Pedro, meu amigo

Tenho milhares de conhecidos. Tenho muitos colegas. Tenho alguns amigos.

Dentre esses poucos amigos, tenho o Pedro. Mais que conhecido, mais que colega e muito mais que um amigo. É como um irmão. Podemos conversar horas a fio e o assunto não acaba. 

Antigamente fumávamos juntos, hoje ele fuma sozinho, mas eu fico junto.

Bebemos juntos. Brigamos juntos.

Rimos juntos, cantamos juntos, choramos juntos.

E, sempre que podemos, estamos juntos.

Essa amizade é um esteio para minha vida. 

Publico, hoje, poema do Pedro, meu mais que amigo:

Chagas

(Pedro Hideite de Oliveira)

Silêncio e solidão,

Que habitam o meu ser.

Ferindo o coração,

Cansado de tanto sofrer.

Sofrimento e dor,

Faz sangrar os ferimentos.

Trazidos de um amor,

Vividos só de momentos.

Momentos que não se esquece,

Por mais não se queira lembrar.

Vem a noite e amanhece,

Tudo vai recomeçar.

Recomeça com a saudade,

E com ela a solidão.

Mas no dia em que forem embora,

Restará, cicatriz no coração.

Poesia da casa – Encontro

Por todas as vidas que estivemos separados

Todos os dias, todas as noites, todas as horas

Em que inutilmente tanto nos quisemos

E a distância impediu o nosso encontro

Não sei os atalhos por onde você foi, quais seus caminhos

Nunca soube onde procurar você, por isso aqui fiquei

Como cega, seguia meu caminho, sem sonho nem luz

Vivendo apartada do querer, na noite contínua.

Por tudo isso chegará um dia em que

Estaremos novamente frente a frente

Suas mãos ao alcance de minhas mãos

Encantados então nos abraçaremos

E à sua única pergunta responderei:

Não duvide, eu sempre estive aqui!

Poesia da casa – Versos soltos

 

 

Meus versos soltos flutuam e se perdem

pelos cantos da casa da minha alma

fogem impunes pelas frestas das janelas

ou se escondem atrás das pesadas mágoas

Tento, em vão,  capturá-los uma a um,

trazê-los de volta para a minha poesia

mas escorregam pelo tampo da mesa

correm pelo chão onde desaparecem,

e se confundem com as águas que caem

dos olhos em doloridos prantos sofridos

e derramados na hora derradeira

do último amor que aqui um dia habitou.

Dia de Poesia – soneto quarta-feira

Hoje é dia de Poesia, e Poesia, em primeiro lugar, para mim, é Vinícius de Moraes. A poesia-paixão, a paixão-loucura… 

 

SONETO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Por seres quem me foste, grave e pura 
Em tão doce surpresa conquistada 
Por seres uma branca criatura 
De uma brancura de manhã raiada 

Por seres de uma rara formosura 
Malgrado a vida dura e atormentada 
Por seres mais que a simples aventura 
E menos que a constante namorada 

Porque te vi nascer de mim sozinha 
Como a noturna flor desabrochada 
A uma fala de amor, talvez perjura 

Por não te possuir, tendo-te minha 
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

(Rio de Janeiro , 1941)

Dia de Poesia – Trecho

TRECHO

Quem foi, perguntou o Celo 
Que me desobedeceu? 
Quem foi que entrou no meu reino 
E em meu ouro remexeu? 
Quem foi que pulou meu muro 
E minhas rosas colheu? 
Quem foi, perguntou o Celo 
E a Flauta falou: Fui eu. 

Mas quem foi, a Flauta disse 
Que no meu quarto surgiu? 
Quem foi que me deu um beijo 
E em minha cama dormiu? 
Quem foi que me fez perdida 
E que me desiludiu? 
Quem foi, perguntou a Flauta 
E o velho Celo sorriu.

(Vinicius de Moraes)

Poesia da casa – Nada

Nuvens sem fim, escuridão

O céu desaparece e o nada é imensidão

Luz sem vida de estrelas mortas

No âmago da inconstância

Indefinidas formas se encontram

A vida, finita por natureza

Não pode conter infinitos

Amores também nascem para morrer

Tudo o que floresce, fenece

Das correntes nos libertamos

Para nos atirarmos dos rochedos

E morrer no mar

Nada permanece, nada é eterno

Cada minuto diminui sessenta segundos de vida

Só insensatos não entendem essa realidade

A sede de viver é proporcional à consciência da morte

Certeza absoluta nesse oceano de incertezas

Quando chega um momento certo

Verdes e azuis se tornam marrons e cinzas

E até a natureza parece soçobrar

De tudo aquilo que fomos, vimos e amamos

Então nada restará