Devaneios

 

Saudade igual farol – engana o mar / Imita o sol / Saudade sal e dor que o vento traz (Chico Cesar)

                                         

Quantas vezes se deseja ter o poder de se tornar invisível. 

Nem que seja por algum tempo, apenas para ficar lá, em paz, sem nada nem ninguém perturbar. 

Ou se deseja o poder de voar. Para ir além do possível. Lá, onde ninguém nos encontraria. 

Algumas vezes o mundo ideal é feito apenas de silêncio. Um profundo silêncio, tão denso que pode ser visto ou tão silencioso que pode ser ouvido. O contrário da balbúrdia. 

De vez em quando o ideal é um mundo verde. Como um bosque. Fresco, úmido, onde só se ouve o vento nas folhas. 

Ou então um mundo azul. Um imenso azul, que mistura o céu e o mar, e ficar ali, silenciosamente sendo ninado ao sabor do movimento da água. 

Um pedaço de mim não aceita a convivência, a humanidade, as convenções, os barulhos, a mistura de cores e formas. 

Tenho de lutar para aceitar o outro. Obrigar-me a sorrir, conversar, demonstrar interesse pelo mundo e pelas pessoas. 

Porque não é o meu natural. 

Queria morar numa ilha. De preferência no farol.

                         

Como uma sentinelle d’Iroise. 

Absolutamente sozinha. 

Nunca mais ler jornal, não saber da maldade dos homens, das misérias do mundo. 

Não sei porque sou assim.

Conjugando o verbo amar

Eu te peço perdão por te amar de repente,

Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. (Vinicius de Moraes)

 

Um dia Mário de Andrade nos brindou com “Amar, Verbo Intransitivo”. 

Deixando para lá o enredo, que não é do agrado geral, fico no título e sobre ele medito: “Amar, verbo intransitivo”. Para Mario de Andrade, eu amo. Ponto final. Eu amo porque amo. Eu amo por amar. Eu amo. Não interessa o que. Se amo alguém, se me amo, se amo o próprio amor. Porque não seria um verbo transitivo. Nem direto nem indireto. Mas um verbo intransitivo, sem qualquer complemento. Eu amo. Apenas.

Não, não é assim. Para mim amar é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém, ou ama algo. Ainda que ame a si próprio. Ou uma coisa desprezível. Mas ama com complemento. Portanto prefiro a outra forma: “amar, verbo transitivo”. 

Falo hoje não do amor, sentimento sublime, que une pais e filhos, que eleva, que apura, que doa, que tudo… Não. Nada disso. Falo do amor sensual. Ou melhor, da paixão quando denominada amor. 

O que seria do mundo sem esse amor-paixão? Já teria acabado há muito tempo. Por tédio, por inércia. Por verdadeira inação. 

Só agimos sob o signo da paixão. 

Vê-se de longe quem é, e quem não é, apaixonado. E não falo de quem está, ou não está, apaixonado. Porque não se trata de “estar”, mas de “ser” apaixonado. Como uma qualidade que a pessoa carrega consigo. 

Os apaixonados se arriscam, se lançam, se atiram, vão mais longe, querem chegar a algum lugar. 

Diferente de quem não ama ou não tem paixão: se deixa ficar, não busca, não sonha, não vai… 

A paixão é o sal e a pimenta do viver. Tempera a existência, dá gosto. Desperta o prazer de viver. 

Quanto mais se é apaixonado, aquela paixão que cega, de adrenalina, que faz acelerar o coração, que tira o fôlego, mais feliz se é. 

Colocar paixão em tudo – no estudo, no serviço, no que se faz por gosto e também em tudo que é feito somente por obrigação – torna a vida mais leve. 

Portanto, ser intensamente apaixonado nos torna melhores humanos, nos leva mais longe do ponto de partida. 

Esse verbo amar do amor-paixão tem de ser conjugado diariamente para que a vida valha a pena ser vivida. 

Mas, para mim, deveria ser modificado um bocadinho: o verbo amar não poderia, jamais, ser conjugado no tempo passado.

Nel mezzo del camim

Momento Poesia, hoje com soneto de OLAVO BILAC

 

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…

 

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

 

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

 

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Navios na tempestade

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage. (L’Ennemi, Charles Baudelaire)  

 

O mar quase transparente se colore entre verdes e azuis de forma absolutamente inacreditável. O céu monocromático de intenso azul. Ambos pontuados de branco – um com suas espumas, outros com suas nuvens. Brancos etéreos, igualmente feitos de água.

Em súbito de repente o vento chega, invejoso, desmanchando as espumas, esparramando as nuvens. 

O mar, plumbeado, se apressa em recolher e guardar suas cores. As ondas se desgovernam, já não sabem para onde ir, perdem seu ritmo. O azul do céu se desvanece em cinzas. A claridade se esvai… 

Atônitas, as pessoas se assustam. As que estão no mar correm para a praia, as que estão na praia se apressam em ir para o calçadão, e aquelas que nele caminhavam se dirigem para as casas. 

Ouço portas batendo com o vento. Ouço janelas sendo fechadas. A humanidade se recolhe. Medo do mar. Medo do vento… 

Continuo em minha varanda assistindo ao espetáculo da transmutação repentina. 

Na linha do horizonte, onde agora céu e mar se confundem, a única alteração são as luzes que se acendem, em pleno dia escurecido, nas dezenas de navios fundeados, esperando sua vez de entrar no canal. 

Não saem correndo, não pulam, não saltam. Continuam ali, imóveis, no vai-e-vem das marolas agora furiosas. 

 

Nenhum se apavora. Nenhum tenta fugir. Todos sabem que a tempestade vai passar. E, quando acabar, tudo voltará a ser como antes – mar calmo, céu limpo e azul, sol brilhando. 

Essa certeza os mantém calmos. Esperam os melhores momentos que sabem que virão. 

Comparo esses navios, tão grandes em si, tão pequenos na imensidão do mar, com as pessoas que fugiram, assustadas com a tormenta. 

Tão cheios de si, tão arrogantes, se sentem tão importantes. Mas diante da menor demonstração da força da natureza, saem correndo, tentando se abrigar, se esconder… 

Devemos ser, nas horas agitadas das procelas do destino, como os navios na tempestade: não tomam decisões, não se abalam, não se agitam. 

Confiam cada qual em sua âncora, que os mantêm fundeados, e, calmamente, esperam o fim da tormenta. 

Que nossa fé seja nossa âncora e nos faça confiar o suficiente para que, como Pedro, também possamos andar sobre as águas…

                                                    

 

 

 

 

 

 

 

A verdadeira estória do cravo e a rosa

– Demorou, hein? Se eu não encontrasse essa sacada para ficar embaixo estaria completamente molhado da chuva, faz quase uma hora que estou aqui esperando!  

– Desculpe-me, mas o compromisso atrasou, os convidados demoraram a sair e não podíamos desfazer a ornamentação… 

– É, esqueci que lugar de gente chique não termina nunca na hora marcada como os enterros, sempre tem mais um champagne, um foie gras…

 – Vai começar de novo? Já estou ficando cheia dessa sua conversa todas as vezes que nos encontramos. Nada posso fazer se sou uma rosa que tem compromissos tão sofisticados. É meu trabalho. 

– Ah, sim, esqueci que você é de um roseiral especial, onde ervas daninhas e outros afins nem podem chegar perto, por isso temos que nos encontrar nas esquinas… 

– Hoje você está atacado. Por que? Está com medo que eu pergunte onde você esteve ontem? E anteontem? Eu já sei…

– Ah, é? E onde eu estive?  

– Em um buquê, com margaridas, cravinas, prímulas… to sabendo de tudo…E anteontem em  uma coroa, com margaridas, flores do campo e sua ex, aquela insuportável dália …

– Quem te contou? A prímula rosa? Vou acabar com a raça dela… 

– Não foi ela. Foi o crisântemo. 

– Só podia ser. Fofoqueiro invejoso. E vive arrastando as folhas para você. Pensa que eu não percebo… 

– Nem fofoqueiro nem invejoso. Pelo visto é verdade. 

– Invejoso sim, ele quer envenenar você comigo, para ficar com você. Diz que é um absurdo uma rosa tão fina como você namorar um reles cravo como eu. 

– Não tem nada a ver. Você está procurando desculpas para brigar comigo. 

– Bem chega de conversa e vamos que estão nos esperando para o novo canteiro. 

– Sinto muito mas não poderei ir. 

– NÃO???? Você vai nem que seja à força, ou está com vergonha de ser vista comigo? 

Pegou-a pelos espinhos e sacudiu-a com violência. 

– Pare, me largue, você está me machucando, olhe o que fez com minhas pétalas, estão despedaçadas…

 – Ai, olhe minhas pétalas, olhe minha beleza, minha classe, meu perfume… você só pensa em você, estou cheio….

 Ele a soltou e ela caiu. A rosa gemeu.

 – Some de minha vista, seu nojento, porco chauvinista, egoísta, você só pensa em você e em seu complexo de inferioridade, Não tenho culpa se você não passa de um cravo sem eira nem beira, nem sei como fui me apaixonar por você. 

– Para, que você está indo muito longe, isso me machuca… 

– Machuca, é? Vai lá ver se as cravinas e a dália não curam sua feridinha. Para mim está tudo acabado. Fim. Ponto final. Você me despetalou inteira e tenho um coquetel para ir agora.

 – Vai pro seu coquetel e aproveita para ir pro meio do inferno também. Garanto que saio mais ferido que você desta conversa idiota. 

Virou-se e foi embora para um lado, enquanto a rosa, chorosa, tomava outro caminho. E foi assim que 🎼🎵O cravo brigou com a rosa 🎵/ 🎶🎶Debaixo de uma sacada, 🎵/ 🎶O cravo saiu  ferido, 🎶/ 🎵🎶E a rosa despedaçada🎶🎶🎵

 

De amar

O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar (Gilberto Gil)

Não é tão difícil assim amar. O problema não é o amor, mas a obsessão, a necessidade de ter o controle sobre tudo, de ver triunfar sempre a própria vontade ainda que isso acabe com a vontade e o sentimento do outro.

Em geral essa obsessão é devida à paixão e não ao amor.

Em nome e em razão da paixão age-se geralmente de maneira irracional. Adota-se o lema “O preço da fidelidade é a eterna vigilância”. E por isso tantos casais infelizes juntos ou definitivamente separados.

Esse controle da vida, dos passos e da vontade do outro aniquila qualquer sentimento positivo, anula a vontade de conviver. E aí vemos que Vinicius não estava assim tão lúcido com o seu “É melhor se sofrer junto que viver feliz sozinho”.

Porque, na verdade, é muito melhor ser feliz sozinho. O que importa é ser feliz. A caminhada do homem na terra é em busca da felicidade, ainda que para cada um ela seja diversa do que o outro busca como felicidade.

Mas um ponto comum todos têm: querem conviver, querem companheirismo. O casamento formal deve ser apenas um companheirismo legalizado, não uma sentença de prisão perpétua de condenado à eterna infelicidade.

Nenhuma pessoa tem o dom de prender a outra, seja por amor, paixão, obsessão, dinheiro, filhos…

Muitos aceitam covardemente continuar juntos, compartilhando um inferno particular porque não têm coragem de romper o círculo vicioso e viciado da situação criada e cômoda e partir em busca da própria felicidade. Quem ainda não foi capaz de se encontrar não tem como procurar nada fora de si mesmo.

Estar em paz consigo é a primeira condição. O ponto de partida. Esse sim, difícil de encontrar, conquistar e assumir.

Falar francamente ao convivente: “Você me sufoca, não respeita meu espaço vital, preciso respirar o meu próprio ar e você quer respirar por mim”. Essa é a segunda condição.

Muitas vezes o sufocador não se vê assim, é rara a pessoa que enxerga os próprios defeitos, e ter ciúmes é um defeito.

Quanto mais livre for seu amor, mais poderá amar você. Porque amor pressupõe a liberdade de escolher.

E se ele escolher ficar com você, será, sem dúvida, apenas por amor.

 

Rondel de l’adieu

Momento Poesia

Partir, c’est mourir un peu,
C’est mourir à ce qu’on aime :
On laisse un peu de soi-même
En toute heure et dans tout lieu.

C’est toujours le deuil d’un vœu,
Le dernier vers d’un poème ;
Partir, c’est mourir un peu,
C’est mourir à ce qu’on aime.

Et l’on part, et c’est un jeu,
Et jusqu’à l’adieu suprême
C’est son âme que l’on sème,
Que l’on sème à chaque adieu :

Partir, c’est mourir un peu…

 

( Edmond Haraucourt – Recueil : Seul, roman en vers (1890)

 

[Partir, é morrer um pouco
É morrer naquilo que amamos:
Nós deixamos um pouco de nós mesmos
Em todo momento e em todo lugar.

É sempre o luto de um desejo
O último verso de um poema;
Partir, é morrer um pouco
É morrer naquilo que amamos.

E nós partimos, e é um jogo
E até o supremo adeus
É nossa alma em que semeamos
Que nós semeamos em cada adeus:
Partir, é morrer um pouco …]