Em nome da Pátria

Aqueles que tombam pela Pátria não morrem, mas se fundem a ela eternamente. (General Osório)

                                     

Olho a imagem – tristíssima – dos soldados trazendo o corpo do companheiro morto em batalha. Vejo em outra foto de hoje a imagem do presidente norte-americano diante do cortejo do retorno de outros soldados mortos nessa guerra insana. E penso porque o presidente dos EUA acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz mesmo estando em guerra com dois países.

Não entendo se o prêmio foi desmoralizado ou se é a própria guerra que está desmoralizada.

Matar está tão banal, declarar guerra é tão comum, que não impede o Nobel da Paz ao presidente de uma nação em guerra…

Recordo o filme O Retorno de um Herói.

O drama do oficial que resolve aplacar a culpa de não ter ido para a frente da batalha no ato de acompanhar o corpo de um soldado que morreu na longíqua guerra, do momento em que for entregue ao exército até ser finalmente entregue à própria família para o enterro.

Filme de rara poesia, impossível não se envolver e sofrer também.

O respeito com que o corpo é tratado pelos encarregados de prepará-lo. A forma como é carregado para os veículos, as cerimônias de passagem – tudo tocante, emocionante.

E finalmente a dor da família ao receber morto o filho que emprestaram – vivo – à pátria. Para que? Para ir lutar numa guerra que não era dele, talvez nem soubesse direito para onde e para que estava indo. E não voltou. Ou melhor, voltou, mas seus olhos nada viram.

Não viu o carinho com que seu corpo foi manipulado, a emoção que tomou conta de todos os compatriotas que em algum momento estiveram junto na sua última viagem, o drama do oficial que o acompanhou nem os olhos vazios de sua mãe ao receber o caixão.

Vem como um presente – um filho – o corpo de um filho – em uma grande caixa, com bandeira nacional, toque de silêncio, cortejo militar. Mas é um presente às avessas, porque, na verdade, nada está  sendo dado – nem mesmo estão devolvendo o filho emprestado, mas sim enterrando o sonho de uma vida.

Até quando, me pergunto, até quando os homens continuarão a declarar guerra para mandar os filhos alheios morrerem. O homem não evoluiu tanto quanto pensa. Apenas mudou as armas: não joga mais pedras, não usa mais clavas, mas poderosas e mortíferas armas desenvolvidas por cientistas. E hoje a guerra é mostrada via TV ao mundo ao vivo e em cores.

Mas, no íntimo, no funcionamento do cérebro, realmente o homem ainda está na idade da pedra.

(31.10.2009)

Caminhos pisados

Passo em ruas passadas, conhecidas, tão já vistas e caminhadas. Periodicamente tudo muda. Lojas adoráveis se fecham. Nunca mais abre nada no lugar, fica aquele vazio feio, todo pichado, no meio dos outros. Outras, feias e sem graça, se fecham e ali se abre um nova loja linda, atraente, que alegra o local.

Muitas são imprescindíveis, e um dia suas portas permanecem cerradas. Ela se foi. O que vem no lugar não traz a mesma utilidade. Ou o contrário.

A verdade é que tudo muda. O que foi já não é, se tinha, já não tem… e temos de continuar vivendo e tocando nossa vida da mesma forma, como se nada fizesse parte dela.

Sempre esperando que tudo melhore, que venham boas pessoas, ótimas lojas, excelentes prestadores de serviço. Mas nem sempre é assim.

Isso nas ruas pelas quais caminhamos.

E na vida, os caminhos do coração? Acontece a mesma coisa…

Passamos sempre os mesmos atalhos já pisados, e pessoas que ali estavam já se foram. Outras – piores ou melhores – vieram para ocupar esses lugares.

Algumas pessoas são tão especiais, tão insubstituíveis, que o lugar que deixam dentro de nós ficará vazio para sempre.

Outras nós temos de tirar à força dali pelo mal que nos está causando e ficar na esperança que seu lugar seja preenchido por alguém que mereça estar em nosso coração.

Mas o mais triste são as pessoas que julgamos maravilhosas e insubstituíveis, que, simplesmente, num de repente qualquer da vida, saem de nosso coração e desaparecem.

Personal killer – escrito em 20.06.2012

 – Faz mais uma vez…

– Só mais três…

– Só mais dois…

– Aguenta mais um pouquinho, só trinta segundinhos (como se existissem segundões, segundos e segundinhos)…

E assim Fabrício – o personal killer – vai me alongando…

Acho que depois de cada sessão de ginástica fico um pouquinho mais alta…

É um tal de puxa daqui, segura dali, respira fundo, solta o ar devagar, contrai musculatura de um lado, sente puxar musculatura do outro…

E vamos mais uma vez, começa tudo de novo.

– Agora equilíbrio…

Pensam que é fácil se exercitar sobre uma perna, trabalhar a outra perna no ar, quase flutuar, pensar que conseguirá voar um dia???

– Sentiu a perna? então inverte, agora com a outra…

E agachamento… sentar sem cadeira…

– Vamos lá, vamos fazer vinte repetições hoje. Segura mais tempo na última, respira fundo.

– Ótimo! (que delícia ouvir esse Ótimo! – significa que aquela parte do matadouro foi superada).

– Trabalhando o adutor, força no adutor.

Êita músculo difícil de ser alongado…

– Só mais um segundinho, vamos lá…

– Sentiu puxar?

E assim eu sigo, semana após semana, alternando a ginástica com as diárias caminhadas, que é a parte aeróbica e que eu mais gosto.

Mas além de brasileira sou corinthiana, por isso não desisto nunca.

E, depois de um bom banho relaxante, a sensação é que, além de crescer um pouco, alguns gramas me abandonaram, fico mais leve.

Só não consigo entender pessoas que dizem detestar ginástica. Não sabem o que perdem…

 

É primavera!

Exatamente hoje, às 4h50, iniciou-se a primavera. A mais romântica estação do ano.

Por que hoje? Por que às 4h50? Quem marca esses dados? Algum instituto, onu, nasa, ongs? Não. O início da primavera é marcado pelo famoso desconhecido equinócio – definido como “momento em que o Sol, em seu movimento anual aparente, corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração.”

Ou seja, põe fim às longas noites do inverno.

Precisamos do inverno. A terra repousa, a temperatura cai, a natureza se recolhe. O sol – especialmente no hemisfério norte – já não é tão frequente. Mas, por mais que se aprecie o tempo do inverno, sem dúvida alguma também necessitamos que ele acabe e o calor volte, a terra renasça e a natureza se torne exuberante.

Esse o equilíbrio do clima. Esse é desenrolar natural da vida.

E então entramos na primavera. Com muitas promessas no ar – novas chuvas, novas safras, novas paixões. A vida renascendo em todos os sentidos.

E a poesia das flores e dos pássaros a enfeitar a natureza.

Ela não dura para sempre. Chega a seu fim, inexoravelmente, em 22 de dezembro, para dar lugar ao verão.

E quando acabará a doce primavera? No domingo, 22 de dezembro, à 1h19. Quando ocorrerá o solstício – “na astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador.”

Mas o mais romântico da primavera, na minha opinião, são os fenômenos que a delimitam: a primavera se inicia no equinócio da primavera e vai ate o solstício de verão.

Sua efêmera duração é de um equinócio até um solstício. Isso, por si só, é poesia.

Construindo a saudade

A saudade paira no ar como paina depois da florada. Cada um carrega em si suas próprias saudades. Mas o caminho para as possuir é igual para todos – temos de construir as memórias para então surgir a saudade.

Plantamos uma árvore e dela cuidamos com dedicação. Um dia ela amanhecerá florida inundando nossos olhos com tanta beleza. As flores cairão, mas na nossa mente, para sempre, ficará a lembrança da explosão de beleza que nossa árvore nos proporcionou.

Assim é a saudade. Ela só surge depois que fomos felizes. Depois que uma paixão explodiu no peito. Que um amor ardente foi vivido. Não há saudade do triste, do luto, da infelicidade. A saudade fica do que nos tocou no campo das emoções, como cordas de violinos, tirando os sons mais celestiais.

E ainda tem de haver distância. Não temos saudade do que nem de quem está próximo. Precisamos que um tempo se passe desde que tudo aconteceu para que surja a saudade. Precisamos que as pessoas amadas se afastem e se distanciem para então sentirmos saudade.

Feliz de quem tem saudade. Feliz de quem tem do que ter saudade.