A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Por mais que se prenda um corpo, se alma for livre, nada a prenderá. Há homens livres entre os prisioneiros. E muitos que, mesmo liberados, levaram a prisão dentro de si.
Podem tolher ou mesmo destruir a liberdade de locomoção e de expressão de alguém. Mas não da alma, do pensamento, da emoção e do desejo.
Olhe nos olhos de quem tira sua liberdade. Não precisa dizer nada. Seus olhos dirão: “somos livres e assim continuaremos. Ainda que em uma escura cela solitária”.
A essência do ser humano é a liberdade. E, mesmo assim, muitos dela abrem mão por covardia ou comodidade.
Ser livre é o que se tem de mais precioso.
E quando se tem a liberdade do corpo aliada à liberdade da alma, aí, sim, é possível ser feliz. Ter alma livre. E se tornar livre na vida.
Só quem é livre pode voar. Só a liberdade permite voar mais alto.
Por isso não se devem seguir caminhos trilhados, mas fazer os próprios, para chegar a novos lugares. E não apenas pelos próprios pés.
Porque os olhos sempre podem enxergar além de onde os pés poderiam levar. E a liberdade estava além da distância percorrida.
Mas também não somente pelos olhos. Porque os sonhos vão mais longe do que os olhos podem mostrar.
Liberdade é perseguir o sonho. Sonhar é enxergar além da realidade.
Continuando a falar de amor, e só de amor, por três dias, hoje postarei um texto e dois poemas:
Vacina de ano novo
Muitos me desejaram paz e amor em 75.
Mas havendo amor, haverá paz?
Amor é o contrário radioso dela.
É inquietação, agitação, vontade de absorver o objeto amado, temor de perdê-lo, sentimento de não merecê-lo, ânsia de dominá-lo, masoquismo de ser dominado por ele, dor de não o haver conhecido antes, dor de não ocupar seu pensamento 24 horas por dia, e mais dias a pedir ao dia para ocupá-lo, brasa de imaginá-lo menos preso a mim do que eu a ele, desespero de o não guardar no bolso, junto ao coração, ou fisicamente dentro deste, como sangue a circular eternamente e eternamente o mesmo.
Amor é isso e mais alguma triste coisa.
E a tristeza incurável do tempo não passa fora de nós, passa é dentro e na pele marcada da gente, lembrando que eternidade é ilusão de minutos e o ato de amor deste momento já ficou mergulhado em ter sido.
Amor é paz?
(Carlos Drummond de Andrade)
E
Amo-te quanto em largo, alto e profundo Minh’alma alcança quando, transportada, sente, alongando os olhos deste mundo, os fins do ser, a graça entresonhada.
Amo-te a cada dia, hora e segundo A luz do sol, na noite sossegada e é tão pura a paixão de que me inundo Quanto o pudor dos que não pedem nada.
Amo-te com a dor, das velhas penas com sorrisos, com lágrimas de prece, e a fé de minha infância, ingênua e forte.
Amo-te até nas coisas mais pequenas, por toda vida, e assim Deus o quiser Ainda mais te amarei depois da morte…
Ontem fiz um propósito de só falar de amor por três dias – textos e poesias de amor, homenagem ao dia dos (e)namorados. E sair um pouco dos assuntos tão repetidos em todos os blogs, jornais, revistas e conversas.
Falar de amor… o primeiro nome que vem à mente, é óbvio, é Vinicius de Moraes. O Grande Poetinha. Quem mais soube falar de amor, despertar a paixão, e cantar os amantes.
E Vinicius nos ensinou os versos de amor, a declaração de amor, o pedido amor. E nos deixou, ainda, o texto, maravilhoso, PARA VIVER UM GRANDE AMOR:
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.
Mas, eu pergunto, o que é o amor? Como defini-lo, descrevê-lo? E me socorro, então do maior poeta da língua portuguesa, Luís de Camões:
Romance de amor, de paixão, de flores e morangos com chocolate.
Romance do champagne estourando.
Semana dos namorados. Não gosto muito desse termo – namorados. Deveria ser semana e dia dos ENAMORADOS. Derivado de enamorar-se. Que significa apaixonar-se, encantar-se.
E disso a vida precisa, por ser sua essência maior: paixão, encanto.
Talvez nem fosse preciso existir esse tal dia dos namorados, porque para quem está enamorado, todos os dias são dedicados à pessoa pela qual se apaixonou. Apaixonar-se é ter a ideia fixa na outra pessoa. Amanhecer e anoitecer pensando nela. Sonhar acordado e dormindo com essa pessoa. Só sentir vivo em sua companhia.
E agora, daqui três dias, teremos o dia dos namorados aqui no Brasil. Em isolamento social. Hotéis, motéis e restaurantes fechados.
Muitos enamorados separados por milhares de quilômetros de distância sem possibilidade de pegar um avião ou um ônibus e ir ao encontro da pessoa amada.
Comercialmente um desastre (tentando driblar esse ponto, São Paulo abrirá o comércio no dia 10 e os shoppings no dia 11. Depois deverá fechar tudo de novo).
Emocionalmente, um tsunami de amargura.
Será o dia dos namorados menos comemorado desde os tempos de guerra. Mas se a paixão tiver feitiço, ela sobrevive a tudo.
Só espero que as paixões sejam fortes o suficiente para superarem todas as separações forçadas.
Para adoçar um pouco, despertar o sentido da paixão, eu me proponho a, nos próximos três dias, publicar aqui exclusivamente textos românticos, poesias apaixonadas.
E assim, ainda isolada e mascarada, completei a oitentena. Já cumpri duas quarentenas. Quando serei libertada????
Chego no banco – chaves, metais e celular na caixinha. Passo por porta circular detectora de metais, com a finalidade de ser impedida de entrar armada. E entro mascarada.
Pergunto ao vigia, também ele mascarado, meu velho e afável conhecido, que sempre me cumprimenta alegremente: “há três meses atrás, se eu chegasse aqui mascarada, o senhor me deixaria entrar?” Em meio a uma gargalhada ele responde: “nunca, doutora!”
Pois é, vejam a situação que essa pandemia nos colocou: todos os passageiros dos veículos, todos os fregueses na fila do pão, todos os consumidores nos corredores dos supermercados, mascarados. A máscara, usada como caricatura de assaltantes, agora nos foi imposta. Vou comprar uma espingarda de carregar pelo cano e sair por aí, armada e mascarada, como nos tempos do velho oeste.
Passo pela quitanda. Minha vez , na família, de fazer as compras. Pego meus “hortifrutis”, as encomendas da minha mãe, dirijo-me ao caixa para pagar, e começo a depositar as mercadorias que tiro do carrinho sobre a esteira rolante. Devidamente mascarada e banhada no obrigatório álcool gel (vai saber o que tem dentro desses vasilhames nas portas de todos os lugares).
Uma senhora, bem senhora, unhas feitas, cabelos cuidadosamente tingidos (estranhamente, depois de mais de 60 dias de salões de beleza fechados), muito bem vestida (tipo riquinha ostentadora), que está pagando a conta do outro lado, já na saída, começa a falar alto, meio gritado. Depois de alguns segundos, percebo que a perua está se dirigindo a mim. Pergunto: “é comigo” e ela, nervosíssima por trás da máscara, grita: “já mandei parar com isso. Pare. Pare já com isso”. Sem entender, pergunto: “com o que?” e ela: “pare de colocar as coisas no balcão. Saia daí e vá para trás, fique longe de mim!” (detalhe, eu estava mais ou menos a 1,20m da cidadã). Comecei a rir (por trás da máscara) e disse “Minha senhora, tudo isso é medo do covid?” Fica tranquila. Fiz o teste há três dias e deu negativo, não tenho coronavírus”.
Claro que ela não acreditou, mas ficou desarmada, porque respondi alto e todos ouviram. E tenho de relatar: era uma madame clássica, dessas que não faz pacote nem carrega sacola, então, a menos de 30 cm de sua excelsa pessoa, uma funcionária do estabelecimento recolhia a mercadoria e embalava para colocar no carrinho da fulana. Que, terminado o pagamento e o espetáculo, fez sinal para uma humilde mocinha uniformizada, mascarada e encostada na parede, que veio, deu o braço para a patroa e foi empurrando o carrinho de compras, porque madame que é madame sequer empurra carrinho lojas.
E não foi só comigo.
Padaria. Final da tarde. Fila do pão. Mocinha – mascarada – se distrai olhando o balcão de doces e dá uns passos inocentes. Um senhor – o masculino da minha madame – fica enfurecido e brada para a garota recuar e ficar a um metro dele, mostrando os riscos no chão, destinados a manter cada qual no seu quadrado. Constrangida, a menina se desculpa e volta para seu risquinho. Na saída, a garota já pagando, chega o guardião dos espaços, e vai por cima dela tentando pagar para sair logo. Não percebeu que para pagar também há fila e marcas no chão… só vale para os outros…
E assim vamos vendo, como em um imenso laboratório de ratinhos humanos, o que o isolamento está provocando no comportamento das pessoas. Prato cheio para a psiquiatria. Não sei se sempre foi assim, ou, se por estarmos todos usando máscaras, só os olhos visíveis, prestamos mais atenção ao olhar dos outros. E tenho visto olhares de ódio, de raiva, de pressa, de rancor… quase não vejo olhos doces ou sorridentes. A pandemia tirou o que há de pior e de mais egoísta de dentro de todos.
Alguns ingênuos pensam que a humanidade vai melhorar depois dessa doença. E eu me pergunto – “melhorar em que, cara pálida?”. O mundo vai piorar e muito. Desemprego, pobreza, falências, epidemias de outras doenças que foram descuidadas em razão da peste chinesa… para quem usa drogas e vê borboletas cor-de-rosa no teto, tudo está sempre bem, toda maneira de amar vale a pena, somos todos irmãos… mas para os que enfrentam a dura realidade, e, além da doença, estão vendo os empregos se evaporarem, as firmas fecharem, a miséria e a fome batendo à porta, esses não verão nenhuma melhora em razão do isolamento.
Infelizmente nem todas as pessoas que vivem nesse mundo vivem no mesmo mundo. Porque para uns esses mais de oitenta dias têm sido agradáveis férias estendidas e inesperadas. Para outros, não passa de desespero e insegurança quanto ao futuro.
A quarentena virou oitentena, dá mostras que passará da centena, e nós, como boiada confinada, aqui continuaremos, a maioria achando que o governo se preocupa com a saúde do povo e por isso o mantém enjaulado. “É para seu bem”, diz o carrasco ao colocar o capuz no condenado à morte. “É para seu bem” diziam os guardas aos judeus quando os levavam. “É para seu bem!” diz a esquerda quando substitui salário por esmola. E o povo aplaude e obedece.
O pior é aguentar quando aí vêm os pollyanas com sua filosofia – “Estamos todos no mesmo barco”. Ah, tá bom… hipocrisia descarada. Porque estamos todos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco.