Distante assim meu riso é pranto
É lágrima de saudade
De tristeza metade
E metade de encanto
Um tanto felicidade
E amor outro tanto!
Distante assim sou casa vazia
Sou do beijo lembrança
Sem par em dança
Resquício de alegria
Amor que não se cansa
Distância tripudia!
Tão perto assim sou mãos dadas
Um dormir nos braços
Acordar no abraço
De bocas coladas
É um não cansaço
De fazermos nada!
Tão perto assim sou você
Um caso perfeito
Seu corpo, seu beijo, seu jeito
E um medo de perder
Sou amor que bate no peito
Eternidade a me envolver.
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Um dia
Hoje vou repetir esse post, porque tenho esperança que esse dia há de vir…
A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)
Um dia vou ser feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.
Um dia, não agora.
Sou feita de saudade e melancolia.
Desesperança e ansiedade.
Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.
Mas um dia serei feliz. Prometo.
Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.
Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.
Serei só ternura, maciez e aconchego.
Mas não agora.
Isso só no dia em que eu for feliz…
Texto de Khalil Gibran – Sobre o Amor (de O Profeta)
Quando o amor o chamar, siga-o, ainda que suas maneiras sejam duras e íngremes;
e quando as asas dele o abraçar, renda-se a ele, embora a espada escondida dentro de suas penas possam o ferir.
E quando ele o falar, acredite nele…
Ainda que a voz dele possa despedaçar os seus sonhos,
como o vento frio do norte devasta o jardim florido…
Por que, além de o coroar, ele também o crucifica.
Para além de seu crescimento, ele existe para a sua podação.
Mesmo quando ele subir a sua altura para acariciar os seus ramos mais macios que estremecem ao sol,
também ele o desceria a suas raízes e agitá-las-ão aderidas à terra…
Como polias do milho, recolhê-lo-á para si mesmo
O debulha para fazê-lo despido…
O peneira para libera-lo das suas cascas…
O moe até que fique branco e puro..
E o amassa até que seja moldável…
Pois, ele o cozinha em seu forno sagrado para você tornar-se pão sagrado…
Para a Sagrada Festa de Deus!
Tudo isso o amor vai fazer para você,
só para você saber todos os segredos do seu coração…
E para que neste conhecimento, você chegue a ser um fragmento do coração da Vida…
Mas, se com medo, você só procurar a paz e o prazer do amor,
É melhor que você cubra a sua nudez, e saia do caminho do amor,
Para ficar no mundo sem estações,
Onde riria, mas não todas as suas risadas,
e choraria, mas não todas as suas lágrimas…
O Amor só da de si mesmo, e pega nada mas do que si mesmo…
O Amor não possui, e não pode ser possuído…
Por que o Amor é bastante á si mesmo.
Quando você amar, não deve falar,
Deus fique no meu coração…
mas fale, Eu fico no coração de Deus!
E nem pense que possa dirigir o curso de Amor…
Por que, o Amor, se achar você merecedor, dirigir o seu curso…
O Amor só tem um desejo: para satisfazer de si mesmo…
Mas, se você ama, e necessite ter desejos, deixe eles ser os seguintes:
Derreter e ser como um ribeirão corrente,
para cantar a sua canção pela madrugada.
Saber a dor de tanta ternura…
Ser ferido pelo seu próprio conhecimento de Amor…
e sangrar com abundância da felicidade….
Acordar com a coração alado
e agradecer mais um dia de Amor.
Descansar ao meio do dia e meditar no êxtase do amor…
E voltar a noite com agradecimento…
Então, dormir com uma prece no coração para a sua amada,
e uma canção de louvor no seus lábios.
Os desvãos do nada
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.
(TaoTe Ching, cap. 11)
Quando o nada é o que preenche, a utilidade está no não-espaço, enxergamos outro lado da realidade.
Nosso concreto, nosso visível, tátil, sensível, já não se impõe. Atravessamos o espelho e vemos o outro lado – exatamente o abstrato, o que não vemos, não sentimos, e encontramos conforto nessa outra realidade.
Quantas vezes nos agarramos ao que existe, enquanto, na verdade, queríamos apenas o que não está lá fisicamente.
Vivemos uma vida de apego ao material. Ao que vemos. Ao que podemos ostentar. Ao que sentimos, ao que podemos dividir. Ao que pegamos, ao que podemos exibir. Sem perceber que o mais importante era o nada, o vão, o intangível. E não damos importância ao que realmente nos marca, nos alegra, nos toca e nos emociona.
Os detalhes valem mais que o todo. Os desvãos contam os segredos . Onde nada se mostra, tudo existe.
O que dói não são as lágrimas que vemos. Mas a dor invisível que as causou.
O que importa não são os braços, mas os abraços.
Um dia, apenas a ausência será a nossa companhia.
O que fica não é a presença, mas a saudade.
E o nada, o que mais nos preenche.
(Foto: Stock Photo)
A eterna tristeza de 09 de julho

41 anos. Mas ainda queima como se tivesse sido esta manhã.
Atendo o telefone. Vem a pergunta: “Está chorando? Já chorou muito?”
E eu respondi: “Eu, chorar? Por que?”
E a bomba: “Ainda não sabe? Vinicius de Moraes morreu no amanhecer.” Então comecei a chorar…
Ele partira. Em uma aura de poesia, envolto em uma névoa de paixão.
Junto com a Aurora, ele se fora. Esperou sua chegada e com ela partiu. E ele sabia que a Aurora é fria.
“… Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
…. É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!”
Nesse triste 09 de julho, ele que cantara a morte, quando mal amanhecia, com ela se encontrara.
A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
(A Morte, Rio de Janeiro, 1954)
Não sei se ele “se” morreu de amores. Mas sei que ele amou. Muito. Sempre. E morreu sem saber quem pagaria o enterro e as flores. Mas nessa manhã, Vinicius teve sua Hora íntima… (Rio de Janeiro , 1950)
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal…
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Ele, o imortal, morrera.
E sempre será não só imortal, mas o Poeta infinito.
A paixão em forma humana.
Deixou o mundo mais doce, pôs encanto em nossa vida.
E estará, sempre, entre nós. Porque sua Poesia não morrerá jamais.
Texto de Ana Luiza Fireman – Mala d’estórias

O tempo pode te rabiscar o rosto
Pode te pratear os cabelos
Mas não deixe que o tempo te apague o viço
Nem te adormeça o riso
Conserva teu jeito de olhar macio
Tua capacidade de sonhar
Guarda em ti tuas vontades mais absurdas
Teus desejos infantis
Conserva tua poesia, teu amor proibido
Reserva também tua indignação, tua rebeldia
Guarda tua teimosia
Não te acomodes com as voltas do tempo
Renova-te a cada manhã, a cada pão
Por dentro, não deixe o tempo te roubar a vida.