cercava, sobretudo a natureza, apesar da formação cosmopolita.

Mostrava-se distante do rótulo de “Jeca Tatu do Pantanal”, que lhe tentaram impingir. Gostava de invenções verbais e neologismos como “eu me eremito”.

Sua consagração como poeta se deu ao longo das décadas de 80 quando recebeu o “Prêmio Jabuti” com a obra “O Guardador de Águas” (1989).

(Fonte: eBiografia)

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

O apanhador de desperdícios

Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Para meu pai, no seu aniversário

Pai, hoje é seu aniversário. Sempre foi um dia sagrado no calendário da nossa família, que já não tem mais o senhor aqui para comemorarmos juntos. Não podemos visitá-lo nem abraçá-lo. Mas, onde quer que o senhor esteja, envio de presente sua música favorita. Ouça-a e nossos corações estarão batendo num mesmo compasso, vencendo a morte e a separação.

sem dor

Doeu. Doeu muito. Doeu demais.
Ainda que quebrasse todos os ossos do corpo ao mesmo tempo
Esmagasse todos os músculo
Se lhe arrancassem todos os órgãos
Ou lhe tirassem a pele em vida,
Nada
Absolutamente nada
Doeria tanto quanto essa ausência
Por isso agora parte
Já não chora – as lágrimas secaram
Já não dói – esgotou a capacidade de sentir dor
Já não sofre – exaurido na dor já sentida
Parte. 
Apenas parte.
Sem lamento. Sem sofrimento.
Sem bagagem. Sem adeus.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Michel Torga – Absolvição

Incendeiam-me ainda os beijos que me não deste
E cegam-se os acenos que me não fizeste
Da janela irreal onde o teu vulto
Era uma alucinação dos meus sentidos.
Mas, decorrida a vida, e oculto
Nestes versos doridos,
A saber que não sabes que te amei
E cantei,
E nem mesmo imaginas quem eu sou
E como é solitária e dói a minha humanidade,
Em vez de te acusar
E me culpar
Maldigo o arbítrio da fatalidade
Que cruelmente nos desencontrou.

(Imagem: banco de imagens Google)

Só para ouvir

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos de me enganar
Como fiz enganos de me encontrar
Como fiz estradas de me perder
Fiz de tudo e nada de te esquecer

...............

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar