No espelho, o tempo

 

Quando não mais reconheceu os olhos da mulher que do espelho a olhava, entendeu que o tempo passara, a juventude se fora. 

Viu os cabelos embranquecidos moldando um rosto no qual o tempo – essa fábrica de monstros – desenhara riscos, as lágrimas e angústias colocaram sulcos, com seus contornos perdidos ao longo do caminho por onde viera, mas que não poderia recuperar. 

Viu as sombras em seus olhos deixadas pelo pranto, pelo desespero, pelas dores que colhera ao longo da vida, mesmo sem ter plantado. 

Tentou ver alguma coisa de outros tempos, um viço da juventude, um sopro dos sonhos realizados, mas o rosto duro e tristonho nada lhe mostrou. 

Queria enxergar no espelho o passado que se fora, o rosto perfeito que tivera um dia, a beleza que o tempo lhe roubara. Mas não conseguiu ver. 

Apenas viu a máscara que ainda é usada para flutuar no mundo que não mais lhe pertence, para se fazer aceita entre os viventes. 

E notou, resignada, que já não mais estava viva. Apenas ainda estava deste lado do espelho esperando a mão da morte alcançá-la. 

E pensou na ventura de se morrer jovem, antes que o tempo mostre sua força implacável. 

E pensou na ventura de se viver muito, deixando que o tempo lhe mostrasse a continuidade da vida nesta terra.

Envergonhada e silenciosamente fez uma prece agradecendo a velhice que evitara a partida precoce…

2 comentários em “No espelho, o tempo

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