Escolhas

Devine, si tu peux, et choisis, si tu l’oses (Pierre Corneille)

 

Quando a estrada se parte

E se tem de escolher um outro caminho

O coração dentro do peito se aperta

Entre a poeira conhecida do que já foi

E a luz do novo que virá

Onde estarão as flores nessa nova caminhada?

Onde a estrada será feita apenas de  pedras agudas

A nos lanhar os pés já tão cansados

De tantas caminhadas que já tivemos?

Todo o vazio da nossa existência

Que drenou a vontade de continuar seguindo

Súbito se torna intransponível

E vem o medo de assumir a escolha

Viver é difícil! Escolher é difícil!

Setembro

E setembro voltou…

Trazendo chuvas que prenunciam o retorno de um novo verão, levando os ventos que se foram com agosto…

Setembro, primavera, sensação de renovação da vida.

Ainda que já não mais tenhamos as estações bem definidas, ainda que hoje exista o recurso da ciência de proporcionar frutas e flores temporãs, mesmo assim há o que celebrar.

Porque alguns aspectos da natureza jamais serão alterados, nem pela ciência nem pelo chamado aquecimento global, talvez nem por outra era do gelo: setembro, o tempo de acasalamento dos pássaros.

Todos começam a procurar os locais para fazer seu ninho em meados de agosto. Agora, a partir de setembro, veremos as danças, os pios, os cantos, os voos de namoro, a explosão de beleza, a exibição de cores e plumagens e tudo o que têm a seu dispor para atraírem as fêmeas, na eterna roda da preservação das espécies.

E logo todo amanhecer será uma sinfonia de cantos e pios. E a cidade se tornará mais alegre, e os homens – aqueles que ouvem pássaros e não têm coração duro – sorrirão ao alvorecer, quando a serenata começar em torno de suas casas.

Teremos tempestades? Sim, muitas. Como na vida, não há bonança antes do temporal, não há arco-iris antes da chuva, não há felicidade sem alguma tristeza… Mas é novamente setembro: começa a época de grandes chuvas e temporais. Vendavais, raios e trovões.E ar lavado, e arco-iris e renascimento do verde. Isso é natureza, e nada mais lindo que um dia de chuva.

Mesmo que tenhamos de abrir mão de alguns programas ao ar livre, nada melhor que aproveitar as tardes chuvosas para nos sentarmos nas varandas e contemplarmos o doce cair da chuva.

Se for possível andar na chuva, melhor ainda. Caminhar lentamente, deixando a água escorrer, chapinhar nas poças, ir contra a enxurrada e, como crianças que um dia fomos, sentir que estamos em plena comunhão com a natureza.

Tudo isso nos traz setembro.

Seja bem vindo de volta, setembro, e que venha até nós a primavera da vida, e que ótimos ventos você nos traga!

Texto de Piátnitsa Melo

Algumas vezes penso que ele conversou comigo antes de escrever…

 

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 É-me impossível fugir da essência incandescente e frágil que me liga a ti. É algo que tento controlar, mas que me descontrola, sempre que penso em ti.

A cada dia, acresce uma nova esperança e a ilusão fantasiosa, que se forma, em meu ser, me envolve e me queima por dentro, como de um desejo incontrolável se tratasse, por doer tanto. Mas o amor é assim e penso que a todos acontece, sentir a ilusão de amar quem ainda não nos amou… sentir o terno abraço, de quem nunca nos abraçou… sentir preciosos momentos de pura ficção, como algo que estivesse a ser vivido, mas, que, infelizmente só é sentido em flashes de distração que se formam em meu subconsciente baseados na esperança de um dia tornar real todo este sonho que coabita dentro de mim, ao qual, se me tornou, inevitável escapar.

É um sentimento que começou com escassos segundos, que se duplicaram; se treplicaram; mas que agora se apoderaram e me mortificam, de dia e de noite, como que, pensar em ti, seja o único comprimido capaz de serenar minha alma e contagiar meus sonhos, ao ponto, de me perguntar, a sonhar, se de facto estou a sonhar, por serem reais de mais, para que sejam sonhos.

Ao mesmo tempo, esta ilusão irreal, de te amar, que se torna real quando perco o controlo da consciência, é um fenómeno tão envolvente e tão fascinante, que mesmo não existindo, nada em concreto, a não ser esta compreensão errada da mente, de um dia, tu e eu e eu e tu, nos pertencermos, me faz feliz.

Talvez reveja em ti, o que já vivi?

Talvez seja o passado a fundir-se com o presente e tu sejas a mesma em outra vida, mas que para mim és a mesma que já amei e continuo a amar, duas vezes, numa só vida? Tudo prova, que és tu que tanto amo, mas que tanto me assusta, te amar, por não ter como provar, o que os dois juntos já vivemos. Há coisas que nunca te poderei explicar! Palavras que nunca te poderei dizer!

Momentos, que só eu poderei reviver e que tu apenas, poderás desfrutar. Ápices, de um passado, vivido a dois, que se cruza com o presente, único para ti, mas não para mim, mas que se funde com o presente do amanhã, como só de um momento se tratasse, em tua vida. Conhecimento que não te posso revelar e o qual daria tudo para não saber, porque é um saber que me faz sofrer.

Apenas te quero dizer, que te amo, porque já te amei e também me amaste, mais que a tua própria vida, e que me continuas amar, contra a tua vontade, por não saberes, descodificar, o laço de afinidade que te prende a mim…

Mas, o amor, não é para descodificar nem compreender. Apenas se deve deixar acontecer, e é isso que eu espero que um dia aconteça, entre mim e ti, entre nós dois, comigo e contigo. Sim! Eu e tu, juntos para sempre, nos amando, sem querer saber, qual a razão, que nos une eternamente..

 

Do vento

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

 

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades?

Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento.Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá. Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento. Sua essência é a liberdade.

Aldravias

Ontem a querida amiga Ana Maria Tourinho apresentou-me às Aldravias. Apaixonei-me.

Leio e releio seu lindíssimo Desfolhando Aldravias – e deleito o olhar – a fotografia primorosa do livro é simplesmente maravilhosa.

Penso nos Lusíadas e outros poemas épicos. Penso em Castro Alves e outros poetas clássicos.

Penso nos sonetos e em Vinicius de Morais.

Lembro-me dos haicais e Guilherme de Almeida.

Agora são as Aldravias, nova forma poética, trazida pela poetisa Andrea Donadon Leal…

“O máximo da poesia, no mínimo de palavras”

Seis palavras. Um poema:

                   conto

                   poema  

            prosa – poética

                   trova

                 aldravia

               inspiração

 

E ainda:

 

                 caneta

                    na

                  mão

                ideias

              brotam

              escrevo

 

Desafiou-me. Apresentei minha primeira Aldravia. Apaixonei-me.

                aldravia

                  verso

                  ideia

                poema

                 nova

                poesia

Não sei o que será de meus poemas e sonetos. O que será de meus haicais e trovas…

 

 

 

Despedida

A outra face da moeda do encontro – as mãos que um dia se encontraram e agora se separam.

A roda da vida que não para. E o que esteve junto já não mais permanece unido.

Tudo o que era já não é.

E suavemente as mãos se separam. Sem ódio nem rancor. Com o mesmo carinho com que se uniram e a mesma ternura que as ligaram.

Apenas agora cada uma seguirá sozinha e levará consigo o perfume da lembrança da outra.