No espelho, o tempo

 

Quando não mais reconheceu os olhos da mulher que do espelho a olhava, entendeu que o tempo passara, a juventude se fora. 

Viu os cabelos embranquecidos moldando um rosto no qual o tempo – essa fábrica de monstros – desenhara riscos, as lágrimas e angústias colocaram sulcos, com seus contornos perdidos ao longo do caminho por onde viera, mas que não poderia recuperar. 

Viu as sombras em seus olhos deixadas pelo pranto, pelo desespero, pelas dores que colhera ao longo da vida, mesmo sem ter plantado. 

Tentou ver alguma coisa de outros tempos, um viço da juventude, um sopro dos sonhos realizados, mas o rosto duro e tristonho nada lhe mostrou. 

Queria enxergar no espelho o passado que se fora, o rosto perfeito que tivera um dia, a beleza que o tempo lhe roubara. Mas não conseguiu ver. 

Apenas viu a máscara que ainda é usada para flutuar no mundo que não mais lhe pertence, para se fazer aceita entre os viventes. 

E notou, resignada, que já não mais estava viva. Apenas ainda estava deste lado do espelho esperando a mão da morte alcançá-la. 

E pensou na ventura de se morrer jovem, antes que o tempo mostre sua força implacável. 

E pensou na ventura de se viver muito, deixando que o tempo lhe mostrasse a continuidade da vida nesta terra.

Envergonhada e silenciosamente fez uma prece agradecendo a velhice que evitara a partida precoce…

Les feuilles mortes ne se ramassent pas…

Essa frase tem uma sonoridade outonal fabulosa – como se fosse um início de depressão, uma nostalgia infinda, um toque sutil de um sofrimento indefinido.

No entanto, nada mais é que uma constatação da natureza, observação de agrônomo: Não se ajuntam as folhas mortas.

E por que?

Porque muitas folhas, quando caem e forram o chão passam a exercer papel importante no enriquecimento do substrato local, por isso devem ser deixadas ali, onde tombam, ainda que os ventos carreguem parte delas. Mas as que ficam, estas não devem ser juntadas.

Isso foi tirado de um artigo publicado por Alain Lompech no Le Monde, que dizia:  Les hibiscus mauves perdent déjà leurs feuilles qui s’amoncellent sur la pelouse. La tondeuse les ramassera. Mais celles qui tombent ao pied de cet arbuste resteront là où elles sont. Elles se décomposeront su place et enrichiront la terre en surface. Em attendant, elles sont d’um bien beau jaune. …. Elles protégeront du froid les Begonia evansiana qui poussent ao pied de la glycine. …

É a poesia da natureza por si mesma: as folhas caem porque é outono. Forram o chão cobrindo a terra. Que prazer caminhar sobre folhas mortas, seu som, seu cheiro…

 

O vento as leva, as ajunta, mas arbustos prendem algumas e as seguram a seus pés. E essas lhe servirão de cobertor, protegerão do frio intenso. E se decomporão no local, enriquecendo a terra que as acolheu.

E assim tudo se renova.

E nós, o que fazemos quando chegamos ao outono de nossa vida?

Caímos, porque o inverno da velhice não perdoa os que sobrevivem…

E somos varridos e ajuntados ou servimos de proteção, fonte de calor e nutrientes para aqueles que vêm depois de nós?

A escolha depende de cada um, não quando chega ao outono pessoal, mas na construção de sua vida.

Há pessoas que seguramos conosco, queremos que continuem ali, como guias, fonte de amor, de calor. Outras preferimos que as tempestades varram e ajuntem bem longe de nós.

Temos que tentar ser para os outros – arbustos novos que vêm depois, nosso futuro – as folhas a serem agarradas, valorizadas e não o lixo que é levado pela tempestade da vida.

E temos também que agarrar e segurar junto de nós as folhas das quais dependemos para ter um pouco de calor quando nosso inverno chegar, reconhecer e valorizar essas folhas tombadas de rara beleza em seu amarelo de outono.

A poesia da chuva

Sim, há poesia na chuva. A água que docemente cai do céu, limpa o ar, renova a vida.

Há poesia na chuva. Que cai em gotas como se fosse o pranto celestial por essa humanidade ingrata e violenta.

Há a poesia de um guarda-chuva unindo dois corpos que caminham pelas calçadas da cidade, sem pressa, sem preocupação, celebrando o amor.

Há poesia no corpo preguiçoso, que escolhe a tarde de chuva para ficar na rede da varanda, vendo os pingos correrem pelos telhados, ouvindo o doce murmúrio nas calhas e condutores.

Há poesia no canto dos pássaros que celebram a chuva e ávidos esperam que ela acabe para buscarem os bichinhos que surgirão nos gramados.

Há poesia no barulho gostoso e ritmado das gotas nas janelas.

Há poesia no cheiro da chuva que invade as narinas e nos remete a verões antigos, cozinhas toscas, fornos de lenha.

Há, ainda, poesia na chuva, que deixa, atrás de si, o radioso rastro de um lindo arco-íris…

Chopin, meu ídolo

Aprendi amar a música erudita em meus anos de conservatório. 

Tenho fases, e em cada uma elejo um compositor preferido para ouvir. Cada um tem sua magia, sua perfeição, sua característica marcante. 

Mas há um cuja música me eleva, tira-me do chão, deixa-me em alfa e em êxtase: Frederic Chopin.       

Para mim sua música é completa, é linguagem angelical, é força, é beleza. Indescritível.

Tenho que a Fantasia Improviso é a música mais bonita já ouvida por um ser humano. Nenhuma outra a supera, nenhuma outra a alcança. 

A força mágica que emana desta melodia é simplesmente a elevação da alma. 

Ouça-a calmamente, na penumbra, olhos fechados e se deixe levar pelas frases perfeitas da música de Chopin. Você sentirá que saiu de seu corpo, que sua alma levitou por lugares desconhecidos e fabulosos. Uma experiência para jamais esquecer. 

Dentre as  Polonnaises é a “Heroïque” que considero a nº 01, com seu protesto contra o que se passava na distante pátria, o sofrimento de um povo subjugado integralmente traduzido em uma melodia cuja força atravessou as fronteiras e os séculos. Daí sua inegável perfeição. A “Military” também é linda, superior a 98% das composições existentes. 

E os Nocturnos? Ah, os Nocturnos de Chopin, que melodias inigualáveis, sussurros dos anjos em nossos ouvidos… as Waltzs…. as Sonatas… 

E a incomparável Marcha Fúnebre. Traz em si o peso da dor de uma despedida tanto inevitável quanto irreversível. Chora por si. 

Não viveu muito o Chopin – a tuberculose, mal do século à época, o levou, como a tantos artistas de então. 

Até essa morte se cobre de uma aura especial, que só vemos nos poetas e compositores que morreram de tal moléstia. 

Uma vida curta, não muito feliz, atormentada, longe da família, dividido entre a fama – Paris – e a pátria/família – Polônia, até depois da morte. 

Estive no nº 12 da Place Vendôme, onde ele morreu – na época ali funcionava a embaixada da Polônia.

Visitei seu túmulo no Père Lachaise em Paris.

 

Aqui foi enterrado seu corpo, mas não seu coração – extraído, furtado e clandestinamente levado por sua irmã para a Polônia, onde foi emparedado na nave da Igreja de Santa Cruz em Varsóvia.

 

Um dia ainda visitarei seu coração também – levarei o meu para bater próximo do seu.

 

Mulheres pioneiras – 01

Amelia

Amelia Mary Earhart (AtchisonKansas24 de Julho de 1897 — desaparecida em 2 de Julho de 1937) foi pioneira na aviação dos Estados Unidos, autora e defensora dos direitos das mulheres. Earhart foi a primeira mulher a receber a “The Distinguished Flying Cross”, condecoração dada por ter sido a primeira mulher a voar sozinha sobre o oceano Atlântico. Amelie desapareceu no oceano Pacífico, perto da Ilha Howland enquanto tentava realizar um voo ao redor do globo em 1937. Foi declarada morta no dia 5 de Janeiro de 1939. Seu modo de vida, sua carreira e o modo como desapareceu até hoje fascinam as pessoas.(Wikipedia)

 

Assisti Amélia, o filme estrelado por Hilary Swank no papel-título e Richard Gere como Georde Putnam, baseado na biografia escrita por Susan Butler, Mary Lovell e Elgen Long, com direção da indiana Mira Nair. Simplesmente fabuloso, digno se ser visto.

Mostra com bastante fidelidade parte da vida da aviadora americana Amelia Earhart.

Surpreendente a coragem dessa mulher, de se lançar em vôos – solos e acompanhada – através do Atlântico e do mundo, no tempo em que a aviaçao comercial engatinhava.

Sua aura se deve, principalmente, ao reduzidíssimo número de mulheres que o faziam naquele tempo (até nos dias atuais não há grande número de mulheres pilotando aviões).

Era um salto no escuro, uma vez que não dispunham de comunicação com a terra satisfatória, os rádios não eram tão desenvolvidos como hoje, o vôo era integralmente pilotado, não existiam aparelhos auxiliares.

O filme mostra bem como era tosca a aviação na primeira metade do século XX.

E também surpreende a personalidade de Amelia, que é livre de alma e ações.

Se a ligação dela com George Putnam se consolidou foi simplesmente porque ele a aceitou como era. Muito ilustrativa a frase que ele diz quando Amelia e Gene, amigo comum que fora amante de Amelia, a tenta demover da idéia da circunavegação, e, sem sucesso, se vai desejando boa sorte à aviadora. A seu lado lhe diz o marido: “Ele não entende”, e ela sorri.

Realmente, o que mantinha unidos George e Amelia era que ele entendia: entendia a necessidade dela de voar, de se aventurar, de ir além. Sabia que a mulher não era pássaro de gaiola.

E não somente a entendia, como a auxiliava a angariar fundos para realizar seus sonhos, ajudou a comprar aviões, deu todo apoio, embora deixe patente a dor de vê-la ir-se a cada partida, porque não sabia se voltaria.

E quando Amelia não voltou George envidou todos os recursos a seu alcance para encontrá-la, ou, ao menos, descobrir o que houve.

Esse filme dá vida e cor à história encantadora e desafiante de Amelia Earhart, uma mulher que viveu além de seu tempo, que desafiou as distâncias e não se deixou dominar.

Vale a pena assistir, garanto…

(03.07.2010)

Imenso mar

Senhor, não permita que eu seja um cordeiro perante os fortes, nem um leão perante os fracos.

 

 

 

Incessante, incansável, o mar canta em frente de minha casa noite e dia, dia e noite.

Espetáculo por si só, sua presença, sua cor, sua forma, seu movimento, tudo encanta.

Mistério insondável, de onde vem tanta água, tanta força, tanto equilíbrio. Uma imensa superfície, uma evaporação desmedida, mas não diminui seu volume. E a chuva não o aumenta.

Onde está a aquarela com a qual se tinge periodicamente – águas azuis, águas verdes, águas cinzentas, águas marrons. Será que muda a cor conforme o humor?

E a altura das ondas, por vezes tão baixinhas, tão mansas, que nos convidam a caminhar mar adentro; outras vezes tão altas, tão fortes que nos expulsam logo nos primeiros passos.

Caminho horas à beira-mar e nem a atração nem o encantamento diminuem com o passar dos dias.

A primeira ação ao acordar se tornou abrir a janela e olhar para o mar. É uma graça divina morar neste lugar, poder admirar o mar desde o acordar até a hora de dormir novamente. Sempre ouvindo seu canto de paz.

Bálsamo da alma e do corpo, esse presente divino me prende definitivamente nesta cidade, já não consigo ficar muitos dias fora daqui, sinto falta do mar, da imagem do mar, do cheiro do mar, de seu marulho.

Quando dele distraio ele se agiganta e levanta ondas de um verde esmeralda transparente coroadas de espumas tão brancas que é impossível permanecer indiferente. Então deixo o que estou fazendo e fico a olhá-lo, cheia de paixão e admiração.

Nada sou diante do mar, pouco mais que um grão de areia, um bichinho terrestre que se quer marítimo, insignificante, que poderia ser tragado de imediato ao me aproximar, mas ele brinca comigo, me puxa e me devolve.

Como se fosse um cavalheiro às antigas, que corteja, que requesta, mas só pelo prazer de arrastar a dama, não para levá-la consigo de vez.

E eu me deixo levar, qual namorada apaixonada, me solto em seu regaço, e delicadamente ele me traz e me deposita sobre a areia, sua constante guardiã.

Talvez um dia ele se apaixone por mim e me leve para suas profundezas…

(27.03.2009)