Para Emídio, um ano depois

Ah, Emidio, há um ano você partiu. Tão discretamente quanto viveu. Sem alarde, sem despedidas, simplesmente você apagou a luz e fechou a porta de sua vida e se foi.

Você faz falta. Tudo o que não conversamos e os assuntos que não terminamos ficaram pendentes como um novelo que desfiou e ficou jogado no fundo da cesta de costuras. Mais de uma década de conversas quase diárias, e de repente não tenho mais você para me instigar, me desafiar…

Mesmo quando você me chamava de palhaça (a única pessoa no mundo que ousou fazer isso), eu me divertia. Você sabia ser engraçado na medida certa. Ser poeta na medida certa. Ser amigo na medida certa.

Nunca mais fui chamada de palhaça, nem de Maria, nem de menina… só você fazia isso.

Suas crônicas saborosas, sua poesia leve, sua inteligência cortante, quanta falta isso faz.

Não sei onde você está agora, mas queria ter certeza de que está feliz e em paz.

Porque você sabia transmitir a paz quando eu precisava conversas de paz. E merece toda a paz na eternidade.

Foi meio maldosa sua partida inesperada e sem despedidas. Bem típico de você. Que se divertia quando conseguia me deixar confusa com suas afirmações.

Queria ler mais Emidio, queria mais poesias suas, mais conversas…

Você nos deixou em um ano tão triste, tantas coisas ruins aconteceram, e não tenho mais você para tornar tudo mais leve.

Mas há um grande consolo em saber que você foi poupado pelo Pai. Não precisou enfrentar esses tempos estranhos, de isolamento e guerra política, para ler meus comentários e me dizer “deixa o bichim em paz”…

Fica em paz, meu amigo, você nunca será esquecido. E sempre me fará muita falta.

Poesia da casa – Como eu te amo

Eu te amo
sem orgulho
sem esperança
Como o mar ama a montanha
sem jamais a alcançar
e, por suas ondas, incessantemente,
tenta chegar a seus pés
 
Eu te amo
Com desvario
Com insanidade
Como a lua ama o sol
Sem jamais encontrá-lo
E sem temer o abraço fatal
Que os fundiria irremediavelmente
 
Eu te amo
Sem vaidade
Sem egoísmo
Com um amor que não tem brio
que sufoca a dignidade
e se basta a si mesmo
 
Eu te amo
Com loucura
Com paixão
Nesse doce devaneio
Que é apenas insanidade
Esse constante delírio
De inquieta alucinação

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Mar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vida

Vida, vida... ah, vida, o que ou quem é você?

Recebemos sem pedir, e será tirada sem nossa licença.

Não nos pertence. Mas não vivemos sem.

Não é nossa, mas não podemos trocar com a de outra pessoa.

O que é essa abstração que chamamos de vida?

Sempre ouço: “Você tem sua vida”... será que tenho minha vida?

Será que tenho uma vida?

Ou apenas vivo?

Há alguém vivo que não tenha vida?

Por que algumas pessoas deixam a própria vida descerem ralo abaixo?

E ainda ficam tentando se intrometer na vida dos outros?

Também ouço: “Ah, você, sim, sabe viver, aproveitar a vida...”.

Alguém vive sem saber viver?

Quando nos dão a vida ela vem com um manual para que saibamos como viver?

E “aproveitar”? o que seria aproveitar a vida?

Tirar proveito daquilo que ocupamos temporariamente sem nos pertencer?

O que faz parecer que alguém vive melhor, “aproveita” melhor, “sabe viver melhor”?

Todos nascem igualmente – nus, assustados, vulneráveis...

Vão morrendo ao longo da vida – alguns de uma vez e outros lentamente.

A cada segundo que pensam vivido, na verdade apenas se aproximaram mais um segundo da morte.

Também a expressão "minha vida!"... ninguém é dono da vida. Apenas vive.

Viver, para mim, é apenas e simplesmente, ficar segurando a vida enquanto se espera a morte
.

Pela revolução dos cravos

TANTO MAR
(Chico Buarque)

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Em algum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim


Envelhecer

Um Espelho Sem Reflexo – O Sábio da Lua Cheia

Chega um momento inesperado

Em que nada do que já foi ainda é

A vida se transforma na frente de nossos olhos

E então duvidamos de nossas mais fortes convicções.

Restos de noites, rastros de estrelas

Sem sul, sem norte, não há rosa dos ventos

O arco-íris já não tem fim nem tem começo

A água já não mata mais a sede

O sol não mais aquece nossa pele

Ao mesmo tempo em que nada nos falta

Temos a certeza de que nada nos basta

Tudo aquilo o que, aos poucos, a vida nos deu em gotas,

Depois nos tirou, de uma só vez, às colheradas

Já não conseguimos sequer saber o que sentimos

Se é melhor a cinza realidade do hoje

Ou o dourado de quando seguíamos

A luz do encanto de uma paixão louca

Cores e formas se misturam na memória

Velhas dores já não conseguem incomodar

Como um sussurro de leve brisa

Antigas paixões ardentes afloram

E logo em seguida desaparecem

Como reflexos na superfície de um lago

Já não nos conhecemos mais

A cada dia o espelho nos apresenta um novo eu

Mais velho, mais baço, olhos mais tristes e apagados

E procuramos onde foi que nos perdemos

Onde está a juventude, a alegria, a vida integral?

Como um pássaro abatido em pleno voo

Fomos lançados nesse limbo da velhice

Sem percebermos que não éramos mais jovens

Passamos por décadas que agora desaparecem

Nos vãos do passado ou desvãos da memória

Quem somos nós?

Quem são essas pessoas que vemos nos espelhos?

Onde foi que nos perdemos de nós mesmos?

A alma ainda é leve, apaixonada, encantada

Mas a realidade é pesada, fria e escurecida

Já não encontramos nosso lugar nesse mundo

Vivemos essa vida que não é a nossa vida

Em um mundo de outra realidade

Aos poucos nos apartamos uns dos outros

E passamos a buscar, ao mesmo tempo

Que tememos ou desejamos não querendo

O inevitável encontro com a implacável Ceifeira

Que é hoje nossa única certeza de futuro

Que nos levará para novo mundo desconhecido

Embora esse aqui também já não seja o nosso

Um dia seguiremos, entre lágrimas de alívio

Para cumprir o inexorável destino

Não veremos as flores que nos serão enviadas

Não sentiremos se verdadeiro o pranto que nos segue

Nada mais nos importará nesse momento

Que haverá de coroar nosso envelhecimento

(Imagem – banco de imagens da internet)