Navios na tempestade

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage. (L’Ennemi, Charles Baudelaire)  

 

O mar quase transparente se colore entre verdes e azuis de forma absolutamente inacreditável. O céu monocromático de intenso azul. Ambos pontuados de branco – um com suas espumas, outros com suas nuvens. Brancos etéreos, igualmente feitos de água.

Em súbito de repente o vento chega, invejoso, desmanchando as espumas, esparramando as nuvens. 

O mar, plumbeado, se apressa em recolher e guardar suas cores. As ondas se desgovernam, já não sabem para onde ir, perdem seu ritmo. O azul do céu se desvanece em cinzas. A claridade se esvai… 

Atônitas, as pessoas se assustam. As que estão no mar correm para a praia, as que estão na praia se apressam em ir para o calçadão, e aquelas que nele caminhavam se dirigem para as casas. 

Ouço portas batendo com o vento. Ouço janelas sendo fechadas. A humanidade se recolhe. Medo do mar. Medo do vento… 

Continuo em minha varanda assistindo ao espetáculo da transmutação repentina. 

Na linha do horizonte, onde agora céu e mar se confundem, a única alteração são as luzes que se acendem, em pleno dia escurecido, nas dezenas de navios fundeados, esperando sua vez de entrar no canal. 

Não saem correndo, não pulam, não saltam. Continuam ali, imóveis, no vai-e-vem das marolas agora furiosas. 

 

Nenhum se apavora. Nenhum tenta fugir. Todos sabem que a tempestade vai passar. E, quando acabar, tudo voltará a ser como antes – mar calmo, céu limpo e azul, sol brilhando. 

Essa certeza os mantém calmos. Esperam os melhores momentos que sabem que virão. 

Comparo esses navios, tão grandes em si, tão pequenos na imensidão do mar, com as pessoas que fugiram, assustadas com a tormenta. 

Tão cheios de si, tão arrogantes, se sentem tão importantes. Mas diante da menor demonstração da força da natureza, saem correndo, tentando se abrigar, se esconder… 

Devemos ser, nas horas agitadas das procelas do destino, como os navios na tempestade: não tomam decisões, não se abalam, não se agitam. 

Confiam cada qual em sua âncora, que os mantêm fundeados, e, calmamente, esperam o fim da tormenta. 

Que nossa fé seja nossa âncora e nos faça confiar o suficiente para que, como Pedro, também possamos andar sobre as águas…