Momento

Pousou na mansidão que envolve o amanhecer

Sem tristeza nem alegria, no silêncio simples da manhã

Trouxe em si o doce perfume que evoca lembranças

E mostrou que para tudo há um novo recomeço

O amor, vestido de paixão, bateu à porta

E em ondas desordenadas passou a ocupar o espaço

Como um vento confundiu todas as coisas e

Numa lufada espantou tudo o que era triste, tudo

O que não era mais, tudo o que deixara de ser

Como se fosse uma estrela, ou um satélite

Seguia, encantada a teu redor: esperava, adivinhava até,

A tua chegada – planeta maior, com vida própria, em

Constante movimento, arrastando tudo pelo caminho.

Sabendo ser passageiro, não me preocupei em prender-te

Apenas dei o espaço necessário para um descanso

No aconchego gostoso de um encontro quase impossível

Quando então a natureza amiga se aquietou e permitiu

A imobilidade do momento eterno que se fez

Entre teu chegar e teu partir

O que temos para hoje

Aceita as surpresas que transformam teu planos, derrubam teus sonhos, dão rumo totalmente diverso ao teu dia e, quem sabe, à tua vida. Não há acaso. Dá liberdade ao Pai, para que Ele mesmo conduza a trama dos teus dias. (Dom Helder Câmara)

 

 

Hoje estou preguiçosa. Sem ideia para escrever. Sem vontade de escrever.

Estou com as asas cortadas e sem voar não consigo pensar nem criar.

Sou essencialmente livre. Não há a menor possibilidade de algo ou alguém me limitar e pretender que eu permaneça viva.

Mas a vida, às vezes se encarrega de nos pregar peças que não têm a menor graça. E assim me vi cativa, há mais de sessenta dias, por problemas de saúde na família. Sem sair de casa. Sem seguir minha louca rotina de administradora do caos, que é exatamente não ter rotina, não morar em nenhum lugar e ficar em todos. Viajar de um lado para outro. Morar em várias casas ao mesmo tempo.

Mas agora, tanto tempo na mesma casa, dormindo na mesma cama, vendo a mesma paisagem, meus olhos estão se nublando. Minha alma está se obscurecendo.

Preciso sair. Bater asas. Encontrar novamente comigo. Porque aqui estou mais sozinha do que quando viajo sozinha.

Estou mais sem norte do que quando vou de um lado a outro sem rumo nem pressa. A rosa dos ventos da minha vida está se desbotando, quase desaparecendo.

Que tudo volte ao normal enquanto estou conseguindo preservar minha sanidade mental…

O som do silêncio

Le silence est l’élément dans lequel se forment les grandes choses.

(Maurice Maeterlink)

 

 

O silêncio aqui no escritório é quase absoluto. Se não estou digitando só ouço o tiquetaquear do relógio da estante.

Gosto dessa ausência de sons, gosto de ouvir meus pensamentos quando converso comigo mesma. Não sei se estou ficando velha, mas a cada dia estou mais seletiva nas conversas, nas palavras, nos sons.

Tem sido muito difícil suportar festas, sempre com música estridente e alta demais. Já não se conversa com amigos nos jantares e festas. Fica todo mundo com cara de paisagem aguentando um barulho insuportável de um som ruim mil vezes ampliado em potentes caixas. Que não agrada ninguém.

Há algum tempo, tentando fazer compras em uma loja da Arezzo e quase não conseguia ficar lá dentro de tão ruim a música dita “ambiente”. E a explicação da gerente local é que se trata da rádio Arezzo, igual em todas as lojas. Mudei de marca…

E não entendo as pessoas que necessitam de barulho para viver, pessoas que mantém a televisão ligada – em alto som, para não se sentirem sozinhas…

Abrem mão de dois bens que são duas verdadeiras preciosidades para mim: o silêncio e a solidão.

O silêncio que faz aflorar o pensamento límpido, clareia as ideias, nos põe em contato direto com nosso ser interior de maneira calma e frutífera.

E minha grande amiga e companheira, a solidão, que permite que tudo isso aconteça…

Outros tempos

Houve um tempo em que as pessoas cultivavam valores diferenciados. E o dinheiro não era o mais importante.

Sempre tudo teve preço, mas alguns sentimentos tinham valor.

Era assim com a morte. Você perdia alguém muito amado, você se recolhia no luto e todos respeitavam sua dor.

Hoje você perde alguém e corre para a internet gritar aos quatro ventos que quer justiça e indenização.

Quando um filho morria, a mãe quase morria junto de tanto sofrimento. Hoje ela contrata um advogado e pede uma indenização, vendendo a vida do filho que se foi.

Era assim também com o crime.

A vítima de um crime era respeitada, resguardada e mimada pelos mais próximos. Hoje ela é explorada pelos meios de comunicação e exposta até o último grau que beira mesmo a indignidade.

E o criminoso era execrado publicamente. Se fosse preso, a família até se mudava de cidade, de tanta vergonha de ter um bandido.

Hoje, a mãe põe a cara na televisão em cadeia nacional e fica berrando que o filho é vítima da polícia.

Houve um tempo, até mesmo, em que a polícia era bem vista, os policiais eram respeitados.

Hoje qualquer bandidinho chega na audiência de custódia, ataca moralmente os policiais que o prenderam, ofende o promotor de justiça e xinga o juiz de direito. E as autoridades ainda pedem desculpas ao delinquente por ter sido preso.

Houve um tempo em que não pagar as contas era motivo de desonra. Hoje o calote é oficialmente institucionalizado. E é proibido cobrar o devedor.

Houve um tempo, e não faz muito tempo, que vergonha era algo pessoal. Hoje é pública e todos se orgulham de passá-la.

Que tempo é este?

Diálogo

– Então me conta: você agora é blogueira? Como foi isso?

 – Sim. Um dia eu me vi blogueira.

– E sobre o que é seu blog?

– Eu escrevo.

– Escreve o que?

– Textos, poesias…

– Sobre o que?

– Sobre tudo e sobre nada. Sobre amar e desamar. Sobre sofrer e ser feliz. Sobre partir e chegar. Sobre não ir ou ficar. Sobre a paixão e o querer.

– Mas, alguém lê isso?

– Não sei. Eu escrevo. É minha parte. Ler é a parte do leitor, não de quem escreve.

– Perda de tempo, escrever sem saber se alguém vai ler…

– Psiu… Escute…

– O que?

– Esse pássaro cantando nessa árvore aí na frente.

– O que tem? Ele canta o dia inteiro.

– Eu sei. Eu o ouço. Olhe ali, no canto…

– O que tem no canto? Não vejo nada…

– Como não, e aquelas flores que se abriram esta manhã, ontem nada havia ali…

– São flores do mato, apareceram do nada… estão aí para florir…

– E aquela grande árvore ali na frente, você a vê?

– Claro, só cego não a vê. O que tem?

– Veja a imensa sombra que ela faz.

– E daí?

– Daí que meus versos e meus textos são como o canto dos pássaros, o perfume a beleza das flores, a sombra das árvores.

– Não entendi.

– Os pássaros cantam porque sua missão é cantar. Espalhar no vento a doçura de seu canto e assim tocar o coração das pessoas. Enquanto às flores cabe perfumar o ar e enfeitar a natureza. E as árvores fazem sombra no chão a quem quiser aproveitar. A ninguém em particular. 

– E?

– E assim eu sigo escrevendo e jogando meus poemas ao ar. A ninguém e a todos. A quem estiver solitário, a quem estiver sofrendo, a quem quiser se alegrar. Quem tiver a alma doendo do desamor. Quem estiver com o coração vazio de paixão. Quem estiver machucado de solidão.

A poesia é o dom de abraçar o outro mesmo à distância. De dizer: eu entendo o que você está passando. Ler nos leva a um mundo apartado, tornando mais leve o peso de nossa caminhada. Um pássaro canta porque seu peito estoura se guardar para si o canto que traz. Não se preocupa com quem vai ouvir ou se será ouvido. Apenas canta e assim cumpre sua divina missão. As flores enfeitam, sem saber se alguém notará sua beleza ou sentirá seu perfume, enquanto as árvores fazem sombras para todos os caminhantes que precisam de um descanso. Não dirigem seu dom a alguém definido nem esperam recompensas. Assim eu escrevo. Deixo meus escritos a quem quiser ler. Um desafio ao pensamento, um bálsamo ao sofrimento, uma companhia para um momento solitário. Apenas isso.

– Entendi. Mas preciso pensar sobre o assunto.

– Pense, medite. Leve um livro para ler à sombra daquela árvore, e leia enquanto ouve o canto dos pássaros, sente o perfume das flores e descansa os olhos no colorido que elas oferecem… e então entenderá…

Amigos de uma vida

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Quem os olhará com orgulho,

Quem os manuseará com carinho?

Esses livros – companheiros de vida

Que se foram somando e se deixando ficar

Estão comigo há décadas e décadas

Por os ter, assim comigo, nunca senti solidão.

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

A quem interessará manter todos eles

Assim juntos, numa ordem que só eu conheço

Lidos e relidos a cada tempo certo

Trazendo tantas respostas

Fazendo companhia e dando conselhos

Não me deixando esquecer tantas tristezas

E proporcionando incontáveis alegrias

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Não mais os poderei ter comigo

E nem sei a quem os deixar para adoção

Como filhos que não queremos ver separados

Eles estão juntos há tanto tempo

Já se amoldaram uns aos outros para

Dividirem o mesmo espaço. Tantas mudanças,

Tantas casas, tantas cidades, e eles comigo.

Sem ordem de preferência, todos amados.

Como garimpeira urbana eu os encontro

Em sebos, livrarias, velhas bibliotecas abandonadas.

Alguns com a dedicatória do autor

Outros até mesmo com a capa estragada

Muitos vieram direto das lojas, novíssimos

Cada um traz sua história e sua verdade.

Um dia – cada vez mais próximo – terei de deixá-los

E partir na viagem sem nenhuma bagagem

Entristecida com a sorte de todos eles, eu pergunto:

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Dia de poesia – O mais-que-perfeito

  O MAIS-QUE-PERFEITO

           (Vinicius de Moraes)

 

 

Ah, quem me dera ir-me

       Contigo agora

Para um horizonte firme

       (Comum, embora…)

Ah, quem me dera ir-me!

 

Ah, quem me dera amar-te

        Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

        Que não presumes…

Ah, quem me dera amar-te

 

Ah, que me dera ver-te

        Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

        Jamais: cuidado…

Ah, quem me dera ver-te

 

Ah, quem me dera ter-te

        Como um lugar

Plantado num chão verde

        Para eu morar-te

Morar-te até morrer-te