Alma cigana

Que correria no dia-a-dia. Mas me mantenho firme no propósito de postar aqui diariamente.

Enquanto conseguir…

Trabalho, família, escritos, quatro casas para administrar…

Por viver essa vida tão corrida e sem rotina, recebi há algum tempo o título de “administradora do caos”. Não me ofendi.

Pensei que, se conseguir, realmente, administrar o caos, já estarei fazendo muito.

Porque não é fácil não morar de verdade em nenhum lugar, não ter parada, ficar indo de um lugar para outro, vivendo à moda nômade.

Sou cigana do século XXI. Cigana do Terceiro Milênio.

Lembro-me dos belos ciganos húngaros e me pergunto se algum dia voltarei lá, para jantar novamente num sítio nos arredores de Budapeste, vendo a neve caindo suavemente sobre o azul Danúbio.   

E, depois de saborear um inigualável goulash original, feito por mãos ciganas, acompanhado de vinho feito em casa naquele sítio no meio do nada, passar o resto da noite dançando as danças típicas com uma família cigana.

Não sou desse tipo de ciganos, aqueles que têm sua pequena propriedade e passam a vida morando no mesmo lugar.

Talvez tenha, na verdade, raízes nômades de outros lugares, das tribos de beduínos que atravessam sem cessar os desertos, a procura de tudo e ao encontro de nada.

O silêncio do deserto me atrai. A solidão também. Mas não o calor.

Ou apenas carrego nos ombros mais do que posso realizar, então fico nesse vai-e-vem cumprindo agendas alheias, tentando dar conta de três ou quatro vidas em uma.

Mas aí teria de somar todas essas vidas aos meus já tantos e tão cansado anos e seria muito velhinha para estar dando conta.

Então continuo só tentando entender porque não consigo parar numa casinha de porta-e-janela e ali plantar meus temperos e minhas flores e ficar sossegadinha em uma cadeira de balanço, sonhando o que já foi e esperando, com tranquilidade, a morte chegar.

 

De cinema

                                       Assisti – revi, ou, melhor dizendo revivi – ao filme Os Girassóis da Rússia. 

                                Uns quarenta e muitos anos desde que o vi a primeira vez e o encanto permanece. 

                                       A música – maravilhosa. A trama – algo realista, remete a um passado que não se sabe se visto ou vivido. 

                                    Posterior ao auge do neo-realismo do cinema italiano,do qual Vittorio de Sica, um de seus mestres, brindou o mundo com a história do casal Antonio-Giovana (Mastroiani e Loren), num filme onde a poesia visual impera. 

                                             

 

                                        Sem grande pretensão literária,  retrata a estória de um jovem casal apaixonado que é separado pela segunda guerra. 

                                            Ele vai combater na Rússia. Não volta. Mas também não é relacionado ente os mortos em batalha. 

                                               Buscando notícias ela consegue saber que ele foi visto pela última vez caído, extenuado, faminto e quase morto em um campo de neve.

                                            Ela parte para a Rússia em busca do marido.  Já madura, cabelos embranquecidos, não é mais a menina com quem ele se casou. 

                                                 Localizado,  ele sobreviveu.  Casou-se com sua salvadora e têm um filha. Ele, também, envelhecido. 

                                               O encontro que não acontece mexe com a vida dos dois. Tira completamente a paz de Antonio. E devolve a vida a Giovana. 

                                                     Quando – em Milão – acontece o encontro de ambos, dá-se o rompimento. Percebem que ainda se amam, mas a vida os separou irremediavelmente. Ela, entre lágrimas, o vê partir novamente – e para sempre – para a Rússia. Ele, arrasado, novamente a vê ficar em lágrimas na estação. Por amor se separam definitivamente.

                                                    Esse roteiro mostra o vazio deixado pela guerra na vida das pessoas. 

                                                  O filme, realizado de uma forma que era comum não só a de Sica, mas ao neo-realismo italiano, é feito com centenas de figurantes, pessoas comuns, idosas, que vivem nas pequenas cidades italianas, enfrentaram as privações das guerras, mostram no rosto como a vida lhes foi dura e a sorte cruel. 

                                               Mas tem um lado positivo – mostra, no cinema, a vida real, onde nem tudo dá certo e o fim não é açucarado como a falsa vida que o cinema americano vendeu ao mundo e criou uma geração de insatisfeitos e frustrados. 

                                             Porque a vida é feita de sofrimento e este pode não ter fim. O happy end só existe nos filmes americanos, na maioria bobos e vazios. 

                                             O realismo do cinema europeu muitas vezes funciona como um soco, assusta. Você é obrigado a parar, a sentir a dor da pancada moral.

                                             Mas nos faz crescer,  e aceitar melhor a vida,  com toda a carga negativa que ela nos traz.

                                          Por isso rever, tantas décadas depois, este belo e poético filme, foi um bálsamo, ver que a luta vale por si mesma, não pelo podium final

Apelo à paz

A paz é a tranqüilidade da ordem de todas as coisas (tranquilitas ordinis) – Santo Agostinho

 

Quero ler outros jornais. Quero assistir a outros noticiários. Não aguento mais estes a que tenho acesso.

Não quero mais essas manchetes violentas e tintas de sangue.

Não quero mais ler “matou a mãe e …” ; “casal assassinado enquanto dormia…” ; “morre turista atacada por tubarão” ; “novo caso de estupro coletivo na …””corrupção” … “corrupção”  e mais corrupção … … …

Cansei.

Mas cansei a um ponto de cansaço que acho não ter mais volta.

Que mundo é este? para que estamos aqui, trabalhando e pagando contas, envelhecendo sem ter vivido plenamente, sobrevivendo ao caos, à violência, ao medo…

Não é este o mundo que eu quero. Mas não sei o que fazer para mudar alguma coisa.

Sei que sou gentil, sei que tento viver minha vida sem incomodar ninguém e estou sempre disponível para aqueles que precisam de uma ajuda, uma palavra, um conforto.

Isso não basta. Minha gentileza é confundida com fraqueza.

Minha educação é confundida com falta de pulso.

Minha eterna disposição é confundida com ausência de cansaço físico.

E não é nada disso.

Por isso e por tudo o mais, cansei. Não quero mais.

Não quero mais saber de notícias, não quero mais navegar na internet, não quero mais encontros com amigos, familiares, colegas, conhecidos, nada, nada, nada…

Não quero mais que o telefone toque (mesmo porque só toca para trazer aborrecimentos, pedidos, cobranças descabidas).

Não quero mais que me procurem para queixas e me usar como repositório de problemas alheios.

Repetindo um ex-presidente da república, tudo o que quero é que me esqueçam.

Quero paz, quero leveza, quero tranqüilidade.

Quero olhar o mar sem ter que pensar no tsunami.

Quero olhar o céu sem me lembrar dos acidentes aéreos.

Quero andar livre no calçadão da praia sem recear assaltos.

A humanidade me cansou.

Definitivamente.

Edelweiss

Edelweiss (Leontopodium alpinum) é uma espécie vegetal da família Asteraceae –palavra alemã que significa “branco nobre” ou “branco precioso”.

                                                Existem muitas lendas relacionadas à sua flor, por exemplo, que ela adveio das lágrimas de uma jovem virgem.    Existe também uma lenda em que pessoas caem de abismos tentando colher um edelweiss.    Dizem ser uma prova de amor quando o rapaz sobe os alpes para buscar a linda flor para sua amada,   pois é um percurso muito perigoso,   e somente com muito amor para se arriscar dessa maneira. É a flor nacional da Áustria e Suíça.

                                               Edelweißpiraten era um grupo de jovens que fazia resistência ao regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. (Wikipedia)

 

 

                                               Recebo uma mensagem bonita, mas longa. O fundo musical é a música Edelweiss, sempre agradável de ser ouvida. Essa florzinha, tão típica do Tirol, me leva a dias distantes…

                                               Quando fui pela,  primeira vez à Austria,  uma de minhas irmãs estava junto.

                                               Em crianças fizemos mil planos de irmos juntas è Europa. Cada uma seguiu sua vida,  caminhos tão diferentes,   cidades distantes, viagens separadas, mas o amor sempre nos manteve unidas e próximas.

                                               Um dia tudo se encaixou. Fomos, os dois casais, dar um giro. Fazia muitos anos que as “sorellas” não passavam tanto tempo juntas. Foi maravilhoso.

                                               Ela se apaixonou profundamente pelo Tirol, os vales, as cores, embora fosse inverno os contrastes da natureza eram notáveis. Não havia edelweiss, só as lendas…

                                               Presentear com uma edelweiss significa amor eterno ou amizade eterna – a flor dura mais de cem anos depois de colhida.

                                               Acabou-se a viagem, voltamos ao Brasil, cada qual com sua vida.

                                               Um dia, em outra viagem, conheci Treze Tílias,  em Santa Catarina. Há muito tempo eu queria conhecer essa cidade, e finalmente deu certo de ir lá.

Só há um adjetivo: maravilhosa. Adorei. E surpreendentemente ali havia, à venda, edelweiss.

                                               Não resisti. Comprei um medalhão (não de corrente, mas maior, de parede, tipo quadrinho mais antigo) e o dei a essa irmã.

                                               Como um símbolo  –  de nossa eterna amizade,  de nossa  irmandade, de nossa resistência em deixar que a distância nos separe… ouvir a música, hoje, me trouxe essa lembrança de volta.

 

Poesia à vista de uma imagem – Subindo a escada (*)

 

 

Subirá

a escada   

salirai

le scale

porque estarei a sua espera

Abrirá a minha porta    

aprirai

la mia porta

e me encontrará onde me deixou abandonada

Sem nada dizer

senza dire nulla

não é preciso pedir perdão na paixão

Me tomará

entre seus braços

mi prenderai

tra le braccia

e devolverá todo o aconchego perdido

E me beijará

e mi bacerai

então a vida voltará a sorrir…

(*) Vico del Gargano, Puglia

Que dia é hoje?

Le jour est paresseux, mais la nuit est active. (Paul Eluard)

 

Sábado.

Janeiro.

2019.

Quantos janeiros, quantos sábados, quantas décadas nessa minha vida, que já prenuncia o fim de seu outono…

Mas sempre um gostinho especial no sábado.

Porque sábado é um dia especial.

Não tem a pressa dos dias da semana, correria, compromissos profissionais, cansaço e sobressaltos.

Mas também não tem o langor insuportável dos domingos. Que são dias mortos, os domingos – eles se arrastam indefinidamente, dias sem sabor. E, o que é pior: os domingos são, por natureza, a véspera das segundas. E isso, por si só, já é terrível.

O sábado não. O sábado é um dia ágil. Alegre. Inteiro seu. Sem hora de acabar. Pode começar muito cedo e terminar depois de seu horário solar, pode adentrar na madrugada do domingo, e tudo bem.

Um dia apropriado para bebericar. Para namorar. Para pensar.

Pode ser pura indolência.

Pode ser muita atividade.

Sem nenhum compromisso.

Sábado é dia de sol. Praia. Piscina. Passeios, filmes ou sorvete sem pressa nenhuma.

Dia de chop e cerveja. Noite de vinho e coquetel.

Tardes de preguiça e longas conversas.

O único dia inteiramente nosso na semana. Não é dia de nada. Não é véspera de nada. E o melhor: pode se atirar, se cansar, que no outro dia dará tempo para descansar.

Para isso existem os maravilhosos sábados: para apagarmos a correria dos chamados dias úteis, aqueles diazinhos que trazem a feira – segunda-feira, terça-feira… e vivermos nossa vida intensamente, de acordo com nossa vontade. E, se não der para fazer em 24 horas todo o nada que resolvemos fazer no sábado, podemos adentrar, sem culpa, no domingo, que será lucro…

Bom sábado a quem passar por aqui…