Viajando com os olhos…

Hoje estou com muita preguiça de escrever.

Vim até o escritório, comecei a ver fotos antigas nos arquivos de imagens.

E viajei. Viajei pelos lugares conhecidos, onde já estive e me apaixonei perdidamente.

Sempre amei Paris. Desde antes da primeira vez em que caminhei por suas ruas e avenidas, como se estivesse estado sempre lá. Há uma Paris dentro de mim e estou em casa naquela cidade mágica.

Assim foi com Praga. Quando cheguei lá, já a conhecia, ela já vivia em mim. Outras cidades despertam a admiração – por exemplo, Budapeste, a cidade mais bonita que já vi. Mas não a sensação de pertencer àquele lugar.

Durante muitos anos tive uma amizade forte com uma freira italiana, Irmã Silvana, a quem dedico imenso amor.

Ela sempre me dizia que eu pensava conhecer lugares bonitos, mas só poderia dizer que fui onde é realmente belo, depois de ir ao sul da Itália. Eu ria. Amava o norte. O que poderia ser mais bonito do que Cortina d’Ampezzo, no Veneto? ou de tudo na Toscana? ou do Lago di Como, na Lombardia? Ou Lago da Garda, no Trentino-Alto Adige? Ou todos os caminhos do Vale d’Aosta? Cada lugar mais maravilhoso do que o anterior…

Irmã Silvana tinha razão. Eu só conheci a beleza intensa quando cheguei no sul. E conheci a Campânia. A começar de Nápoles. A cidade e a natureza que a circunda. E Capri. E a Costiera, a Península Sorrentina e tudo o que os olhos conseguem absorver de beleza. A mão de Deus está no sul da Itália. E, no meio de tanta beleza, minha pequenina Sorrento. Eu conhecia aquelas ruas, já andara por aqueles becos, muito antes da primeira vez em que lá estive.

Eu já sentira o perfume dos limoeiros em flor, já sentara nos penhascos olhando o Vesúvio, desde muito antes de chegar nesse mundo.

E, confesso, é tanta beleza que a vontade é ir e nunca mais voltar.

Há lugares lindos em todos os países, em todos os cantos do mundo. Menos na Itália. Procure de Manarola a Alberobello, passando por todos os lados e todas as ilhas: lá não “há lugares lindos”. Lá – a Itália – é simplesmente o lugar mais bonito do mundo.

É assim que é

Quem vai dizer ao coração, Que a paixão não é loucura… (Oswaldo Montenegro)

 

 

O que é mais bonito – ver a montanha da planície ou escalar a montanha e ver a planície lá do alto?

Acredito que a montanha vista da planície é a visão mais linda que se pode ter da montanha. Mas escalar a montanha dará como prêmio, a vista da planície e do horizonte.

São ângulos completamente diferentes. Não é possível comparar.

Deitar na grama e olhar o céu, o leve movimento das nuvens, fitar o azul profundo. Não é a mesma visão que se tem de quando se está “no céu” – as nuvens são diferentes. A Terra não é de uma só cor.

Quando um olha para o mar, vê o mesmo mar que o outro está olhando? Ou enquanto um olha as espumas, o outro só vê a linha que o separa do céu?

Assim é a vida. O que um vê não é o que o outro vê. Mesmo que estejam, lado a lado, olhando para o mesmo objeto.

A experiência, as dores, os amores, as frustrações e as alegrias de cada um o faz ver tudo de forma personalizada. Cada um vê o que olha e não pode enxergar o que o outro vê.

Por isso tão difícil a convivência.

Não se pode esperar receber o que se dá – seja amor, seja atenção, seja carinho. E nunca se sabe o que o outro espera.

Coisas indizíveis, que se quer sejam dadas por mera adivinhação.

E a quebra das expectativas aumenta a cada dia.

As pontes se vão na torrente das pequenas desilusões, que, unidas, fazem caudaloso rio.

As portas se fecham.

E a distância se impõe.

Como a nuvem que se dissipa lenta e quase imperceptivelmente, a paixão se esvai. E um dia se percebe que todo aquele tsunami de sentimentos desapareceu, ficou só o fundo azul do céu, que já escurece no prenúncio da noite existencial.

Em busca de ser feliz

Era tanta tristeza, que um dia a vida me falou: “é hora de ser feliz! Venha!!!!!”

E fomos em busca da felicidade.

“Para se sentir feliz, em primeiro lugar é preciso ter paz”, disse ela. Escalamos montanhas, atravessamos desertos e vimos o sol nascer na África.

Vimos o sol se pôr no Oceano Pacífico.

Vimos a lua entre as montanhas dos Andes.

Ficamos no branco eterno do Mont Blanc.

No silêncio do voo do Condor.

E encontramos a paz.

Com o coração em paz era hora de continuar a busca pela felicidade.

“Para se sentir feliz, também é preciso ter os olhos preenchidos de beleza”, ela disse.

Fomos para a praia ao amanhecer. Caminhamos na areia ainda úmida. Quando o sol se levantou e aqueceu a imensidão de água, ali mergulhamos e nos deixamos levar pelo mar, doce amigo tão salgado.

Os olhos se enchiam das maravilhas daquele mar sem fim. Era hora de partir e ver a natureza pura, as cores da terra e das matas, e “l’aurora di bianco vestita”.

“Para ser feliz é preciso ouvir a música da natureza”, ela falou.

Fomos para floresta. O barulho dos animais noturnos, o chilrear dos grilos e os gritos das corujas, a algazarra dos animais do final da noite e então o canto dos pássaros no alvorecer. A alma estava em paz…

“Para ser feliz é preciso dançar”, ouvi então.

E fomos para a Grécia onde dançamos o hasapiko, percorremos toda a costa do Mediterrâneo, entramos na Itália, aprendemos as danças napolitanas, fomos para o norte, dançar com os cossacos e depois à Baviera aprender a dançar holzhacke.

Chegamos às Américas, aprendemos dançar rumba, samba, tango, salsa, bolero e mambo…

E enquanto dançávamos, cantávamos, ríamos e nos divertíamos.

E foi tanta alegria, nessa busca da felicidade, que eu me esqueci porque estava triste.

Metamorfose

Vivia encolhida, sem luz, sem ar. Presa na armadilha que o destino lhe preparara. A insegurança a dominava, limitada ao escuro da existência sem futuro, sem alegrias.

Mas, em seu âmago, crescia um sentimento novo: uma paixão ardente, descontrolada, que, naquelas condições, não podia ser vivida.

Subitamente sentiu que era hora de romper com tudo que a limitava. Porém, enfrentar o desconhecido poderia significar sua morte. Não podia ter certeza se sobreviveria.

                                            

De certa forma, morreu ali mesmo, porque, ao romper o casulo que a prendia, a pesada lagarta, feia e disforme, perdeu sua existência, no exato instante em que, colorida, leve e cheia de alegria, a linda borboleta alçou seu primeiro voo.

Meu coração

“Se for caminhar no coração do outro, recomendo que vá descalço. Coração é solo sagrado”

Hoje li essa mensagem. E fiquei pensando.

De que é feito meu coração? Não esse órgão que mecanicamente pulsa e bombeia o sangue, tudo fisiologicamente explicável e controlável.

Falo do centro da minha paixão, o que pulsa e bombeia sentimentos, emoções. Tudo o que me tira o chão, me eleva ao céu, me mostra o inferno, me faz sentir, me traz alegria, me faz triste, descarrega toda essa adrenalina, desperta o desejo, faz querer viver – ou morrer…

Pergunto, novamente: de que é feito meu coração?

Meu sofrido coração é um caminho encantado. Nem todos que por aqui passaram mereciam caminhar nesse solo sagrado.

Ele é pavimentado de nuvens de carinho. Fontes inesgotáveis de ternura o mantêm aquecido. E os pés que o percorrem são abençoados e acolhidos no amor.

Mas é muito sensível. Sempre pronto a sangrar, ao menor descaso. Como uma taça prestes a entornar, tudo o machuca e transborda.

A cada dia que passa mais ele se torna vulnerável. As desilusões o tornaram assim. Sofrido. Dilacerado. E, o pior de tudo, é que ele está se fechando. Já não quer outros pés aqui caminhando, aqui buscando luz e calor, para depois se ir subitamente, deixando-o vazio de amor e preenchido de velhas marcas de pegadas.

Porque quem se foi não se preocupou se estava deixando suas pegadas para sempre fixadas nesse piso de nuvens e amor.

E agora esse velho coração se confunde, doído e marcado, por tantas ingratidões que o atravessaram.

Quando caminhei pelos alheios corações talvez também tenha sido ingrata e saído sem me despedir, deixado marcas entristecidas da falta de carinho. Não foi intencional.

Mas acho que agora será difícil que voltem a caminhar nesse meu coração. Porque ele, cheio de amargura, se fecha para novos pés. Ainda que doces, leves e amorosos. Os caminhos se esgotaram.

Ressignificação

calma (s.f.)

é aquilo que me passa a sua voz. é quando o coração acha conforto. é a alma acomodada no próprio corpo. é respirar de um jeito bom. é fruto que se colhe de bons conselhos. é quando a gente olha para a nossa essência, não para um espelho. é se importar de menos com quem quer demais da gente.

é alma com c.

sorriso (s.m.)

é quando a felicidade transborda pelo rosto. é quando eu sei que estamos bem. reflexo do nosso coração quando vemos alguém especial. objeto utilizado para evitar perguntas desnecessárias sobre nossa vida quando estamos mal. o seu é tímido, o meu é desbocado, mas se a gente sorrir junto vira poesia.

é a roupa mais bonita do nosso rosto.

distância (s.f.)

é o que tem entre Brasília e Juiz de Fora. é grande demais para caber em mim. aquilo que inventaram para separar a gente. relativo ao tempo. é o que faz o perto ficar longe. espaço que o avião atravessa para a gente se encontrar. quando criança, media em passos, hoje meço em dias.

é lenha que aumenta o fogo da saudade.

 

(de “o livro dos ressignificados”, de João Doederlein)