Pequena brisa

Pequena brisa que queria ser vento

Soprava forte, soprava alto

Mas nada conseguia derrubar

Nem as folhas das roseiras secas

Buscava toda a força dentro de si

Mas seu sopro, sem calor suficiente

Não bastava para torná-la vento

Então a pequena brisa entendeu

Que precisava crescer para ventar

E crescer implicava em se apaixonar

Amar, perder e então sofrer

Porque se não sofrer não vai crescer

E a pequena brisa, entristecida

Recolheu-se no abrigo da grota

E ali chorou por se sentir tão fraca

Ela, que queria ser tão grande

Chorou tanto que a grota umedeceu

Solidária também chorando a pequenez

Da gentil brisa que ali se abrigava

Dentro da grota úmida e triste

A pequena brisa não percebeu

O quanto crescia em seu sofrimento

Até explodir em si a necessidade

De se lançar no espaço inteiro

E então compreendeu, que finalmente

Era um forte vendaval, que tudo carregava

Transformara-se, assim, no vento que sonhava ser.

No trânsito

Um milhão de preocupações. Enquanto espero o semáforo ficar favorável, mentalmente faço a lista do que já fiz e do que ainda falta fazer. A fila anda. Dez metros e para tudo de novo. Sinal fecha novamenteo. O dia é curto para tanto afazeres. Preciso ir ao banco, ao correio, ao cartório, à fisioterapia, ao mercado, almoço para fazer… e parada no semáforo, como se estivesse tudo feito a tempo…

Vida moderna. Só se corre. Não importa sua disposição. Sua necessidade. Sua vontade. Seu tempo não é seu. O que importa é dar conta de tudo.

No veículo ao lado, emparelhado com o meu, a garota-motorista canta a plenos pulmões junto com a música que toca em seu carrinho moderno e lindo.

Linda ela também. Além da beleza própria da juventude, a alegria do canto e a liberdade que deve estar sentindo em seguir sua vida dirigindo o próprio carro – sinal que já está começando a dirigir a própria vida – lhe dá um plus em beleza.

Fico encantada vendo sua leveza e sua alegria. Parece se divertir com o engarrafamento. Ou não tem horário para chegar, ou não tem compromissos para cumprir.

Apenas curte o momento. O trânsito parou? Ótimo momento para se cantar, parece pensar.

E canta. E com a mãos segue o ritmo batucando sobre o volante.

Não sofre de passado mal resolvido, não sofre de futuro que não está conseguindo resolver. Apenas vive o presente. E o presente é um baita engarrafamento causado por obras na pista e excesso de veículos circulando.

Ela está certa. Não dá para sair voando. Não se pode passar por cima dos outros. O jeito é curtir o caos.

Ligo minha música, uma hora conseguiremos sair desse trecho congestionado, e, mais contida talvez pelos anos já vividos, canto internamente…  

Abelha ou escaravelho?

Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu. (Roger Martin du Gard)

Leio essa frase e começo a pensar sobre seu significado.

Quem é abelha, quem é escaravelho?

Pela leveza, beleza, pela doçura que produz, a abelha parece mais atraente. Pela alegria do voo, pela diversidade de flores com que se relaciona, pelo companheirismo que existe na colmeia – nunca se viu uma abelha abandonada, morando sozinha num favo, morrendo de solidão, aparentemente a vida da abelha é bem mais confortável.

 

Do outro lado temos o feio e pesado escaravelho. Que, logo à primeira vista, assusta. Causa asco e pavor.

Que bicho feio!

Antissocial – prefere se enclausurar e morrer de tristeza, privações e solidão dentro de uma única rosa.

Parece tão simples a escolha: ser abelha é viver feliz, trocar de parceiro para buscar novo néctar na vida sempre que desejar, viver em uma feliz e pacífica comunidade, onde todos se unem ao esforço comum de produzir mel. Que beleza!!!!!

Como a vida seria simples e bonita se fôssemos abelhas!

Mas, na verdade, nós preferimos ser escaravelhos. Nossas escolhas sempre nos levam a essa opção.

Quando nos apaixonamos, ficamos cegos ao mundo. Entramos na nossa paixão, a elegemos como a “nossa rosa” e ali ficamos. Não conseguimos ter discernimento suficiente para perceber quando essa paixão minou, acabou, nada mais nos oferece mas tudo nos suga.

Não nos damos contas das pétalas da paixão agonizante se fechando sobre nós, abafando, estrangulando, tirando nossa capacidade de respirar.

E insistimos em permanecer num relacionamento falido, que tira nossa alegria de viver, que nos faz desistir da vida tentando recuperar um sentimento que não mais existe.

Porque o encanto da paixão só acontece uma vez.

Quando vimos a “nossa rosa” e nos atiramos, e a amamos, e morremos de paixão por ela, era um sentimento vivo, que nos dava a vontade imensa de viver e curtir essa realidade tão maravilhosa.

Mas na hora que a paixão ficou só com o escaravelho, e a rosa apenas o suga e abafa até a morte, deixando de ser flor e se tornando serpente com seu abraço fatal, não compensa insistir em continuar carregando esse espectro do que um dia foi a razão do próprio viver.

E concluo, então, que por mais que queiramos ser abelha, quando a paixão nos cega, na verdade, nos tornamos, por livre e espontânea vontade, o escaravelho que morrerá nos braços de sua rosa.

Felicidade

Tenho certeza que a felicidade está chegando. Há tanto ela se foi, que já é hora de estar voltando. E há de chegar logo aqui.

Todas as portas estarão abertas. Ela entrará sem pedir licença, apenas surgindo aqui da mesma forma que um dia se foi sem se despedir. Vamos brindar dias e dias, noite após noite. Embriagados por todo esse sentimento, dançaremos e cantaremos a alegria da volta da felicidade.

Faz tanto tempo que ela foi embora, não disse que era para sempre nem que demoraria tanto a regressar a nossa casa. E ficamos esperando, a cada dia, a cada hora. E a espera foi tanta que até nos esquecemos como é viver com felicidade. Fomos, aos poucos, nos acostumando a viver sem ela. E nem notamos como nossa vida se acinzentou na tristeza que tomou todos os espaços deixados para trás pela felicidade.

A saudade da felicidade se tornou angústia e depois esquecimento.

Mas agora eu sei que ela está voltando. Já sinto sua vinda, ao longe, porque as luzes estão mais claras, as cores mais nítidas, o coração sobressaltado, derramando adrenalina a cada toque do telefone, a cada alarme de mensagem. Eu sei, tenho certeza, é a felicidade que está voltando.

A tristeza ainda tenta se agarrar a cada pedacinho de mim, como se avisasse que não me deixará jamais. Ela até pode ficar, mas ocupar apenas seu pequeno espaço do meu mundo, porque quando a felicidade chegar, vai inundar meu ser, todos os poros, todas as células e moléculas. E eu serei a própria imagem da felicidade.

A felicidade sempre volta. Basta esperarmos e nos abrirmos para sua chegada.

Da paixão

 

As tempestades não duram a eternidade. Assustam, destroem, mudam a paisagem, mas passam. Nada – nem ninguém – tem o poder de deter o vento. É uma das manifestações da natureza mais assustadora que existe.

Da mais suave e agradável brisa, até as grandes tormentas, furacão, ciclone, tornado, tufão… o homem, em toda sua arrogância, ainda não descobriu como amainar o vento. Não evoluiu nada em relação aos primatas das cavernas que temiam a natureza e não a entendiam. Hoje sabemos tudo sobre a natureza, menos como conviver harmonicamente com ela. Conseguem até prever a intensidade dos ventos, sua trajetória e seu potencial destruidor. Mas não passa disso. E a humanidade continua enfrentando e temendo vendavais.

Mas chega um momento em que o vento se vai. Para onde? Não sei. Como não sei de onde veio tanta fúria, tanto arrebatamento. Ele vai ganhando força. Vai tomando tudo, dominando, carregando, destruindo… de repente, passou! Vamos ver os estragos e tentar recuperar as perdas.

Assim é uma tempestade: surge do nada, de um lindo céu claro, do mais profundo azul. Nuvens brancas e fofas, de algodão, tudo paz. Do nada, do mais completo nada, uma brisa se torna vento. Esse vento se fortalece, alimentado sabe-se lá do quê, e começa a tempestade. Que, por mais assustadora, é, paradoxalmente, fascinante. Nada mais lindo que o vento dobrando árvores, raios marcando o céu, nuvens passando apressadamente para chegarem a lugar nenhum.

Em um momento, tudo se assossega. E volta a calma, o domínio, cada coisa recupera seu lugar, tudo retoma à anterior normalidade, como se nunca tivesse existido essa tormenta.

Assim é a paixão.

Chega como uma brisa. Mas toma força de vento. E venta. E arrebenta reservas, comportas e janelas. E se torna mais forte, como um furacão remexeu todos os cantos de cada ser. Derruba conceitos e telhados. Abala bases e alicerces. Revirando tudo o que havia dentro da alma.

De uma simples palavra, de um gesto banal, um sentimento que é menos que uma brisa, toma o peito de assalto, torna-se um temporal indomável, domina o pensamento, o sentimento, o querer, e faz querer viver.

Mas passa. E faz querer morrer. Faz-se, então, o rescaldo e para ver o que sobrou dentro do peito, o que ainda resiste. Porque tanta ternura se perdeu, que nunca mais poderá ser recuperada.

É hora de se separar cacos de peças recuperáveis. Tentar remontar um bem-querer para ter algo, ainda, a oferecer, ou a perder na próxima tempestade. Que virá. E de novo fará bagunça, misturando sentimentos, destruindo o que parecia forte e resistente. Mas também passará… a capacidade de se apaixonar de novo é admirável.

Toda a dor é esquecida e se fica pronto para o novo arrebatamento, da mesma forma que a natureza se recupera e perde a memória do vento antes da próxima tempestade.

A paixão é a tormenta da alma.

Brilhos da noite

Final de tarde. As lâmpadas da praça se acendem. Automaticamente.

Para onde foram os acendedores de lampiões? Será que estão jogados em pátios de materiais obsoletos descartados, juntamente com os lampiões?

Quando o céu perde toda a luminosidade do dia, a lua acende as estrelas – muito, muito antes dos obsoletos e descartados lampiões, a lua já acendia as estrelas. Desde sempre, quando anoitece, a lua vem com um pacote de pirilampos, e os solta no veludo escuro do céu noturno. 

Se estivessem mais perto das destruidoras mãos humanas, já não mais existiriam – nem lua nem estrelas. Teriam sido substituídas pelas aberrações criadas por mentes perversas, que pensam substituir a natureza com plásticos e sintéticos.

As noites já não são as mesmas – não se ouvem corujas nem grilos. Só se ouvem gritos, sirenes e tiros. Vagalumes ou pirilampos? Nem se sabe mais o que é isso. Os pisca-piscas hoje são artificias, neon, led e outras bobagens, que somam montanhas de lixo pelo mundo afora. É tanta luz artificial, que as estrelas não brilham.

Saudosismo? Não. Apenas vontade de ver estrelas brilhando

E disse Fernando Pessoa:

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?